Capítulo 4: Luia
Após o primeiro ano em que vivi em êxtase com toda aquela glória, as coisas começaram a voltar para os seus devidos lugares.
O conselho dos anciões era maçante. Velhos acomodados com idéias antiquadas. Cismaram de construir um muro em torno em torno da cidade com medo de novos ataques. Estavam gastando todas as reservas nesse projeto imbecil. E não havia nada que eu pudesse fazer pois era sempre minoria absoluta em todas as decisões. Diabos, como eu odiava a democracia! Quanto à Luia...pior impossível! Tive que me “casar” com ela, segundo o costume local. Nosso relacionamento nunca mais teve graça depois disso.
As vezes tinha vontade de fugir, sair correndo, sei lá. Acontece que aí eu pensava, fugir para onde? Para que? Não havia nada lá fora esperando por mim que não fosse solidão e perigo. Pelo menos em Nijati me sentia razoavelmente seguro. E não podia deixar de considerar que naquela cidade eu era alguém, enquanto no resto do Makai... Bom, foi pensando assim que fiquei mais um ano em Nijati. Para compensar o tédio, resolvi vender meus escravos. Entre os cativos só haviam guerreiros, ninguém que pudesse ser usado em casa como ajudante de Luia. E só eu sei o quanto ela me perturbava com o seu desejo de ter um escravo particular.
Atendendo ao meu chamado, Loto, um mercador de escravos veio até Nijati para avaliar nossa “mercadoria”. Trouxe alguns ajudantes, na maioria também escravos. Ficou hospedado em minha casa, infelizmente. Loto era uma figura grotesca e desprezível. Eu só desejava que ele fosse embora rápido e estava disposto a ceder um bom desconto para este fim.
As negociações não foram demoradas. Loto se interessou
rapidamente pelos 15 infelizes que se encontravam presos em nosso calabouço
improvisado. Propus um preço camarada e ele aceitou sem regatear
muito. No final, tentou me vender algumas “peças”. Não gostava
da idéia de ter escravos e por isso disse não estar interessado.
Só que Luia insistiu que deveríamos ter pelo menos um ajudante.
Fêmeas! Acabei cedendo.
Primeiro Loto tentou me empurrar uma criatura absolutamente repugnante.
Era fêmea e bem jovem mas tinha o rosto terrivelmente mutilado.
“É muito forte.”, enfatizou Loto, “...pode não parecer mas consegue ser mais útil do que cinco machos juntos.”
Recusei, é claro, assim como os próximos que Loto me ofereceu. Só mesmo uma criatura doente ou louca poderia conviver com aqueles expressões de tormento. Luia insistiu.
“Só um pelo menos, Yomi, para me ajudar...”
“Será que você não teria algum, digamos, menos surrado?”, perguntei.
“Bom...”, ele coçou a cabeça, “Acho que tenho algo que pode te interessar...”
Loto ordenou algo a um de seus assistentes, que momentos depois retornou com uma caixa grande. Aberto o invólucro, surgiu um animal de porte médio, pelo castanho, com orelhas de gato e várias caldas felpudas.
“Que fofo!”, exclamou Luia, “Podemos ficar com ele?”
“Que diabos é isso? Afinal Luia você quer um ajudante ou um cachorro?” Senti que o animal me olhou com uma expressão esquisita quando eu o chamei de cachorro.
“Não é um cão!”, disse Loto rindo, “É um youko.”
Paralisei com aquelas palavras.
“Um o quê?”, perguntou Luia, ignorante como sempre.
“Um youko é tecnicamente um youkai como nós. O único problema é essa maldita habilidade de mudar de forma. Desde que o capturei insiste em ficar desse jeito, o que me impedia de vendê-lo. Já estava decidido em matá-lo quando por acaso descobri um macete que o obriga a voltar à forma original. Como youkos são um tanto raros, eu só ensinarei o truque para quem o comprar.”
“E quanto é?”, gritou Luia enquanto tentava fazer cafuné no prisioneiro.
“Aí é que está o problema... esse é o único youko que eu já vi. Dizem por aí que a raça está extinta. É claro, existe o tal ladrão, Kurama, me parece, mas eu nunca...”
“O que você disse?”, gritei, sem perceber pegando Loto pelo colarinho.
“Disse o que?”, gaguejou Loto, meio assustado com o meu rompante.
“Sobre Kurama.”
“Kurama?! Bom, eu só ia dizer que ouvi muito falar dele, mas nunca o vi. Não sei nem se é youko de verdade. Por acaso é por causa dele que vocês estão construindo aquele muro?”
“Quem é ele? Você o conhece, Yomi?”, perguntou Luia.
“Cale-se, mulher!”, gritei.
Ela estremeceu e finalmente parou de perturbar.
“Conte-me tudo que sabe, Loto. Estou disposto a pagar por informações.”
Pagar era uma palavra mágica para Loto. Ele sorriu e sentou, olhando para o youko que lutava para se livrar dos braços de Luia.
“Como já disse não sei muito sobre ele. Só o que dizem... que é youko, ladrão muito famoso no leste. Tem alguns seguidores, um pequeno bando, talvez. Deixe-me ver o que mais... Ah, sim, dizem que é muito bonito, de cabelos prateados, não sei se dá para acreditar. Esse daí não é lá essas coisas...”
“Continue.”, pedi.
“Incrível como vocês não conhecem essas estórias por aqui. Essa vila é mesmo um bocado isolada. Olha, eu não tenho outras informações pra te dar. Existem muitas lendas sobre Kurama mas poucos já o viram de perto. Há estórias totalmente absurdas, como a que diz que ele consegue controlar as plantas, vê se pode? Se isso fosse verdade ele não precisaria ser ladrão... ficaria muito rico sendo agricultor...”, disse gargalhando, “Afinal se você está tão interessado por que não pergunta para ele... vai ver são parentes.”
Já ia me dirigindo para onde estava o pequeno animal quando ouvi Loto falar.
“Só tem um detalhe... ele não pode falar nesta forma.”
Parei. Então era isso. Eu teria que comprar o youko se quisesse falar com ele. E já que Loto sabia do meu interesse iria me arrancar até as calças. Resolvi revidar antes de apanhar.
“Escute Loto! Não pense que fará de mim um palhaço. Não me venha com nenhuma proposta absurda porque não tolerarei.”
“Calma Sr. Yomi. Não fique nervoso. Eu jamais pensei em fazer algo assim. Sou um homem justo.”
Percebi que Loto disse essas palavras examinando Luia cuidadosamente. Ela percebeu.
“Yomi, você não...”, suplicou.
“Cale-se.”, gritei, “Você a quer?”
“Será uma troca justa. Um youko raríssimo por uma fêmea em bom estado. E ainda dizem que sou cruel e desonesto.”
Luia me olhava temerosa, com os olhos marejados.
“Yomi, por favor...”, murmurou.
Me dirigi até ela. Olhei-a cuidadosamente. Até não era feia. Seu cabelo era loiro, seus olhos negros. Orelhas pontiagudas e um belo corpo. Mas a verdade é que já estava cansado dela. Abracei-a. Ela estava tremendo. Um suor frio corria de sua testa. Por alguns segundos fiquei indeciso.
“Feito!”, exclamei.
Luia se debateu, gritou, mas estava firmemente presa em meus braços. Alguns momentos de histeria se seguiram.
“Não bata nela, Yomi!”, gritou Loto, “Ela é minha agora!”
Loto retirou de uma pochete um pano que rapidamente encharcou com um líquido de cheiro forte. Aproximou-se de Luia, que eu ainda segurava com alguma dificuldade e pressionou o pano sobre o seu nariz. Num instante Luiz jazia aos meus pés, inconsciente. Loto ordenou que um serviçal a carregasse para seu transporte.
“Espere!”, gritei.
Pedi que enrolassem Luia em um cobertor para que os vizinhos não vissem que eu a havia vendido. Loto concordou, com um riso debochado nos lábios.
“O youko é seu agora. Quer que eu o ensine a fazê-lo voltar à forma original?”
“Claro!”
“É bem simples. Basta queimá-lo.”
“O que?”
“Isso que você ouviu. Eu sempre procuro saber de que são feitos os meus produtos, que resistência têm, se é que você me entende. Um dia resolvi marcar esta criatura e qual foi a minha surpresa quando descobri que isso faz com que ele volte à forma normal. Testei várias vezes, fique tranqüilo. É garantido.”
Não pude deixar de pensar em Luia sendo entregue por mim àquele bárbaro. Mas o que estava feito estava feito e eu não podia voltar atrás.
“Quer testar agora?”
“Não.”
“Pois muito bem. Foi um prazer ter feito negócio com o Sr. Espero vê-lo novamente em breve.”
Me passou pela cabeça pedir que não fizesse experiências com Luia mas acabei não dizendo nada. Seria inútil de qualquer modo. Percebi que a menina deformada que Loto tentou me vender me olhava do canto da porta. Confesso que senti um arrepio. Foi o olhar mais acusador que recebi em toda a minha vida.
Esse dia foi o último em que vi Luia. E o primeiro em que me
deparei com Mukuro.