Capítulo 9: Dias Seguintes
Logo nos primeiros meses em que passei como hóspede naquela estranha “sociedade” da qual Kurama fazia parte constatei alguns fatos bastante curiosos. Não existia e nem nunca havia existido um bando de ladrões liderado por Kurama e muito menos um grupo de seguidores com o propósito de fazê-lo rei. O que havia era um grupo de jovens sem eira nem beira que Najah permitia que se abrigassem em seus domínios subterrâneos em troca de fidelidade subserviente. Daí ser chamado de mestre por seus protegidos embora quase nada os ensinasse. Haviam quatorze youkais nesta situação. O mais jovem era Koji e tinha apenas doze anos. Só faltava tomar mamadeira. O mais velho era Kaizo e tinha uns 100 anos, por isso se havia auto-proclamado “líder” do bando, sendo aceito pelos demais como tal.
Kurama não estava na mesma situação dos outros. Era o preferido do mestre, que o considerava seu filho e lhe dedicava atenção “especial”, se é que dedicava alguma aos demais. As diferenças de tratamento eram indisfarçáveis e o grupo compensava sua condição de menosprezado rejeitando violentamente a presença do youko. Era freqüente se retirarem quando Kurama chegava, desde que o mestre não estivesse presente, evidentemente. Najah quando tomava conhecimento destes fatos castigava seus pupilos em represália apesar dos protestos de Kurama que sabia muito bem que isso não o ajudava em nada, pelo contrário.
O líder do movimento anti-Kurama era Kaizo. Acredito que se não fosse por sua influência sobre os demais nada daquilo aconteceria. Desconfiei de cara também que ele soubesse o que realmente ocorria entre o mestre e Kurama pois tinha grande preocupação em vigiar seu desafeto. Sentia um enorme prazer ao fazer relatos sobre as atividades “suspeitas” de Kurama, sempre exagerando e mentindo com o objetivo de instigar a fúria de Najah. Kaizo punha sempre todas as culpas em Kurama, mesmo dos fatos dos quais nem sequer havia tomado parte. Devo admitir que era um excelente orador, convencendo os outros “rejeitados” facilmente de suas teorias.
Pode não parecer mas essa situação era muito dura para Kurama. Sei que ele sofria muito por se sentir excluído da companhia dos outros jovens, embora jamais demonstrasse.
A verdade é que Kurama era muito só. Além do pai não tinha com quem conversar. Se estava no esconderijo, isolava-se nos compartimentos mais inacessíveis, onde ficava horas puxando pela cabeça. Tinha mania de aprender. Vivia estudando, mesmo coisas completamente inúteis. Tinha orgulho de se considerar um especialista em Ningenkai, embora ele mesmo não soubesse que serventia isso tinha. Vivia fazendo contas complicadas e inventando jeitos mais fáceis de se conseguir as coisas. Se aquele buraco onde vivíamos era razoavelmente confortável o crédito era dele que vivia tendo idéias para melhorar a iluminação e ventilação. Uma de suas invenções mais populares era um mapa dos túneis que até mesmo Kaizo tinha copiado. Até então volta e meia alguém se perdia por lá. Quando não estava em casa, ficava vagando pela floresta invariavelmente perdido em seus pensamentos.
Minha chegada alterou um pouco os hábitos da comunidade e bastante os de Kurama. Acredito que ele estava muito feliz por ter um amigo embora as vezes parecesse pesaroso. Estávamos sempre juntos e nos divertíamos muito. Conversamos somente sobre amenidades, nada de lutas e mortes. Me surpreendia em constatar o quanto Kurama era infantil, o que não era de se estranhar face a sua pouca idade. E pensar na fama que tinha...
Estranhamente, fui muito bem aceito pelo resto do grupo. Kaizo me respeitava, talvez por que éramos quase da mesma idade. Até me bajulava as vezes. Um dia, fazia pouco tempo que estava lá, me convidaram para uma festa. Sabia que o convite não se estendia à Kurama. Resolvi recusar mas Kurama insistiu que eu fosse.
“Vai lá, deve ser legal!”
“Não, de jeito nenhum. Te deixar sozinho para ir numa festa daqueles idiotas? Tá pensando que eu sou o que?”
“Vai seu bobo. É aniversário do Koji. Você não tem nada a ver com os meus problemas. Além do que eles devem ter vinho por lá. Aproveita e rouba uma garrafa pra mim.”
“Tem certeza que não tem problema?”
“Claro!”
Me senti um pouco culpado mas fui. Estaria mentindo se dissesse que foi ruim. Na verdade foi bem melhor do que pensei. Bom, até Kaizo vir falar comigo (um tanto embriagado).
“E aí? Sentindo muita falta da raposa?”
“Claro. Ele vale mais do que vocês todos juntos.”, respondi cínico.
“Ahnnn... Tá amarradão nele. Tô vendo! Olha, não espera muita coisa não, viu Yomi, aquilo já tem dono.”
“Tá falando do mestre?”
“E de quem mais?”
“Por que diabos você trata ele desse jeito?”
“É um metido, se acha melhor do que nós.”, foi só o que respondeu.
Pensei em afrontá-lo mas não o fiz. Estava bêbado mesmo. E depois, Kurama havia me implorado para não brigar por sua causa.
“Eles só vão ficar com mais raiva de mim.”, justificou.
***
Apesar de tudo, me sentia muito bem vivendo na companhia de Kurama. Não tínhamos o tipo de relacionamento que tinha imaginado mas me contentava em ser seu amigo. Tinha esperança que se viesse a se interessar por mim quando fosse mais velho. Só ficava embaraçado quando ele cismava de tirar a roupa na minha frente, o que não era raro, ou de brincar de algum jogo que envolvesse contato físico. Com algum esforço sempre consegui me controlar. Tinha horror à idéia de assutá-lo ou coisa assim.
Havia, é claro, uma dose de perigo em nossas vidas. As vezes nos deparávamos com caçadores, as vezes éramos perseguidos após um roubo, as vezes tínhamos que lutar bravamente, as vezes matava-mos sem piedade. Eram precisamente nestas atividades que Kurama fazia jus a sua fama.
Na verdade, só havia uma coisa que me incomodava muito: Najah.
Era sempre a mesma estória: Najah procurava por Kurama, Kaizo dizia
onde ele estava e Koji ia chamá-lo. Kurama obedecia e só
voltava dois, três dias depois. Eu ficava extremamente ansioso nesses
períodos e eu tinha que me esforçar muito para não
intervir quando a demora era exagerada. Nunca disse nada a Kurama que pudesse
fazê-lo desconfiar que eu sabia o que se passava. Queria que me contasse,
se quisesse. Embora nunca parecesse ferido, comecei com o tempo a notar
que, por melhor que disfarçasse, não conseguia evitar pequenas
reações como mancar levemente, perder o apetite ou ficar
sonolento. Concluí que aquelas situações deveriam
estar se agravando... Comecei a ficar seriamente preocupado.