Memórias

Por Ana-chan

Capítulo 3: Nijati



 

Um ano havia se passado desde que havia deixado os domínios de Laizen. Mas uma vez estava totalmente por minha conta. Percorri vários lugares, procurei exaustivamente mas nunca sequer ouvi falar novamente de Kurama. As vezes me passava pela cabeça se o que aconteceu naquele dia em que Laizen dissolveu seus exércitos teria sido só uma ilusão. Talvez Kurama não fosse sequer real. Já não me importava tanto, embora ainda não pudesse esquece-lo.

Passei o inverno em uma cidadela que atualmente não existe mais, perto do rio Lao, centro-leste do Makai (de fato, estava me dirigindo para o leste, por motivos óbvios). A tal vila se chamava Nijati e era relativamente organizada. Era controlada por uma espécie de conselho de anciões. Fui aceito para trabalhar no inverno como removedor de neve. Em troca receberia abrigo, comida e as atenções de Luia, uma fêmea, esposa do dono da casa onde estava “hospedado”. Esse último pagamento era extra-oficial, é claro.

Na verdade eu não corria perigo. Rioje, marido de Luia, era muito idoso e naturalmente não dava conta de todo aquele youki, afinal Luia, além de centenas de anos mais jovem era bastante fogosa. Como Rioje era membro do conselho de anciões e passava o dia todo fora, Luia não largava do meu pé...e das outras partes do corpo também. Era muito agradável. Se aquele emprego não fosse temporário não me incomodaria de ficar após o inverno.

Quanto às minhas grandes ambições... bom, achei que ser rei poderia esperar mais um pouco. A vida errante tinha seus atrativos. O caminho do poder é árduo e eu sabia disso muito bem. Depois da dissolução do exército de Laizen vários grupos se formaram tentando dominar-lhe o reino. Nenhum teve sucesso. Laizen, apesar de isolado e dos boatos relacionados à sua saúde (diziam que não comia há mais de um século) continuava sendo a única criatura realmente poderosa do Makai. O resto não passava de gangs de ladrões e desordeiros que mal conseguiam ter um território próprio.

O inverno estava chegando ao fim. E com ele a minha boa vida. Já começava a me sentir pressionado para deixar a vila quando, em uma noite escura, esta foi atacada por um grupo de saqueadores. Há quanto tempo não participava de uma luta de verdade! Foi por saudade do clamor das batalhas e não por heroísmo que me empenhei arduamente em defender Nijati e seu povo. Em meio à luta me senti tão vivo que pensei não entender como tinha suportado tanto tempo de vida pacífica. Triunfamos sobre os invasores e ainda saímos no lucro, pois recolhemos suas armas e capturamos os sobreviventes para vender ao mercador de escravos.

Mas o melhor de tudo é que grande parte da vitória foi atribuída à minha atuação. Fui convidado a permanecer na cidade, integrar o conselho dos anciões e ainda herdar Luia e todas as posses de seu marido morto na batalha (não por culpa minha, eu juro). Além disso, eu ainda receberia metade do lote de escravos para fazer com eles o que bem entendesse. Finalmente eu era um líder. Mal podia acreditar.

O que vem fácil, vai fácil. Eu já tinha ouvido esta frase embora não achasse que fizesse sentido. Nada vem fácil no Makai...