Capítulo 12: Primavera
O fim de inverno não podia ter sido pior. Najah soube da festa em detalhes e aprisionou Kurama num compartimento perto de seu quarto. Não deixava que ninguém chegasse perto dele, exceto Koji que era o encarregado de lhe levar comida.
Para mim aquela situação estava extrapolando as raias do absurdo. Esperei Koji sair de perto dos túneis e o segurei a força.
“Me larga, Yomi!”, gritou o menino, deixando a bandeja cair no chão.
“Você não vai a lugar nenhum enquanto não me disser o que está acontecendo com Kurama!”
“Eu já te disse. Ele está de castigo e é só. Vai sair quando o mestre deixar. Me solta!”
“Isso é mentira, Koji. Me diz a verdade de uma vez, anda!”
“Não posso, me deixe em paz...”
O soltei. Vi que ele saiu chorando. Ouvi uma ruidera, como se muitos estivessem falando ao mesmo tempo. Fui até lá correndo. Todos os “pupilos” de Najah estavam num dos corredores atarantados com o barulho que vinha de um dos compartimentos. O mestre e Kurama estavam brigando como nunca. Kaizo tentava em vão dispersar os demais. Nunca aquelas cenas haviam se tornado tão acessíveis aos sentidos de todos. Até Kaizo parecia preocupado, não com a integridade física de Kurama, suponho, mas sim com o eminente fim da paz doméstica.
Acabei ajudando Kaizo a expulsar os outros do corredor. Ameacei entrar na marra. Kaizo me segurou, também na marra e me arrastou até outro lugar.
“Ficou louco? Quer morrer? Nem em sonho se meta nisso, está entendendo?”
“Eu tenho que fazer algo. Não posso mais conviver com isso!”
“Pois não conviva. Retire-se quando estiverem juntos ou vá embora de vez. Saiba que o último que tentou intervir nesta imundice acabou morto por quem estava tentando proteger!”
“Não interessa!”
“Interessa sim. Você é cego? Kurama se submete a isso porque quer. Ele não precisa deste esconderijo, nem de nós e muito menos do mestre. Será que você nunca percebeu que tudo nele é premeditado?”
“Você é neurótico, Kaizo. Tem tanta prevenção contra ele que não costura mais os pensamentos.”
“Pois pense como quiser mas tenha certeza que se entrar naquele quarto será um youkai morto em poucos segundos.”
Acabei não entrando.
...
Era uma bonita tarde de primavera. A primeira em muitos meses. Naquele ano o inverno durou muito mais do que o habitual. Estava sentado na beira do lago, perdido nos meus pensamentos.
A festa tinha ocorrido há exatos 60 dias atrás e havia exatos 59 que não via Kurama. Koji me garantia que ele estava bem mas eu sabia que estava mentindo, estava escrito nos olhos dele.
Continuei fitando o lago. Se por um lado revê-lo era ter certeza que os terríveis dias de inverno ficaram para trás por outro me lembrava que Kurama não estava ali para aproveitar tudo aquilo. Logo ele que adorava a primavera.
Vi de longe que alguém entrou no lago devagar como se a água estivesse quente ou fria demais. Julguei que fosse um estranho e me escondi para observá-lo. O sujeito tinha se deitado numa parte bem rasa, em que o lago se transformava numa espécie de banheira. Permanecia imóvel. Seria a minha oportunidade de atacá-lo.
Fui chegando por trás, com todo o cuidado. Seria fácil, o estranho parecia estar dormindo. Ao me aproximar vi que seu corpo resvalou para dentro d’água. “Que coisa!”, pensei, “Vai acabar se afogando sozinho. Melhor assim, não gostaria de matar alguém com orelhas como as de Kurama”. Senti algo estalar dentro de mim. Corri para o lago bem a tempo de tirar Kurama de dentro d’água.
Estava péssimo. Tinha emagrecido muito e haviam machucados por todo o corpo. Sua roupa estava rasgada e manchada de sangue. Mesmo assim não demorou muito para que voltasse a si, tossindo e pondo pra fora a água que tinha engolido. Quando abriu os olhos gritou e começou a me debater, me empurrando.
“Calma, sou eu, Yomi, seu amigo, você não se lembra de mim?”
Ele parou, não sei se por ter me ouvido ou por fraqueza mesmo. Desmaiou instantes depois.
Depois tê-lo acomodado perto de uma árvore na beira do rio. Me sentei ao seu lado pensando no que fazer. Naquele momento quis entender de plantas e remédios como ele para poder ajudá-lo. Ele se mexeu. Acordou de novo. Levantou-se cambaleando e caminhou até a borda. Sentou-se. Me sentei do seu lado sem dizer nada.
“Você sabe que eu faço aniversário na primavera? Não sei em que dia, mas acho que já posso dizer que tenho 18. Estou aqui desde os 10. Já são quase 8 anos... Não sei por quanto tempo vou agüentar mais isso...”
Não sabia o que dizer. Preferi abraçá-lo mas percebi que tremeu quando o toquei.
“Kurama, por favor me conte o que está havendo? Eu faço qualquer coisa para te ajudar, é só você me dizer o que é...”
“Ninguém pode me ajudar.”
“Mas não é você mesmo que vive dizendo que tudo tem um jeito, que é só pensar que ele aparece.”
“Eu não sei o que vou fazer dessa vez...”, me disse sem coragem de me encarar. Parecia muito cansado.
“Kurama, você não está nada bem. Se abre comigo, por favor.”
“Kaizo nunca te disse nada?”
Engasguei. Não queria mentir tanto para ele.
“Ele me contou umas coisas sim mas eu não confio nele. Quero ouvir de você.”
Kurama permaneceu em silêncio, de cabeça baixa.
“Como vão os chifres?, perguntou.
“Nada ainda... Olha, não mude de assunto assim. Não vai ajudar...”
“Yomi, você gosta de mim?”
Por essa eu não esperava.
“Que pergunta! Você sabe que te adoro. Já não te contei das maluquices que fiz para chegar aqui?”
“Gosta como?”
“Acho que mais do que de mim mesmo.”
“Você me beijaria se eu te pedisse?”
Fiquei meio descomposto com a pergunta. Pensei não poder se tratar do que estava pensando então me pus de joelhos e o beijei na testa.
“Não era bem esse tipo de beijo.”
Kurama beijou meus lábios. Senti algo se revirar dentro do meu peito.
“Kurama você tem certeza que...”
Não pude terminar. Ele me beijou de novo com mais força, deixando-se inclinar para o chão. O acompanhei já sem conseguir parar de beijá-lo.
Acreditei por instantes que havia chegado o momento de ter quem eu mais amei na vida nos meus braços. Poderia ter feito o que quisesse com ele mas não o fiz. Simplesmente não pude. Não era daquele jeito que o queria. Ele estava lá por vontade própria mas não pude evitar de perceber que não estava no seu juízo normal. Estava febril e murmurava coisas sem sentido. Parei e olhei para ele por um tempo. Definitivamente não poderia continuar com aquilo.
“Você não vem?”, ele sussurrou.
“Eu... eu acho melhor a gente esperar outro dia. Você está muito ferido, não quero te machucar ainda mais.”
“Não tem importância... eu saro rápido”, disse fechando os olhos.
Hesitei enquanto lhe acariciava os cabelos.
“Não posso. Te amo mas não posso. Você não sabe o que está dizendo. Como vou saber que me quer de verdade?”
Ele não me respondeu. Suspirou fundo e fechou os olhos. Dormiu quase que imediatamente. Senti que seu ki estava atuando. Iria se recuperar, portanto. Resolvi não levá-lo pra casa até lá.
Kurama dormiu por quase quatro dias inteiros. Fiquei o tempo todo ao seu lado, aproveitando para pensar no que faria. Estava decidido a propor que fugíssemos para algum lugar longe dali. Desafiaria o mestre se preciso fosse.
Senti um líquido escorrer de minha testa. Verifiquei que era sangue e fui até o lago me olhar. Notei duas saliências apontando para fora de minha testa, uma de cada lado. O sangue vinha da pele rompida. Meus chifre haviam despontado. Embora ainda fossem insignificantes, me senti extremamente poderoso e confiante. Najah que me aguardasse.
...
Quando Kurama acordou, estranhei não ter se levantado. Me aproximei com cuidado.
“Se sente melhor?”
Ele não me respondeu. Notei que os ferimentos haviam sumido mas ele ainda estava muito pálido. Segurou a cabeça com uma das mãos.
“Me diz logo, Kurama... não me deixe aqui assim. O que está sentindo?”
“Estou bem. Só meio tonto. Que lugar é esse?”
“O lago, não reconhece?”
“E como eu vim parar aqui? Não lembro de nada.”
“Você veio sozinho. Estava passando mal...”
“Ah... Eu disse alguma coisa?”
“Nada que fizesse sentido.”
“Quanto tempo eu dormi?”
“Quatro dias.”
“Isso tudo?”
“É.”
Ficamos em silêncio por algum tempo.
“Você sabe, não é?”
“Sei.”
Kurama abaixou a cabeça. Parecia envergonhado.
“Vamos embora daqui!”, disparei.
“Não adiantaria. Ele viria atrás de mim.”
“Não precisa ter tanto medo, eu vou estar com você.”
“Não é medo... não é só isso. Você não entenderia...”
“Então me explica.”
Ele não me respondeu.
“Vamos fugir!”, insisti.
“Não.”
“Eu vou desafiar o mestre. Se vencer poupo a vida dele em troca da sua liberdade.”
“Você tem cada idéia...”
“Por acaso você tem alguma melhor?”
“Tenho.”
“Me conta.”
“Não. Não quero te envolver nisso. Vou resolver essa situação
mas vai ser do meu modo.”