Memórias
 

Por Ana-chan


Capítulo 14: Novo Começo


 Deixei aquela floresta assim que restabeleci minhas forças. Não suportava mais olhar aquelas árvores, aquele lago. Tudo naquele lugar me lembrava Kurama. Sonhava com ele constantemente. Por vezes pensava nele como se não tivesse morrido. Tinha que ficar repetindo para mim mesmo que nunca mais iria vê-lo. Com o passar do tempo fui aprendendo a suportar a dor mas ainda assim sentia sua falta imensamente. Havia decidido que jamais me envolveria com outra pessoa daquele jeito. Cuidaria somente de minha própria vida.

 No primeiro ano, vaguei por todo o leste do Makai, roubando aqui e ali para sobreviver. Permanecia só e independente. Queria ficar desse jeito embora soubesse no fundo que o isolamento não fazia parte da minha personalidade e que cedo ou tarde teria que optar por alguma forma de associação.

 Não haviam de fato grandes escolhas que eu pudesse fazer para a minha vida. Na verdade, apenas duas: ser soldado ou ser ladrão. A primeira opção era inviável, afinal não haviam mais exércitos no Makai desde a dissolução do de Laizen. Finalmente me convenci que só restava ser ladrão.

 Em alguns meses era membro do bando de Kenzo, um youkai de 500 anos com grande tradição na arte da ladroagem. Em pouco tempo conquistei uma espécie de “cargo de confiança”. O fato de ter sido membro do “bando de Kurama” era, sem dúvida um dado extremamente diferenciador em meu curriculum. Ouvi falar que Kenzo tinha um braço direito chamado Liu que estava fora, numa “missão” especial. De fato, nossas atividades iam de vento em poupa. A notícia sobre o incêndio que aniquilou o grupo de Kurama havia se espalhado e com isso os proprietários de tesouros reduziram as precauções habituais, facilitando-nos o serviço.

 Meus companheiros viviam me crivando de perguntas sobre Kurama. Eu tentava me esquivar, não me abrir muito até porque detestava falar sobre esse assunto. Mas nem sempre despistá-los era assim tão fácil...

 Certo dia, estava sendo submetido a mais um desses interrogatórios quando ouvi uma voz desconhecida me falar.

“Chega desse papo sobre plantas, credo que chatice. Vamos ao que interessa! Por acaso o talzinho era sexy como diziam?

 Procurei de onde vinha aquele comentário pra lá de infame, mas não encontrei quem pudesse ser seu autor.

“Olha eu aqui, amor!”

 Virei pra trás. Era uma fêmea jovem, não muito bela mas com um formidável brilho nos olhos. Seus cabelos eram vermelhos e sua pele mais para escura. Sua roupa, bom, não sei se dava pra chamar aquela coisinha que ela usava de roupa... Me encarou de um modo desafiador, com um sorriso que ia de lado a lado em seu rosto.

“E aí, amor, não vai me contar se o Kuraminha era mesmo de tirar leite de pedra?”

 Pensei em dar-lhe um tapa pelo modo indecoroso com que se referia à pessoa mais importante da minha vida, mas desisti.

“Isso que você está perguntando não tem a menor relevância.”, respondi, tentando me manter calmo.

Aquela mulher só podia estar com algum dos ladrões do bando e achei melhor não comprar uma briga antes de saber com quem...

“Ah, amor! Pra você pode não ter mas pra mim tem sim... e muita!”

 Todos começaram a rir. Aquilo já estava passando dos limites.

“Escute aqui sua vadia. Não sou seu amor... E não me irrite ou te mato agora mesmo!”

 Ela gargalhou.

“Ai que medo! Socorro que o chifrudo quer me matar!”

 Mais risos. Decididamente aquilo era demais. Decidi surrá-la. Quando já ia levantando o braço Kenzo se aproximou.

“Yomi, Liu. Então já se conhecem.”

 Parei estupefacto. O poderosíssimo Liu, famoso ladrão e primeiro comandante de Kaizo era aquela mulher vulgar, debochada e de risada obscena. Fiquei pra morrer...

“Olha Kenzo, benzinho, esse seu novo comandante é muito mal humorado. Disse que ia me matar só por causa de uma curiozidadezinha minha...”

“Liu, dá um tempo, OK? Yomi é novo aqui e ainda não se acostumou com a sua “porra-louquice”.

“Tudo bem, gato! Você manda.” E olhou novamente para mim. “Me desculpe tá bom, amor. Não pretendia ofender a memória do seu amiguinho. É que, você sabe, eu já tinha ouvido cada coisa!!! Que ele tinha assim uma bundinha....”

“LIU!!!”, berrou Kenzo.

“Ops! Desculpe euzinha de novo amor. É que eu me empolgo com essas coisas. Até que você não é de se jogar fora, sabia?... Ops de novo! Bom, vou indo antes que diga mais besteiras. Até mais, amor!”

 Quando ela sumiu de vista comecei a falar.

“Kenzo! Que diabos era aquilo?!”

“Olha, eu sei o que você deve estar pensando. Eu sei que ela parece uma louca e na verdade ela é muito pior do que isso mas uma coisa eu te digo: Liu tem o youki mais poderoso que eu já vi em mais de 500 anos de vida. Classe A, dá pra imaginar? Mais uns anos e ela põe fogo no Makai que nem o Laizen há uns séculos atrás.”

“Pois eu não aturaria aquela histérica nem que ele fosse mais poderosa que Enma.”

“Eu sei que é difícil se acostumar com ela no começo, mas acredite, é uma das criaturas mais capazes do Makai. Não poderia abrir mão se seus serviços.”

“Escute bem, Kenzo. Não quero desrespeitá-lo mas juro que sumo daqui sem dar satisfação se aquela mulher se meter comigo.”

 Liu não fazia outra coisa que não fosse me irritar mas nunca cumpri a promessa que fiz a Kenzo. Sabia que dificilmente arranjaria bando melhor. Com o tempo, fui me acostumando à maneira escrachada de Liu. Até a achava divertida as vezes. Era de fato muito poderosa. Concentrava energia do próprio youki nas mãos e a expelia provocando impactos gigantescos. Só havia visto esse tipo de manifestações poucas vezes na vida mas a que era comandada por Liu era de longe a mais destruidora.

 Uma dia ela se aproximou de mim e perguntou naquela linguagem que lhe era peculiar.

“E aí, amor, tá afim de aprender a fazer um estrago maneiro?”

“Já te disse que não sou seu amor.”

“Só porque você não quer! E aí, tá afim?”

“Aprender a fazer estrago com o que?”

“Seu ki, ora.”

“E você acha que pode ser a minha professora?”

“Claro amor! Adoro mandar em garotinhos!”

“Que diabos, Liu, já te falei para não me chamar assim. E fique sabendo que não sou um garoto, já tenho quase 150.”

“E eu quase 300. Perto de mim você é garoto sim senhor. Como é, topas umas liçõezinhas?

“O que você ganha com isso?”

“Garoto esperto! Bom, meu preço é o seguinte: cada aula que te dou você responde uma perguntinha minha, combinado?”

“Só isso?”

“Claro, amor!”

 Concordei em ter as ditas aulas com Liu só pra ver no que ia dar. Achei que as lições só poderiam ser ridículas vindo de quem vinha mas como não iria ter que pagar não tinha importância. Me enganei duplamente. As aulas foram surpreendentes. Liu me ensinou técnicas de uso do youki para amenizar impactos e proteger o corpo que nunca deixei de usar. Minha agilidade aumentou muito e eu mal podia acreditar nas minhas novas habilidades. Ela dizia que eu era um talento promissor e parecia sincera ao me elogiar. Já quanto ao pagamento... foi muito pior do que tinha imaginado. Liu me perguntava coisas indiscretíssimas. Quase desisti das aulas só para não ter que responder suas perguntas. Sempre que terminava a lição lá vinha ela...

“Entendeu tudinho, amor? Que ótimo! Então chegou a hora da minha perguntinha!!”

“E o que vai ser dessa vez?”

“Bom, deixa eu ver...”

“Será que você poderia deixar a sacanagem de lado só um pouco pra variar?”

“Credo, amor, como você é pudico! Tudo bem, vou perguntar outra coisa dessa vez... o que vai ser... ah! Sim, o Kurama era gostosão mesmo?”

“Você disse que não ia perguntar sacanagem?”, rebati, “Será possível que só pense nisso?”

“Qual é, amor?! E o nosso trato? Quem pergunta sou eu e não você.”

“Tá bom.. Se você faz tanta questão de saber sobre uma pessoa que já está morta eu te digo. Ele não era “gostosão”, mas era muito bonito, talvez até demais. Não gosto que você fale dele nesse tom. Ele era meu amigo e não tinha mais de 18 quando morreu...”

“Puta que pariu!! Vai me dizer que o leste do Makai inteiro se cagava de medo de um pirralho de 18 anos!!!”

“Isso mesmo que você ouviu. Será que dá pra você deixar ele em paz agora? Você não tem respeito pelos mortos?”

“Puxa vida, amor! Tu era mesmo ligadão nele. Vocês transaram?”

 Contei até dez e resolvi fugir pela tangente.

“Já respondi a pergunta que te devia.”

“E eu tô perguntando por conta da próxima aula. E aí, transaram ou não?”

“Claro que não e você me deve uma aula grátis.”

“Qual é, amor? Será que não consigo arrancar nada de interessante de você hoje?”

“Tô indo, Liu. Até amanhã.” Virei as costas e comecei a andar em direção do acampamento.

“Mas você gostava dele muito, não?”, perguntou Liu num tom surpreendentemente sério.

Parei sem olhar para trás.

“Bem mais do que você poderia imaginar.”

 Liu continuou com as aulas e com as perguntas indecentes, é claro, mas nunca mais tocou no nome de Kurama...