Memórias

Por Ana-chan

Capítulo 2: Joh



 

Não dormi naquela noite. Estava por demais confuso. Não conseguia entender por que não tirava Kurama da minha cabeça. Nunca ninguém havia me impressionado assim antes. Ele não era apenas lindo, com aqueles cabelos cor de prata até os ombros e aquele par de olhos dourados que pareciam enxergar até o meu pensamento. Era mais do que isso. Parecia perfeito...até seu riso me parecia encantador naquele momento.

Fiquei imaginando se não seria ele um bruxo ou tivesse me hipnotizado para que não o atacasse. O pior é que ele nem me pareceu poderoso. Nem sequer tinha um chifre!

No dia seguinte a agitação no acampamento era geral. Todos discutiam sobre seus destinos, se ficariam ou iriam embora, mas eu só pensava em como faria para ver Kurama de novo.

“Você vai ficar?”, perguntou Joh.

“Não.”, respondi secamente.

“Você vai atrás do youko, não é?”.

Me surpreendi. Se até Joh que eu considerava estúpido percebeu é porque deveria estar para lá de evidente.

“Por acaso você percebeu que ele é um ladrão?”

“Como você sabe?”, perguntei, subitamente interessado naquela conversa.

“Eu conheço o sujeito que estava com ele. Se chama Kuronue. Nasceu na mesma região que eu. Sua mãe morreu cedo e ele se tornou uma espécie de trombadinha. Foi expulso de lá junto com um irmão quando ainda era um garoto, isso já faz algum tempo. Nunca mais ninguém soube deles. Quando vi aquelas sacolas percebi que ele não abandonou a profissão. O tal Kurama deve ser parceiro dele”

“Eu não me importo.”, respondi num súbito ataque de sinceridade.

“Eu pensei que você quisesse ser um guerreiro, um grande líder, rei como Laizen talvez. Incrível como as pessoas mudam rápido...”, disse olhando para baixo.

Me senti mal com suas palavras. Joh não era tão estúpido afinal. Provavelmente eu era muito mais do que ele, só que estava resolvido e não iria voltar atrás.

“Eu já conheci outros youkos... Não são confiáveis, não ligam pra ninguém...Além do mais aquele estava com jeito de ser jovem demais...não creio que se interessará por você.”

“Já disse que não me importo.”

“Eu vou ficar. Guardas de fronteira ainda serão necessários, pode ser que ainda haja lugar para mim por aqui. Vou sentir sua falta.”

“Não se preocupe. Eu venho te visitar.”, menti.

“Eu sei que não vai.”

Não respondi, apenas me levantei e virei as costas.

“Yomi!”

“O que é?”

“Não vai dizer adeus?”

“Não gosto de despedidas, mas se faz questão então adeus.”

Ele se levantou, chegou bem perto de mim, tirou um pequeno objeto de seu bolso e o colocou em minha mão. Lágrimas escorriam de seus olhos. Ainda bem que ninguém está vendo isso, pensei.

“Adeus, Yomi.”, disse, sufocando os soluços. Saiu correndo.

Abri a mão e verifiquei tratar-se de um pequeno amuleto. Era bastante bonito e parecia valioso. Joh foi estúpido em dá-lo a mim sabendo que nada faria para retribuir-lhe. Mal sabia eu quantas vezes não iria incorrer no mesmo erro no futuro.
 
 
 


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