Capítulo 13: Morte
Após aquela tarde decidi que teria que tomar de volta as rédeas da minha vida. Lutar pelo que queria, como sempre havia feito.
Pensava no que houve, ou quase houve entre eu e Kurama. Não entendia como podia ter agido daquele modo. Mesmo depois de tudo que já havia feito por ele, foi naquele momento que tive absoluta certeza que o amava, como nunca tinha amado ninguém na minha vida. Aquilo era como uma doença e o pior é que eu não tinha a menor vontade de ser curado. Mesmo assim não tinha coragem para lhe dizer o que havia se passado. Tinha esperança que se lembrasse.
Não pude evitar de notar que Kurama mudou após ter sido solto. No começo achei que era apenas reflexo de tudo aquilo por que tinha passado. E não era só ele, tudo no subterrâneo parecia estar diferente. Kaizo estava mais calado e definitivamente bem menos provocativo. A prisão de Kurama não foi segredo para ninguém e por conseqüência toda a verdade por trás de suas relação com Najah veio a tona. Nunca aqueles túneis haviam sido tão silenciosos como naquele início de primavera.
Kurama andava calado. Tinha demorado um bom tempo para se recuperar totalmente dos ferimentos mas sua angústia parecia se prorrogar indefinidamente. Já não conversava comigo como antes, nem ria das besteiras que eu dizia. Não queria nadar no rio. Não lia mais. Passava horas deitado, na forma de raposa, se comportando como uma. Dormia algumas horas, acordava, vagava pela floresta, muitas vezes passava a noite por lá mesmo. Parecia não ligar para nada e nem para ninguém. E o pior é que cada dia que passava estava mais distante.
Do mestre, ninguém tinha notícias. Nunca mais tinha dado as caras na sala principal, onde seus discípulos costumavam se reunir a noite.
Certa manhã Kurama saiu bem cedo. Comentaram que ele iria roubar alguma coisa e não aceitou a ajuda de ninguém. Eu nem sequer o tinha visto sair... Embora estivesse preocupado com sua atitudes recentes, me alegrei ao saber que iria “trabalhar” um pouco. Julguei ser um sinal de que as coisas estavam começando a voltar para os seus lugares.
A noite chegou e Kurama não voltou. Uma enorme tempestade inundava a floresta do lado de fora. Estávamos todos reunidos na sala principal, como sempre. Alguns jogavam cartas, outros apostavam nos dados. Koji dormia num canto.
De repente Najah entrou na sala. Era a primeira vez que aparecia desde o episódio com Kurama. Sentou-se em sua poltrona e nos encarou. Os jovens pareciam amedrontados com sua presença e ele percebeu isso. Perguntou por Kurama. Kaizo informou que tinha saído pela manhã e ainda não tinha voltado. Najah ordenou que fosse lá para fora esperá-lo. Kaizo torceu o nariz mas obedeceu.
Só então percebi que o mestre estava me analisando. Agüentei seu olhar. Estava ansioso por desafiá-lo de alguma forma.
Vi quando chamou um de seus pupilos e disse-lhe algo. O garoto veio em minha direção.
“O mestre quer falar com você, siga-me.”, fui com ele, um tanto apreensivo, é verdade.
Fui levado por um caminho complicado até um compartimento apertado. Nunca consegui entender direito aquele labirinto, mesmo depois de ter ganho uma cópia do requisitadíssimo mapa de Kurama. Logo ao entrar achei aquele local meio familiar. Me lembrei que era o quarto onde havia visto Kurama ser espancado há mais de um ano, bem quando cheguei. Senti um arrepio.
Najah entrou. Me olhou de alto a baixo. Percebi que havia um certo pesar na sua expressão.
“Chifres novos?”, perguntou.
“Isso mesmo.”
“Pois espere que cresçam. Só dão trabalho, não servem para nada.”
“São sinais de poder.”
“Você acredita mesmo nisso? Tire essa idéia infantil da cabeça, garoto. O poder vem do youki e não tem nada a ver com chifres.”
Senti o sangue ferver. Aquele cretino, como se não bastasse as coisas que fazia ainda achava que podia me tratar como a um de seus servos juvenis. Ele apanhou um punhal e encostou sua ponta na própria barriga.
“Vamos esclarecer logo um ponto, Yomi. Se deseja me matar faça agora pois não terá outra chance.”
Não me movi, chocado com sua atitude.
“Bom, já que você decidiu continuar parado aí, acho que podemos conversar como adultos. A propósito, quantos anos tem?”
“Quase cem.”
“Não passa de um adolescente, embora pareça um pouco mais experiente do que os outros que eu acolhi aqui. Uma tanto impetuoso, talvez. Uma dia aprenderá a se dominar se viver e tiver sorte para isso.”
“O que você pensa que é? Um vidente?”, perguntei, tentando vencer o medo. Fui interrompido.
“Ainda não terminei. Aproveite para ouvir quando alguém mais de 700 anos mais velho que você lhe conceder a honra de dirigir-lhe a palavra.”
Diabos, como era antigo! Tremi por dentro, mas permaneci firme. Ele continuou.
“Sinto o seu youki... não é de se jogar fora. Já pensou em desenvolvê-lo?”
“Já, mas eu... bom... não é de sua conta.”
“Pois deveria tentar aprender algo de útil. Não é grande espadachim pelo que me conste.”
Aquilo era demais. Avancei contra ele mas me senti subitamente paralisado. Uma energia desconhecida me envolvia e eu não conseguia me mover por mais que tentasse.
“Relaxe, garoto. Pare com essas bobagens. Não lute com o corpo, lute com seu youki!”
Senti um dor percorrer me corpo. Quanto mais me esforçava mais preso ficava.
“Moleque estúpido! Concentre-se!”
Parei de me debater. Já estava exausto mesmo. Não sei porque mais resolvi seguir o conselho do velho. Fechei os olhos e procurei dominar a dor. De repente senti uma força nascer de dentro de mim. Não estava mais cansado. Sem grande esforço, rompi a barreira que antes me tolhia os movimentos.
“Ora, muito bom. Você se saiu muito bem para quem nunca havia manifestado o poder antes.”
Estava de todo confuso. Odiava aquele ser pelas coisas que fazia com a pessoa que eu amava mas naquele momento seria capaz de beijá-lo pelo que acabara de fazer por mim. Não sabia o que dizer.
“Então, garoto, ainda me odeia tanto assim?
“Eu não o odeio.”, respondi, sem saber se estava mentindo ou não.
“Odeia sim... Sabe o quanto sou cruel com Kurama... e você o ama, não é verdade? Ou não estaria vivendo aqui. Entrou neste quarto pensando em me matar. Eu vejo isso nos seus olhos. Agora está confuso porque minhas atitudes o surpreenderam. Não me leve a mal mas você é um sujeito bastante previsível.”
“Você não sabe nada ao meu respeito.”, revidei, optando por uma resposta clichê.
“Será que não? Me avise se estiver errado. Você, pela sua aparência, veio do sul. É mestiço, evidentemente e odeia ser lembrado disso. Não conheceu seu pai e passou a infância o idealizando como um guerreiro poderoso embora no fundo soubesse que deveria ser um “pé-rapado” qualquer. Sua mãe era uma criatura apática e isso o irritava bastante. Mesmo assim a amava. Provavelmente se enfurecia ao constatar que se entregava a qualquer um. Como tinha a cabeça cheia de ilusões e não queria viver servindo de babá para irmãos menores, fugiu de casa antes dos 20 anos. Passou fome mas sobreviveu graças ao corpo forte que possui. Em algum momento iniciou uma viagem rumo ao oeste, com o objetivo de se lançar nas fileiras de Laizen e assim finalmente se tornar um guerreiro. Então, como me sai?”
Najah parecia ter lido a minha mente. Tinha acertado bem, quase tudo. Abaixei a cabeça.
“Não se envergonhe, garoto, e nunca abaixe a cabeça desse jeito. Não existem berços de ouro no Makai. Seu problema não é sua origem e muito menos seu sangue misturado e sim as caraminholas que enfiou na cabeça.”
“Por que está me dizendo tudo isso?”, perguntei.
“Retire-se agora!”, disse-me virando de costas.
“Por favor, responda minha pergunta.”
Najah respondeu-me, sem viram para mim.
“Estou velho. Sinto que meu fim se aproxima. Já estava mais do que na hora, vivi muito mais do que pretendia. Não sei por que mas me senti na obrigação de livrá-lo, ainda que só um pouco, da sua enorme ignorância. Agora vá!”
Obedeci. Não sabia se sentia raiva, pena ou respeito por aquele youkai. Voltei para a sala onde estava antes. Ainda não sabia o que pensar. Lembrei-me de Kurama. Já era noite fechada e ele não tinha retornado. Não me preocupei muito, acreditando que tivesse resolvido se abrigar da chuva em outro lugar. A maioria dos jovens já dormia. Não custou muito para que me juntasse a eles.
...
Um estrondo na madrugada acordou a todos repentinamente. Os sonolentos jovens levantaram-se atabalhoados. Não havia a menor dúvida. Estávamos sendo invadidos. Não sabíamos onde estavam o mestre, Kaizo e Kurama. Sem as lideranças habituais os garotos que me rodeavam pareciam perfeitas baratas tontas. Tive que me impor para que iniciássemos alguma ação defensiva.
Infelizmente todos os nossos esforços provaram-se inúteis. A medida em que os invasores avançavam, nós recuávamos, sendo empurrados em direção aos corredores mais estreitos. Os protegidos de Najah podia ser ladrões competentes mas eram totalmente inexperientes em se tratando se confrontos diretos. Sofremos vária baixas logo no começo. Quando já estávamos perto do quarto do mestre só restávamos eu e Koji. Gritei por Najah mas ele não me respondeu. Ouvi um gemido bem perto de mim. Koji estava ferido. Fugi, carregando-o. Finalmente encontrei o mestre, sentado num dos últimos compartimentos. Estava apático e praticamente no escuro.
“Najah, levante-se. Temos que sair daqui de qualquer jeito!”
Percebi que Koji já não respirava mais. Coloquei-o no chão.
“Diabos mestre, faça alguma coisa. Estão todos morrendo. Vão chegar aqui a qualquer minuto!”
Comecei a sacudi-lo, tentando movê-lo daquela apatia. Subitamente fui jogado violentamente contra a parede, sem que ninguém tivesse me tocado. Foi uma pancada extremamente forte mas não desmaiei de imediato. Reconheci aquela energia.
“Najah... por que?”, murmurei.
“Fique fora disso garoto. É entre eu e ele.”
Vi que os invasores já estavam na entrada mas não conseguia me mover. Sentia o sangue escorrer na minhas costas. Permaneci imóvel, ciente de que perderia os sentidos a qualquer momento.
Estava certo de que a sala onde estávamos seria invadida por aqueles bárbaros mas não foi. Apenas um deles veio. Minha vista falhava mas era impossível confundi-lo. Kurama tinha acabado de entrar. Tentei chamá-lo mas a voz não saiu. Alegrei-me mesmo assim por achar que tinha vindo em nosso socorro. Ledo engano. Não demorou para que ficasse mais do que claro para mim que ele era um dos invasores.
“Você demorou.”, disse-lhe Najah, “Estou aqui meu filho.”
Ele levantou-se e foi até Kurama.
“Tenha piedade de um velho fraco, meu lindo filho.”, sussurrou, enquanto acariciava os cabelos do youko.
Em seguida, Najah ajoelhou-se diante dele e abraçou-o. Kurama permanecia sem reação. Vi quando o mestre o beijou.
“Obrigado meu filho. Espero que me perdoe um dia.”
Não me lembro do resto da cena. Devo ter apagado antes que chegasse ao fim.
...
Não sei por quanto tempo permaneci desacordado. Quando voltei a mim tinha a impressão que estivera dormindo por semanas. Após alguns instantes comecei a me lembrar do que ocorrera. Percebi que ainda estava no mesmo lugar, embora não conseguisse enxergar direito.
Comecei a me mover mas me sentia como se tivesse acabado de sair de um moedor de carne. Demorou um pouco para que conseguisse me sentar. Aos poucos minha visão foi voltando. A primeira coisa que consegui distinguir foi Kurama, sentado no chão de costas para mim. A segunda foi o corpo de Najah estendido a sua frente.
Chamei-o mas não me respondeu. Me arrastei em sua direção. Ao me aproximar constatei que Najah estava morto. Estava totalmente enrolado numa espécie de cipó. Vi que havia sido estrangulado por aquela planta, certamente comandada por Kurama.
Voltei meus olhos para o youko. Estava coberto de sangue mas não vi ferimentos em seu corpo. Permanecia sentado olhando sem piscar para o cadáver, parecia até que seu espírito tinha deixado o corpo. Cheguei a pensar que também estava morto. Chamei seu nome várias vezes. Empurrei-o mas nada parecia poder tirá-lo daquele estranho transe. Pensei que pudesse ser obra de Najah mas rapidamente tirei isso da cabeça. Ele estava morto com olhos esbugalhados e língua para fora.
Quando me convenci que nada podia fazer, sentei-me ao seu lado. Comecei a atinar com o que tinha acontecido. Kurama tinha finalmente detonado sua vingança num acesso de fúria que arrastou junto com o objeto de sua ira todos os que estavam a sua volta. O surto só havia cessado com a total destruição de Najah.
Não sei por quanto tempo ele ficou daquele jeito, só sei que foi bastante. Subitamente começou a tremer como se fosse ter uma convulsão. Sua respiração acelerou bruscamente e lágrimas começaram a sair de seus olhos, escorrendo pelo rosto ensangüentado. Era como se pela primeira vez a imagem de Najah morto estivesse sendo captada por seus olhos. Kurama soltou um grito abafado, torcendo o corpo para trás e tapando os olhos com as mãos. Não sabia o que fazer então me limitei a observar enquanto o youko de desfazia em lágrimas e soluços. Ouvi que dizia algumas palavras mas não conseguia entender o que até o momento em que distingui uma frase que repetia incessantemente. Não tive certeza absoluta mas creio que o que dizia era “Que foi que eu fiz?”.
“Está tudo acabado agora, Kurama... Vamos sair desse lugar maldito...”
Ele já tinha parado de chorar mas continuava com a cabeça enterrada entre os braços. Reparei que havia um pequeno frasco vermelho perto dele mas não dei importância na altura.
“Vamos logo... ficar aqui não é bom pra você.”, insisti.
Ele se ergueu e num movimento rápido me empurrou com toda a força que ainda tinha. Caí de costas, sem entender.
“Foi você seu maldito...”, disse trêmulo, voltando-se contra mim. “Não teria acontecido se não fosse por estar aqui e eu te odeio por isso... Matei meu próprio pai... estou perdido pra sempre...”
Com um movimento rápido, o atormentado youko atirou contra o chão um barril, espalhando o líquido que estava no seu interior. Era o óleo que sustentava a iluminação dos túneis. Em seguida derrubou a luminária presa à parede. O fogo surgiu com força impressionante, espalhando-se incontrolavelmente. Eu estava de um lado das chamas e Kurama do outro. Ele estava encurralado pois não havia passagem em seu lado. Em questão de instantes já não conseguia mais vê-lo. Gritei como um louco, tentei alcançá-lo mas era impossível. Desesperado, fugi enquanto podia. Corri o mais depressa que pude, saltando os corpos que surgiam à minha frente. Consegui alcançar a saída do esconderijo justamente quando já começava a me sentir sufocado pela fumaça do incêndio que rapidamente tomou conta de todo o subterrâneo. Continuei correndo até chegar ao lago, onde me joguei na água sem pensar. Senti uma onda gelada percorrer o corpo, retirando o calor da minha pele. Saí da água e caí deitado de bruços, completamente exausto.
...
Quando acordei já era dia novamente. Me levantei e vi o rastro de fumaça riscando o céu. Imediatamente me lembrei de Kurama preso entre as chamas e voltei o mais rápido que minhas pernas puderam agüentar.
Chegando ao local da entrada, constatei estarrecido que o chão estava todo afundado. O incêndio havia destruído toda a sustentação interna e com isso o sistema de túneis desabou, enterrando toda a tragédia da véspera sem deixar quase nenhum sinal salvo a estreita trilha de fumaça que escapava de uma pequena abertura em direção ao céu.
Ante aquela paisagem, não pude esconder-me em esperanças
infundadas. Kurama estava morto. Tive certeza absoluta disso. Seu destino
estava cumprido. Finalmente encontraria alguma paz, pensei, tentando me
consolar. Senti que algo escorreu de meu rosto. Limpei com o dedo aquilo
que julguei que fosse sangue. Estava enganado. A gota não era vermelha
e sim transparente. Uma lágrima. A primeira e última que
derramei na vida.