Memórias

Por Ana-chan

Capítulo 10: Kuronue



 

Havia alguns dias que não me sentia muito bem. Acordava com dores de cabeça que custavam bastante para passar. Por vezes duravam o dia inteiro e eu perdia totalmente o ânimo. Procurava não me queixar para Kurama para não preocupá-lo, mas ele, esperto como só, percebia quando havia algo errado. Um dia senti tanta dor que resolvi confessar.

“Afinal, Yomi, vai me dizer o que você tem ou não? Não confia em mim?”

“Não é isso... É que há algum tempo venho sentindo muita dor de cabeça, não sei porque.”

“Onde dói?”

“Dói tudo, mas principalmente aqui.”, eu disse apontando para os cantos da testa.

Kurama olhou com cuidado e depois sorriu aliviado para mim.

“É meu amigo, pode ir se preparando porque não vai passar tão cedo. Pelo menos não antes deles nascerem.”

“Eles o que?”

“Seus chifres, ora!”

Fiquei parado, olhando espantado para Kurama. Estava bastante surpreso. Nunca imaginei que teria chifres pois sempre tinha ouvido falar que chifres eram sinais de poder. Não acreditava que pudesse ser o meu caso. Uma emoção súbita se apoderou de mim. Abracei Kurama que parecia estar sem entender a razão de tanta alegria.

“Nossa, Yomi... nunca pensei que ter chifres pudesse deixar alguém feliz.”

“Você não entende. Isso significa que sou poderoso...”

“Ah é! Pois para mim significa apenas que você terá buracos no travesseiro!”

Acho que teria matado qualquer outro que me dissesse uma piadinha naquele momento mas como foi dita por Kurama comecei a rir. Resolvi revidar...

“E essa sua calda aí. Coisa mais antiquada! Mal consegue se sentar... Vai dizer que não atrapalha às vezes.”

“... bom, as vezes, só um pouquinho. Mas não acho que conseguiria viver sem ela.”

“Pois um dia não viverei sem meus chifres... Será que vão ser grandes?”

“Espero que não. Os do pai machucam muito de vez em quando.”

Kurama me olhou, como se tivesse acabado de dizer algo que não pretendia.

“Machucam como?”, perguntei, esperando que se abrisse comigo.

“Não sei... não é de propósito, é claro. Podemos falar de outra coisa agora?”

“Podemos. Que tal falarmos sobre o mestre. Você nunca me contou nada dele.”

“Yomi, eu não...”

“KURAMA!!”, alguém gritou.

Era Kaizo correndo em nossa direção.

“Onde você tinha se metido? Te procurei por toda parte desde de manhã. O mestre está perguntando por você há horas, tá uma fera. Eu iria logo se fosse você.”

Kurama se levantou.

“Já estou indo.”, respondeu um tanto trêmulo, “Não se preocupe se demorar, tá?”.

Retirou-se rapidamente. Kaizo sentou-se ao meu lado. Havia um riso cínico em seu rosto. Parecia satisfeitíssimo com tudo aquilo.

“Você é um sádico, sabia?”, falei, me esforçando para não esmurrá-lo.

“Isso não é nem metade do que ele merece.”, provocou.

Não agüentei e dei-lhe um soco na cara. Kaizo me encarou. Achei que fosse reagir, me preparei para lutar, mas ao invés disso ele se recompôs e começou a falar.

“Tenho pena de você. Alguma vez aquele sonso te falou sobre Kuronue?”

O nome me soou familiar. Pensei um pouco e finalmente lembrei. Era o youkai que estava com Kurama da primeira vez que o vi, há cerca de três anos.

“Não.”, respondi secamente, disfarçando a curiosidade.

“É claro que não. A raposa não te contaria sobre o amigo que matou só para tirá-lo do caminho. Kuronue era meu irmão mais novo e amava aquele bastardo. E eu o odeio se quer saber. Quero mais que morra. Rezo para que um caçador competente o pegue um dia.”

“Você tem inveja dele, isso sim. Kurama não trairia um amigo. Poderia te matar se quisesse, não creio que o mestre se importaria, mas não o faz.”

Kaizo ergueu-se. Por via das dúvidas fiz o mesmo. Ele avançou contra mim.

“Você pensa que ele é lindo, não é... que é um a doçura em pessoa... acredita mesmo que aquela criatura tem bons sentimentos, boas intenções? Por acaso você nunca o viu lutar? Nunca o viu matar? Nunca percebeu o quando ele gosta de retalhar seus oponentes com aquele chicote?”

“Ele não é inocente, é um youkai como nós, um filho do Makai, é claro que destrói seus perseguidores sem piedade. Mas isso não faz dele um assassino de seus próprios amigos, disso eu tenho certeza!”

“Kurama matou meu irmão que era seu único amigo e disso EU tenho certeza!”, gritou Kaizo.

Ele acabou me contando sua estória. Ele e Kuronue vieram do sul do Makai, de uma pequena vila que por acaso não era muito longe da minha. Ficaram órfãos quando Kuronue só tinha cinco anos. Kaizo era mais velho e ficou tomando conta dele e conseguia arranjar uns trabalhos vez por outra mas isso mal era suficiente para alimentá-los. Certo dia, Kuronue apareceu com uma galinha morta. Sabia que era roubada mas comeram assim mesmo. Começaram a roubar para comer e acabaram banidos da vila. Vagaram pelo Makai sem destino e se perderam ao chegar na grande floresta do leste. Najah os encontrou e os levou para morar com ele nos túneis. Já haviam outros jovens morando lá. Era uma vida tranqüila e os dois não custaram a se sentir em casa no subterrâneo.

Certo dia Kuronue encontrou um filhote de raposa ferido e preso numa armadilha. Julgando ser um mero animal, levou-o para casa. Era um bichinho muito arisco mas com o tempo foi pegando confiança. Kaizo estava preocupado pois sabia que o mestre não gostava de animais em casa. Se descobrisse, teriam problemas. Kuronue costumava esconder “Kuni” (era o nome que ele deu à raposa) dentro de uma sacola sempre que tinha que ir ver o mestre. Essa estratégia até funcionou... durante um tempo.

Najah enlouqueceu. Todos sabiam como odiava ser contrariado. No dia em que descobriu Kuni escondido seus gritos enraivecidos ecoaram por todo o subterrâneo. Ele agarrou o animalzinho por uma das caldas e o sacudia sem parar. Kuronue chorava e só não partia para cima do mestre porque era segurado na marra por seu irmão. O mestre não teve dó, concentrou seu youki em uma das mãos e disparou contra Kuni quando este já iniciava uma fuga. O tiro pegou em cheio e o filhote foi jogado na parede. Se debatendo de dor o youko mudou de forma, para surpresa se todos. A transformação não só deteu os golpes do mestre como o tornou o principal interessado em sua recuperação.

Kurama tinha cerca de 10 anos quando tudo isso aconteceu. Era totalmente selvagem, mal conseguia se expressar. Tinha medo de tudo, até da própria sombra. O mestre se empenhou pessoalmente na (árdua) tarefa de torná-lo gente. Era evidente o quanto Najah estava encantado com Kurama. Adotou-o como filho e lhe dava de tudo, fazia-lhe todas as vontades. Se Kurama espirrasse já era motivo para tratá-lo como um bebê.

Apesar de preterido, Kuronue se tornou grande amido de Kurama. Tinham quase a mesma idade e andavam sempre juntos. Kuronue havia se tornado um ladrão inveterado e tratou de ensinar toda a sua “arte” para Kurama. Roubavam constantemente. Com o tempo o youko se tornou o líder da dupla já que planejava quase tudo sozinho. Kaizo ficava preocupado pois achava que seu irmão confiava demais no parceiro, seguindo-lhe cegamente até nos planos mais mirabolantes.

Só que com o passar do tempo o relacionamento entre Kurama e o mestre foi se tornando cada vez mais sórdido. Kuronue contava ao irmão as confidências que Kurama lhe fazia. Kaizo implorava para o irmão se afastar um pouco do youko pois tinha maus pressentimentos mas não era atendido.

Cerca de três meses depois de terem voltado de uma viagem pelo território de Laizen, bem mais demorada do que o mestre havia permitido, Kurama cismou de atacar um dos castelos mais bem guardados de todo Makai. Kaizo tentou proibir seu irmão de participar. Sabia que Najah  estava atormentando o youko ao extremo e temia que ele não estivesse na melhor forma, o que aumentaria o perigo para seu parceiro. Além disso, o plano era uma loucura total mas mesmo assim Kurama convenceu Kuronue, como sempre. Eles partiram. Kuronue nunca mais voltou.

Argumentei que aquilo foi uma coincidência, que ser ladrão implicava em risco. Foi aí que Kaizo me falou sobre um certo amuleto que pertencia a seu irmão. Era muito bonito e tinha o poder de controlar a mente dos fracos. Kurama o cobiçava e não escondia isso de ninguém. Após uns dias da morte de Kuronue, Kaizo descobriu o tal amuleto em poder de Kurama. Para ele, se tornou claro que houve um assassinato. Essa certeza só aumentava face às estranhas atitudes do youko.

Após o suposto “acidente” (a versão oficial era de que Kuronue tinha caído numa armadilha após voltar em plena fuga para buscar seu amuleto perdido), Kurama fez questão de recuperar o corpo de seu parceiro e enterrá-lo na floresta. No início passava horas sentado perto do túmulo, fitando-o apaticamente. As vezes explodia em crises de choro. Era evidente para Kaizo que tudo aquilo só podia ser remorsos. Ele queixou-se ao mestre que destruiu o local do túmulo num ataque de raiva. Kurama parou de comer e de dormir. Em poucas semanas parecia um zumbi, permanecia deitado num dos compartimentos, sem esboçar nenhuma reação. Kaizo se consolava com a certeza de que não iria demorar para que morresse, sentia-se vingado.

O mestre tentava de tudo para curá-lo daquele estranho estado mas nada parecia adiantar. Parecia doença, Kurama estava cada vez pior. Quando se julgava que já não havia mais nada a ser feito, Najah sumiu levando o youko consigo. Passou semanas sem dar notícias. Quando voltou, Kurama caminhava ao seu lado, totalmente recuperado.

Kaizo se revoltou mas como não podia fazer nada, resolveu puni-lo ao seu modo. Tornaram-se inimigos não declarados e eram como tal que conviviam desde então. Se suportavam quando eventualmente tinham que trabalhar juntos. Fingiam que se toleravam. E assim a vida continuou.

Quando acabou de falar Kaizo me perguntou.

“Ainda acha que eu estou enganado? Que Kurama não teve nada a ver com a morte de meu irmão?”

Não podia negar as evidências que me foram apresentadas.

“Sabe o que eu acho? Que Najah o obrigou a fazer isso.”

Kaizo deu uma gargalhada.

“Tá rindo de que?”

“Ah! Sei lá... É que você me lembrou... Bom, acho que Kuronue diria a mesma coisa se estivesse no seu lugar...”