Memórias

Por Ana-chan

Capítulo 7: Reencontro



 

Acordei. Pensei que estava morto quando abri meus olhos. Acima de mim uma parede de pedra. Olhei em volta. Mais rochas. Julguei estar em uma sepultura. Havia uma luz fraca naquele ambiente, produzida por velas. Notei que estava deitado sobre uma superfície macia e começou a me ocorrer que não poderia estar morto. Estava respirando. Só podia estar vivo... mas onde e como? Lembrei-me do animal, chegando à conclusão que não pude atinar anteriormente face ao meu estado de penúria. Era um youko. E bem mais vistoso do que aquele que vira morrer há tão pouco tempo. Só podia ser Kurama.

Ouvi uma voz familiar e doce falar comigo.

“Então você acordou? Pensei que fosse te perder... Como se sente?”

Ergui o corpo rapidamente tirando forças não sei de onde. Não estava enganado, era Kurama quem falava comigo da pequena passagem por onde tinha se esgueirado para entrar. Senti como se meu sangue tivesse parado de circular. Poderia chorar naquele momento se soubesse como fazer isso. Tentei dizer algo mas as palavras enrolaram na minha garganta. Ele se aproximou de mim empurrando-me suavemente em direção dos travesseiros.

“Onde você pensa que vai? Fique quieto aí e descanse. Você ainda está fraco como um bebê.”

Senti que ele se sentou ao meu lado.

“Você sabe quem eu sou?”, ele perguntou quando percebeu que não iria voltar a fechar os olhos.

“Kurama.”, respondi.

Ele sorriu. E que sorriso! Se morresse naquela hora acho que já teria valido a pena.

“Que bom que você ainda lembra de mim, Yomi.”

Eu só podia estar sonhando. Então ele se lembrava de mim... do parvo que ameaçou matá-lo indignado com uma simples risadinha. Voltou a me ocorrer que pudesse estar morto. Tentei pensar em algo para dizer.

“Tenho te procurado muito.”, foi o que me ocorreu.

“Eu sei... Agora durma ou nunca ficará bom.”

O encarei com expressão de súplica. Estava sonolento mas não queria dormir. Tinha medo de tudo aquilo ser um sonho.

“Você fica aqui comigo?”

“Fico.”, ele respondeu.

Então eu obedeci.

***

 


Novamente acordei, desta vez bastante agitado. Senti algo macio me tocar na barriga. Era Kurama deitado ao meu lado e o que senti foi sua calda balançando levemente estendida sobre mim. Fiquei paralisado. Então não era sonho.

Estava me sentindo melhor. Ergui o corpo com relativa facilidade. Procurei olhá-lo melhor. Estava dormindo tranqüilamente. Nossa, como era lindo. Não tinha intenção de acordá-lo, mas não resisti em tocar seu cabelo, certo de que o faria de tal forma que não despertaria. Me enganei. Mal meus dedos encostaram na mecha que escorria por seu ombro ele levantou-se como num solavanco. Me assustei com aquela reação, me encolhendo todo num canto. Notei que ele respirava apressadamente e parecia acuado como quem acaba de levar um enorme susto.

“Me desculpe!”, falei às pressas, “Não queria te assustar.”

Ele se acalmou rapidamente e disse voltando a se aproximar de mim.

“Você é que tem que me desculpar... Disse que ia ficar tomando conta de você e acabei pegando no sono.”

“Você se lembra de mim?”, perguntei.

“Você é Yomi, do reino de Laizen”.

Nossa, não é que ele lembrava mesmo.

“Você me ajudou... por que?”

“Você não me matou daquela vez, então eu resolvi não deixar você morrer desta... Você se tornou caçador?”, perguntou, olhando para minhas armas encostadas na parede.

“NÃO!... de jeito nenhum!”, respondi apressado.

“Você pode me dizer a verdade. Não te ajudei pra depois te machucar...”

“Você não entende...”, fiquei sem jeito de explicar que tudo aquilo foi só para encontrá-lo.

“Eu entendo... mais até do que você pensa.”

Ouvi um ruído vindo do outro lado da entrada. As orelhas de Kurama rapidamente torceram-se naquela direção.

“Eu tenho que ir agora.”

E saiu, passando por aquela mesma abertura. Pensei em ir atrás dele mas desisti... acabei dormindo de novo

...

Quando acordei me sentia surpreendentemente bem. Minha cabeça estava leve e meu corpo cheio de energia. Parecia até melhor do que antes. Me virei e me deparei com uma bandeja cheia de frutas e outros tipos de comida que nem sequer conhecia. Comi até ficar entupido, com o estômago saliente. Ainda bem que ele não estava lá para ver aquilo.

Me levantei. O compartimento onde estava era bem pequeno. Analisando bem tive certeza que estava em alguma espécie de túnel cavado no subsolo, mais ou menos como uma casa de cupins. Aquele deveria ser o esconderijo de Kurama.

Uma euforia começou a se apoderar de mim. Nunca havia sentido tal sensação antes. Sem querer comecei a imaginar coisas extremamente excitantes. Kurama gostava de mim com certeza porque cuidou de mim mesmo achando que eu fosse um caçador, e ele tinha um bando, seguidores, tesouros... realidade e ilusão se misturavam na minha mente... seríamos companheiros e um dia teríamos um reino só nosso. Tudo me parecia tão claro, tão certo, tão perfeito. Tudo por que eu passara só para encontrá-lo. Todos aqueles que abandonei para procurá-lo. E finalmente todos os meus anseios se realizavam, e de forma ainda melhor e mais intensa do que jamais teria ousado sonhar. Acho que eu seria capaz de explodir de contentamento. Este deve ter sido o único momento de minha vida que toquei a felicidade... ainda que por alguns instantes.

Comecei a achar que estava tudo quieto demais. Esperei muito tempo e nada. Esperei mais ainda. Comecei a ficar ansioso. Onde estaria Kurama? Não agüentei. Saí pela mesma passagem na parede por onde o havia visto entrar. Quase não acreditei. Aquele lugar parecia um labirinto. Haviam inúmeras passagens no corredor a minha frente, algumas ainda mais estreitas do que a por onde eu tinha acabado de passar. Resolvi seguir em frente, em busca de algum sinal de vida. Com minha impaciência habitual entrei e saí de vários compartimentos. Em alguns instantes já estava perdido. Sentei no chão tentando me acalmar e pensar em alguma coisa. De repente ouvi algo. Caminhei em direção ao som já sem me importar de estar perdido. Chegando mais perto percebi que alguém gritava como se estivesse brigando. Entrei por uma pequena abertura, tive que deitar para isso. Continuei na direção do som, desta vez rastejando. A luz ia diminuindo mas como o som ia aumentando continuei em frente. Sentia como se estivesse me enterrando vivo mas não podia parar. Estava quase absolutamente no escuro... Vi pequenas frestas de luz na minha frente. Aproximei-me para espiar. Finalmente pude ver a criatura que gritava e entender-lhe as palavras. Do outro lado do pequeno cubículo, em pé e de cabeça baixa, estava Kurama.

“Que você pensa que está fazendo? Acha que vou tolerar isso? Que pode me fazer de idiota?”, berrava aquela figura plantada na frente de Kurama.

Espiei melhor, me aproximando mais das frestas... era um youkai bastante grande, muito maior do que Kurama, com uns 2,30 metros de altura, talvez mais. Nunca tinha visto nada parecido. Os caçadores do norte que conheci pareciam filhotes perto deste. Era também muito corpulento, com uma cabeleira enorme, que me lembrou a de Laizen, só que negra como as asas de um corvo. Chifres imensos brotavam de sua testa e eu conclui de imediato que deveria ser muito poderoso. Seus olhos eram avermelhados e pereciam arder de fúria enquanto gritava.

Kurama permanecia calado, imóvel, fitando o chão. A criatura se aproximou dele ameaçadoramente e disse, num tom um pouco menos histérico:

“Você vai matá-lo, entendeu.”

Kurama levantou a cabeça bruscamente e murmurou como se estivesse sendo sufocado.

“Não... você não pode me obrigar a fazer isso de novo...”

Como um raio, a criatura virou-se contra ele, esbofeteando-o no rosto com tal força que Kurama foi lançado ao chão sem ação.

Quase gritei mas me contive, ou melhor, o grito ficou preso na garganta. Um filete de sangue escorria do canto dos lábios de Kurama que permanecia sentado no chão como um escravo submisso.

“Você vai fazer o que eu mando, como sempre fez.”, afirmou o youkai num tom mais “controlado” de voz, como se o tapa em Kurama o tivesse acalmado.

“Eu não fiz nada de mais...”

“Cale-se!”, gritou o demônio já ficando nervoso outra vez, fazendo com que Kurama se acuasse num canto, com o rosto escondido entre os braços como se aguardasse novas bordoadas.

“Por que você é assim? Você não se contenta em me trazer tanto perigo com essa sua mania de ser famoso, de ser admirado, você agora traz um caçador para minha casa!”, engoli seco, estavam brigando por minha causa, “o que você quer? Que eu ache isso normal? Você quer me matar não é... quer se livrar de mim, quer por outro no meu lugar? Vamos diga algo!”

“Isso não é verdade.”

“Mentiroso, maldito. Eu te dei tudo... te ensinei tudo e é assim que você me paga por tanta dedicação? Ingrato! Você pensa que é um grande ladrão, controlador de plantas... você não é nada, NADA, tá ouvindo. Eu te criei para ser o que é e posso tirar tudo de volta quando quiser!”, ele fez uma pausa, como que para recuperar o fôlego, mas continuou logo em seguida, “Eu acreditei que você iria melhorar com a idade, que ia aprender a ser grato mas você continua apenas a mesma criança egoísta que eu um dia tive a infelicidade de salvar a vida.”

O monstro aproximo-se de Kurama, agarrando-o pelos cabelos na altura da nuca e forçando-o a ficar de pé. Fiquei gelado por dentro. Não podia acreditar no que estava vendo. Só podia ser um pesadelo.

“Me desculpe...”, sussurrou Kurama.

“Você me envergonha... faz o que quer...pensa que eu não fico sabendo das coisas que você faz lá fora? Pensa que não sei o que dizem de você?”, berrou, jogando Kurama violentamente contra uma mesa de madeira que se espatifou com o impacto.

O youko gemeu, sufocando o grito que só irritaria mais ainda o seu algoz. Foi em vão. O youkai parecia enlouquecido.

“Levante-se seu  maldito, não me venha com esse teatro estúpido. Eu sei que isso não é dor para você. Você prefere assim, não é verdade? Levante-se de uma vez!” Kurama obedeceu e, cambaleando, se aproximou do mostro, abraçando-se a ele.

“Me perdoe por favor. Eu vou melhorar, eu te amo, não é mentira. Não fique assim comigo...”

O youkai o segurou firmemente pelos ombros, forçando-o a encará-lo.

“Você tem idéia de quantas vezes já me prometeu isso?”

“Eu falo sério... acredite em mim.”

A criatura segurou Kurama pelo cinto, puxando-o em sua direção. Depois abriu sua camisa e arrancou-a puxando-a pela parte de trás.

“Por que você não me ama como eu te amo?”, perguntou, enquanto deslizava suas mãos pelas costas do youko que permanecia imóvel feito uma estátua.

“Eu amo...”, sussurrou Kurama. “...eu juro.”

Ele fechou os olhos.

O monstro afastou seus cabelos e beijou-o na nuca. Não deu pra ver direito o que aconteceu mas me pareceu que quando o monstro beijou Kurama com mais força seus enormes chifres feriram-lhe as costas. O youko se torceu instintivamente, numa tentativa de escapulir do abraço. Quase instantaneamente a criatura reagiu ao movimento com um acesso de fúria. Ele empurrou o youko contra o chão.

“Você tem nojo de mim, não é? Pensa o que? Que é um príncipe? Mentiroso...”

“... foi sem querer...”

“Cale-se, maldito... Se é assim, que seja do seu jeito!”

Assisti paralisado o que se seguiu. Kurama foi espancado até desmaiar. Por todo tempo não esboçou reação alguma, não manifestou seu youki nem para aliviar a dor. Foi uma cena perturbadora. Não consegui atinar o que pudesse estar por trás desta insanidade. Quando se cansou o monstro sentou-se, olhando para a sua vítima que permanecia estendido inconsciente no chão. Ficou imóvel como pedra por alguns momentos e em seguida começou a engatinhar na direção de Kurama. Julguei que fosse matá-lo de vez mas estava enganado.

“Kurama... Por que me faz fazer isso com você?”, disse num tom de voz quase suave enquanto o pegava do chão, erguendo-o em seus enormes braços com todo o cuidado.

Retirou-se para outro compartimento, levando o desfalecido youko consigo.

Estava tão atônito que mal conseguiria respirar. Acho que levei um tempo para me recuperar e pensar no que iria fazer. Comecei a rastejar de marcha-ré para sair do buraco em que me encontrava. Foi bastante difícil. Por vezes pensei que fosse ficar entalado. Vencido esse obstáculo, restava ainda atinar o que fazer. Fugir, tentar achar o caminho de volta para o compartimento onde estava ou procurar Kurama para ajudá-lo. Por alguns momentos desejei ter morrido na floresta. Nem notei quando dois youkai se aproximaram de mim.

“Quem é você?”, perguntou enfaticamente o maior deles, apontando uma espada curva e comprida na direção de meu pescoço.

“O que faz aqui? Como entrou?” O outro me segurou, colocando minhas mãos para trás e amarrando-as com uma corda.

Não reagi. Não tinha ânimo nem motivo para isso.