Capítulo 5: Amaruk
Depois que Loto se foi um terrível silêncio se fez. Por alguns instantes esqueci do youko para cair em mim. Eu tinha vendido minha esposa. O que fariam comigo quando descobrissem? Afinal, Luia havia sido esposa de um admirado líder local antes de ser minha. Pensamentos confusos me tomaram de assalto. E se resolvessem se vingar de mim? De onde eu vim os pais vendiam os filhos com a maior naturalidade. Será que Loto iria tentar marcá-la como fez com o youko? E aquela menina... que olhar medonho. Precisava sair. Caminhei por algumas horas, contemplando o muro em construção.
Quando já estava mais calmo lembrei-me do youko preso no meio da sala. Poderia ele me fornecer alguma informação sobre Kurama? Resolvi voltar.
Entrei em casa não antes de ter que cumprimentar alguns conhecidos que sondavam sobre a venda de meu lote de escravos.
“Você ficou com algum?”, alguém perguntou. Fui pego de surpresa.
“Er...não.”, respondi meio inseguro, fechando a porta sem olhar para trás.
Fechei bem todas as portas e janelas. Acendi a lareira e pus um punhal para esquentar. Vi que o youko estava dormindo. Quando a lâmina já parecia brasa me aproximei do animal que, já acordado me olhava sem ação.
“Você entende o que eu falo?”, perguntei. “Você está vendo esse punhal... vou te machucar com ele porque preciso conversar com você. Agora se você voltar ao normal por vontade própria eu não só vou te poupar desse sofrimento como também vou te libertar. Basta você me dizer o que eu quero saber.”
Não sei porque fiz esta proposta... talvez por saber que não poderia mantê-lo sem que todos soubessem, talvez simplesmente não pudesse ferir um youko.
Senti uma energia estranha. Instintivamente me afastei do youko que, naquele momento, mudava de forma tomando o aspecto de uma criatura que nem de longe lembrava o Kurama que conheci. Tive certeza que não eram parentes. Ao invés dos cabelos longos e prateados, aqueles eram castanhos e desgrenhados. Seu rosto era envelhecido e seus olhos verdes totalmente inexpressivos. Nos encaramos durante algum tempo.
“Kurama te virou mesmo a cabeça, não foi?”
Nunca pensei que pudesse ser tão direto. Ele continuou.
“Tenho pena de você. Talvez até mais do que da sua mulher.”
“Você o conhece?”, perguntei, ignorando sua frase anterior.
“Mas é claro. Kurama é meu filho.”
Quase caí para trás de susto. Ele só podia estar brincando. Como este ser de aspecto doentio poderia ter ajudado a gerar a criatura mais bela que meus olhos já haviam visto?
“Seu bastardo, mentiroso. Pensa que sou algum imbecil? Como pode ser pai dele se mal se parece com um youko?”
“Será que você poderia me soltar primeiro. Não agüento mais estas correntes. Eu respondo o que você quiser...”
Que cretino, mentia para mim e ainda queria que o soltasse. Não sei porque mais acabei fazendo o que ele me pediu.
Assim que se viu livre ele levantou-se. Fiquei atento porque pensei que podia tentar fugir. Não era o caso. Reparando bem até que tinha um certo porte. Era da minha altura embora devesse ter a metade do meu peso. Deu uns poucos passos e sentou-se perto da lareira. Parecia bastante cansado. Vestia uns poucos trapos que deixavam a mostra grande parte de seu corpo esquelético e marcado. Percebi que me olhava fixamente.
“Eu entendo que você não acredite em mim mas é verdade. Não se impressione pela minha aparência. Eu era bem diferente até alguns anos atrás, antes de ficar doente e ser capturado por Loto. Tenho consciência de que estou morrendo e que nada pode me ajudar... é o meu destino... Quando você conheceu Kurama?”
Fiquei um tempo perdido, pensando em que mal poderia o estar atingindo mas decidi não perder tempo perguntando sobre isso.
“O conheci há quase dois anos atrás, no reino de Laizen. Você sabe onde ele está agora?”
“Não. Kurama é um ladrão muito procurado no leste e vive escondido. Não creio que tenha paradeiro fixo. Não o vejo desde que era uma criança.”
Não sabia porque mas comecei a acreditar no youko. Ele parecia sincero, me olhava nos olhos. Pensei que uma criatura agonizante não deveria ter motivos para mentir.
“Você já teve algum relacionamento com ele?”
Me surpreendi com a objetividade da pergunta.
“Não.”
“Então ouça o meu conselho e fique longe dele. É meu filho mas é uma criatura amaldiçoada. Não lhe fará bem algum, acredite.”
“Ora, isso não faz sentido.”
“Você já ouviu falar de uma planta chamada amaruk?”
“Não.” Que diabos isso tinha a ver com a nossa conversa?
“É uma flor muito linda e rara... e surpreendente porque só nasce em circunstâncias adversas, em lugares onde outros vegetais não conseguem brotar. Essa característica faz com que as energias negativas sejam atraídas para ela e, se por um lado isso lhe dá forças para crescer forte e bela, por outro a torna extremamente venenosa...”, o youko fez uma pausa para respirar,... “a mãe de Kurama lhe pôs esse nome porque é amaruk ao contrário. Ela sonhou com essa planta no dia em que ele nasceu..., viu que ele era diferente, com aquela cor prateada, sabia que eram sinais mas não fez o que tinha que ser feito. Era uma fraca. Eu só soube de tudo alguns anos mais tarde, mas minhas providência não surtiram efeito. Não creio que ainda haja algo que se possa fazer. Agora é tarde.”
Eu não estava entendendo nada. Toda aquela conversa sobre plantas e maldições era muito para a minha cabeça impaciente... Acho que deixei transparecer que estava totalmente perdido porque o youko continuou, tentando simplificar o que havia acabado de tentar me explicar.
“O que estou tentando te dizer é que Kurama é como o amaruk. Toda sua força vem do mal... do mal que recebe e que distribui. Não importa o que faça, onde vá e o quanto viva. É o seu destino. Tudo nele existe pelo único propósito de perpetuar este ciclo. As maldições são muito fortes entre os youkos. Como não foi criado entre nós acredito que ele próprio não tenha consciência disso...” Fez uma nova pausa... “Só o viu duas vezes na vida. Ele não sabe que sou seu pai, nem sequer deve se lembrar de mim.” Havia uma profunda tristeza em seu olhar. “Fique longe dele, se é que tem algum juízo... e considere-se feliz por não ter se envolvido com ele. Pense no que já deixou para trás em troca de uma vã esperança de um dia reencontrá-lo.”
O youko parecia ainda mais exausto. Deitando-se no chão, pediu para descansar, prometendo que voltaria a se submeter ao meu interrogatório após algumas horas de sono.
“Se você não se importar, dormirei na forma de raposa... é que eu economizo energia assim.”
O pai de Kurama nunca mais acordou.