Memórias

Por Ana-chan

Capítulo 11: A Festa



 

A vida continuou, sem grandes mudanças nos meses que se seguiram. Eu bem que pensava em fazer algo a respeito da situação de Kurama mas acabei me acomodando do jeito que estava. Tinha um certo receio de por tudo a perder caso agisse sem cuidado e acabava adiando meus planos indefinidamente.

Mais um inverno estava chegando ao fim. Todos estavam se sentindo aliviando, a grande floresta talvez fosse um dos lugares mais frios do Makai, se é que podia continuar sendo chamada de floresta durante o inverno, já que nem uma folha verde sobrava para lembrar a paisagem habitual.

Aqueles meses foram especialmente difíceis não só para mim com para todos os que habitavam os subterrâneos. Não havia lugar para ir e o jeito era esperar o tempo passar com ou sem paciência.

Meus chifres ainda não tinham nascido. Acabaram me convencendo que demorava mesmo. Ainda bem que Kurama tinha me arrumado um remédio para abrandar a dor ou nem sei. Mesmo assim estava completamente entediado. Kurama me ensinou um jogo. Me explicou que era coisa de humanos, o nome era xadrez eu acho. Só que eu achei muito complicado e acabei desistindo de aprender, afinal, não entendia a razão de se esquentar a cabeça com uma batalha que não estava acontecendo de verdade.

Quando à Najah..., bom continuava tudo com sempre. Nunca o via. Só sabia que estava vivo porque Kurama ia ter com ele  de vez em quando. Infelizmente, essa era uma parte de nossas vidas que permanecia a mesma. A outra era Kaizo. Sua guerra fria contra Kurama só parecia esquentar enquanto a temperatura caía. O fato de estarmos todos presos nos túneis lhe facilitava consideravelmente os planos. O pior era quando me envolvia neles...

“Yomi, você viu o seu queridinho por aí?”

“Já te disse que não gosto que você fale assim dele. Ele tem nome, ouviu? E se for recado do mestre pode esquecer que eu não dou.”

“Nossa, como fica nervoso. Olha, não é nada disso. É que nós vamos ter um festa hoje a noite e queríamos que você viesse. Como você não vem sem ele, me pediram o sacrifício de convidá-lo.”

“Não sei..., vou pensar.”

“Vai ser legal, bem longe do quarto do mestre, numa parte do subterrâneo que nós mesmos construímos. A raposa sabe onde é, só que nunca foi convidada para ir até lá. Quer mais, se não nevar muito vai estar cheio de gente de fora.”

“Como assim?”

“Estou falando de garotas, seu tolo, ou você pensa que eu e resto dos meninos viramos monges no inverno?”

“O mestre sabe disso?”

“Acho que sim, mas não liga. Ele não liga para nada do que fazemos, só tem olhos para o filhinho querido.”

“E por que vocês estão chamando ele dessa vez?”

“Já te disse, não é coisa minha. Acho que é por sua causa. Você é popular entre os garotos, sabia?”
 
 

Fiz esforço para não demonstrar na frente de Kaizo mas fiquei enlouquecido com a estória da festa. Não estava mas agüentando aquele marasmo e muito mesmo a falta de, bom, dá pra imaginar o que. Fui direto para o cubículo onde Kurama gostava de se esconder quando lia aqueles livros enormes de que não desgrudava durante o inverno. Não teve falha, ele esteva lá, estudando como sempre.

“Kurama, você não imagina. Kaizo chamou a gente pra uma festa num lugar que você sabe onde, vai ter vinho, garotas, talvez até música, sabe a gente deve ir porque...”

“Yomi, não leva a mal mas eu não vou não.”

“Mas por que? Eu juro que mato Kaizo se ele te tratar mal!”

“Não é isso, é que... eu tenho que ajudar meu pai numa coisa essa noite... não vai dar mesmo. Vai sem mim, eu juro que não me importo.”

“Essa não! Eu não quero ir sem você, não quero dar esse gostinho pro Kaizo. Você tem que ir. Vai ser legal e a gente nunca sabe quando ele vão nos convidar de novo. Puxa, faz um esforço.”

“Olha, não dá mesmo. Me desculpe.”

“Kurama, assim não dá! Vai estar cheio de garotas lá. Eu não sei quanto a você mas eu estou realmente precisando de namorar um pouco.”

“Então vai, ué!”

“Você não entende. Da última vez que eu fui numa festa do Kaizo jurei que não voltava lá sem você. Não quero que ele fique pensando que eu preciso dele. Vamos só um pouco, por favor.”

“Vamos fazer assim, eu vou com você e saio logo em seguida. Você fica namorando e nem vai dar conta que eu saí. Tá bom assim?”

Reconheci que era melhor do que nada.

“Combinado.”
 
 
 

 “Kurama você ainda está aí! Já é noite. Você não vai se arrumar não?”

“Arrumar pra que?”

“Pra festa, oras!

“Ah é! Não dá pra ir assim mesmo? Nossa, Yomi, você está cheirando esquisito.”

“Vamos indo, tá?”
 
 
 

Kurama me levou até o local da festa. Kaizo e os outros tinham escavado aquele compartimento bem longe do quarto do mestre para este fim. Na verdade, não fazia exatamente parte do esconderijo de Najah. Tivemos que sair por uma passagem para a superfície e enfrentarmos alguns metros de neve espessa. Só então pudemos entrar por uma estreita passagem num grande salão, cuidadosamente escavado a exemplo dos túneis do mestre.

Quando chegamos já havia um bocado de gente lá. Fiquei maravilhado com isso. Há quanto tempo não ia numa festa de verdade. Definitivamente Kaizo levava jeito para organizar essas coisas.

Vi que Kurama fez uma expressão meio estranha quando bateu os olhos em Kaizo. Não entendi porque. Tá certo que ele estava vestido meio engraçado, todo de preto, com um chapéu esquisito. Talvez tenha só se sentido deslocado, sei lá.

Kaizo chegou perto de nós. Kurama se encolheu. Cheguei a pensar que fosse sair correndo.

“Não preciso avisar que não podemos dar nossos nomes de verdade para os estranhos, certo?”

“Não somos estúpidos!”, falei na convicção embora nada daquilo tivesse me ocorrido.

“Tudo bem. O vinho está logo ali... Não diga que é um youko, Kurama. Aqui somos todos mestiços sem sobrenome, ouviu?”

Kurama não respondeu.

“Yomi, olha,... eu já vou. Te trouxe aqui, cumpri minha parte. Não sei se gosto disso.”

“Ah não! Você prometeu que ia ficar um pouco.”

Acabei insistindo até convence-lo a não ir embora. Como já não bebia há um bom tempo, fiquei alto rapidinho. Não é pra me gabar mas em meio a tantos adolescentes uma quase adulto como eu chamava um bocado a atenção. Em menos de meia hora já tinha em volta de mim mais da metade das fêmeas da festa. Estava no céu, bêbado, cheio de pretendentes que ouviam embevecidas todas as minhas lorotas.

“Yomi, eu tô indo.”, se despediu Kurama.

“Isso é que não. Chega aqui, Ku..., quer dizer,...ah...deixa pra lá,... você nem começou a beber.”

“Quem é esse lindinho, Laizen?”, perguntou uma de minhas novas amigas.

“LAIZEN?!... Eu tenho que ir, tenho um encontro, tá lembrado?”

“Não, não e não! Senta aí!”, disse, empurrando Kurama para o chão sabe-se lá com que força.

Uma das garotas lhe ofereceu um copo de vinho.

“Eu não bebo vinho... me deixa enjoado.”

“Qual é lindinho? Quantos aninhos você tem?”

“Quase 18, eu acho.”

“Nossa aqui só tem pirralho mesmo! Pelo menos você é bonito. Olha se você beber tudo de uma vez não vai sentir nada...”
 
 

Não me lembro de muita coisa depois disso. Sei que Kurama bebeu, e muito. Acordei no dia seguinte naquele mesmo local, semi nu e semi enrolado com três garotas.

Estava nevando horrores do lado de fora, apesar de estarmos quase na primavera. Eu estava com uma ressaca tão violenta que custei até para me levantar. Lembrei de Kurama. Olhei em volta e não o encontrei. Vi Kaizo jogado em outro canto. Nem um sinal de Kurama.

Uma garota passou por mim ajeitando as roupas.

“Vocês viram um yo..., quer dizer, um garoto assim bem novinho de cabelos prateados e uma calda?”

“Ah! Aquele bonitinho?”

“Isso!”

“Saiu com uma amiga minha, uma sortuda ela.”

“Saiu... mas pra onde?”

“Ué, pra lugar nenhum. Acho que só foram lá fora. Tavam de fogo, foram tentar se esfriar na neve, sabe como é.”

Saí com uma flecha, arrastando a garota comigo. A neve chegava aos nossos joelhos. Continuei procurando apesar dos protestos no meu ouvido. Ela tropeçou e se esborrachou na neve. Percebi que havia um coisa enterrada lá. Era  outra garota. A que estava comigo a reconheceu como sendo a que havia saído com Kurama. Não estava morta apesar de tudo. Tive que levá-la para dentro antes de prosseguir. Kaizo já estava acordado. Disse a ele que Kurama provavelmente estaria em algum local naquele monte de neve. Aflito, pedi pra ele me ajudar a procurar.

“Tá doido. Vê lá se eu vou ser maluco de sair nesse tempo atrás daquela peste. Que morra. Mas pode deixar que eu tomo conta dessa daí.”, foi a sua resposta.

Não perdi tempo brigando. Saí logo em seguida. Perto do local onde achei a garota, vi a neve se mexer. Kurama estava tentando se desenterrar.

“Me desculpe! Que foi que eu fiz com você?”, disse, abraçando-o.

Estava gelado. Levei-o para os túneis o mais rápido que pude.

Alguns minutos perto do fogo foram suficientes para fazê-lo se recuperar do frio mas não da ressaca. Kurama saiu correndo de repente e eu fui atrás. Caiu ajoelhado na neve perto de uma árvore. Percebi que estava vomitando as tripas. Senti ainda mais raiva de mim por tê-lo feito beber daquele jeito.

“Kurama, vamos entrar, por favor. Tá muito frio.”
 
 

Levamos a tarde inteira para nos recuperarmos da bebedeira. Kurama estava péssimo mas lá pelo final da tarde se sentia melhor. Resolvi me desculpar.

“Eu quero que você me perdoe. Não tinha a intenção de te deixar tão doente.”

“Deixa pra lá! Não foi tão ruim assim, Laizen.”, disse rindo.

“Não enche, tá?... Foi o único nome que me ocorreu...”

“E depois sou eu que tenho mania de grandeza...”

“E as garotas, ein?”

“Ai, eu esqueci, tinha uma comigo, ela deve estar lá na neve...”

“Não se preocupe. Eu a encontrei antes de você. Ela está bem.”

“Nossa que susto. Como eu tô esquecido!”

“É assim mesmo. Você e ela...”,

Kurama riu, meio sem graça. Não sabia se sentia ciúmes ou se ficava contente por ele.

Subitamente Kurama ficou imóvel. Vi medo em seus olhos.

“O que foi? Tá sentindo alguma coisa?... Não fique aí parado com essa cara, me responda algo!”

Kurama abaixou a cabeça como se tivesse acabado de receber a pior das notícias.

“Esqueci de ir ver meu pai.”