Memórias

Por Ana-chan

Capítulo 1: No reino de Laizen



 

Era mais um dia estranho, se bem que no Makai não existam iguais, a verdade é que desde o início tudo naquela tarde parecia perturbadoramente diferente do habitual. Pensei melhor e resolvi que não havia sentido em continuar olhando o céu, tentando identificar o que poderia estar me fazendo sentir tão desconfortável. Achei melhor me movimentar, encontrar algo para fazer, talvez.

Estava voltando para o local onde costumava passar as noites quando percebi que alguém corria em minha direção. Era Joh, um youkai que havia chegado ao reino de Laizen no  mesmo dia que eu.

“Algo terrível aconteceu, vem comigo!”, disse ele esbaforido e continuou a correr.

Comecei a seguí-lo, sem entender o motivo de toda aquela agitação.

Chegamos à clareira onde normalmente os soldados do Rei Laizen se reuniam quando havia algo para ser discutido. E ultimamente eram constantes esses momentos. Laizen era o único rei no Makai caótico em que nasci. Não haviam outros reinos, sequer lideranças expressivas. Laizen era o único cujo poder se destacava, fazendo com que aquelas criaturas que me rodeavam o tivessem feito rei, seguindo-o e servindo ao seu propósito que, naturalmente, era o de expandir os seus domínios. È claro que já haviam outros que alimentavam ambições pessoais embora ninguém que pudesse fazer frente ao Rei. Eu mesmo acalentava o desejo de ter o meu próprio reino, meus próprios seguidores, mas tinha perfeita ciência do quanto aquilo era impossível, pelo menos por hora...

Uma gritaria repentina me sacudiu de meus pensamentos. Era Hokushin, primeiro comandante do rei que se dirigia ao plateau principal. De onde estávamos, eu e Joh, mal podíamos distinguir sua silhueta... Se não fosse aquela ridícula careca talvez não o tivesse reconhecido. Não pude deixar de lembrar das palavras que me disse no dia em que cheguei:

“Essa não, outro mestiço maltrapilho!”

Maldito! Se não fosse Joh ter me segurado teria avançado contra ele mesmo sabendo que seria suicídio certo. O pior foi ainda ter que ouvi-lo comentar rindo:

“Mestiço, maltrapilho e imbecil. Melhor deixá-lo ficar, vai ser divertido.”

Enfim, lá estava eu há 6 meses como membro do poderoso exército do rei Laizen. Seis meses de treinamento confuso, algumas humilhações e definitivamente nenhum sinal da ação pela qual tanto ansiava. Fazer parte da trupe de Laizen não era nada do que eu havia imaginado. E pensava em todo o esforço que tinha feito para chegar naquele local. Minha vida era repetir para mim mesmo as frases de sempre “Por que tinha que ser assim?”, “Será que não haveria um jeito mais fácil?”, “Que inferno!”.

Finalmente Hokushin começou a falar... enrolando pra variar, com aquela besteirada sobre como estávamos progredindo e deixando nosso amado líder orgulhoso e etc. Depois de uma pequena pausa, ele continuou, desta vez em um tom mais sério:

“A notícia que tenho para vocês certamente surpreenderá a todos. Espero que compreendam embora saiba o quanto é difícil. Esta manhã nosso rei tomou a decisão de reduzir todas as atividades militares do reino...” Não pôde prosseguir ante a balbúrdia que se instalou...”Um momento, deixe-me explicar...”

“Reduzir quanto e o que?”, gritou alguém no meio da atônita audiência.

“Bom...”, pode finalmente continuar Hokushin, “A redução será total. Somente os comandantes de elite permanecerão em seus cargos para proteger o reino e manter a ordem. É importante que...”, mais uma vez foi interrompido, desta vez por uma histeria quase total.

Soldados de elite formaram uma barreira em torno do careca para evitar que fosse linchado. Eu quase não conseguia ver o que estava acontecendo. Foi aí que Joh me puxou para um muro onde subimos e assim pudemos ver melhor o que acontecia. A revolta era geral. Todos aqueles youkai, soldados enfim, demitidos assim daquele maneira. Acho que fiquei tão atônito com a ameaça de insurreição que me esqueci que também fazia parte do grupo dos recém-rejeitados.

De repente um enorme silêncio se fez. O próprio Laizen surgia no plateau. “De onde ele veio?”, pensei, me esticando para ouvir melhor.

“Diabos! Esse é que é Laizen! Esse sujeito cuja aparência poderia ser confundida com um humano qualquer é que era o poderosíssimo Laizen! Mas com mil diabos! Nem sequer um chifre ele tem!”, falei para quem quisesse ouvir.

Na verdade era a primeira vez que eu via Laizen. Já o havia imaginado de várias maneiras... pensava que o único youkai com poder classe S do Makai deveria ter uma aparência indescritível... com mais de uma cabeça, talvez... a simplicidade das formas do rei foram uma surpresa para mim.

Na verdade, Laizen não era tão banal assim. Tinha uns desenhos estranhos marcados pelo corpo e uma imensa cabeleira embranquecida. Ocorre que eu estava tão longe em cima daquele muro que não podia ver esses detalhes.

Quando o silêncio total se fez, Laizen começou a falar:

 “Guerreiros do Makai. Vim pessoalmente informá-los que decidi encerrar as atividades do exército. A expansão de meu reino está cancelada. Essa é a minha vontade e ela será imposta à força se necessário, portanto não tentem nada estúpido. Vocês tem minha permissão para permanecerem no reino, se quiserem e não criarem problemas... Não espero que entendam minha atitude, na verdade não me importo... Acabou e é só. Aceitem isso e estará tudo resolvido”.

Virou de costas e desapareceu.

Já era noite. O silêncio era perturbador. Eu e Joh permanecemos sentados naquele muro, observando a multidão se dispersar. Nos olhamos sem saber o que dizer. De repente uma risada. “Como é que é?”, pensei, “quem poderia estar rindo numa hora dessas em que tantos tão de repente não tinham mais rumo na vida.” Olhei em volta mas não havia ninguém por perto além de Joh que também virava a cabeça de um lado para o outro tentando descobrir de onde poderia vir aquela risadinha debochada. Senti uma coisa bater na minha cabeça e cair no meu colo. Era um caroço de fruta...olhei para cima. Cutuquei Joh  que também olhou. Lá estava, semi-escondido em meio aos galhos da árvore que crescia atrás do muro o único possível autor daquele risinho inconveniente que ora se repetia ainda mais irritante. Não agüentei.

“Do que você está rindo, seu insolente? Apareça e lute comigo!”, gritei bastante irritado.

“Calma aí, Yomi!” disse Joh, repetindo a frase que talvez já tivesse dito mais de 100 vezes desde que nos conhecemos.

“Calma uma ova! Não passei por todas essas provações para depois ser descartado feito um nada ainda ter que ouvir algum engraçadinho rir de mim. Desça daí covarde e apareça!”, gritei, ficando em pé em cima do muro.

Alguns segundos de silêncio se passaram.

“Se eu fosse você me sentava, irritadinho, ou vai cair” disse uma voz vindo da árvore.

“Ora, seu...”

Não pude completar a frase pois justamente como o estranho previra me estabaquei no chão. Sorte que o muro não era muito alto. Joh desceu para me ajudar o que só tornava meu constrangimento maior. Me levantei o mais rápido possível e gritei o mais alto que podia, desembainhando minha espada.

“Agora chega! Se você não descer eu subo. Vou acabar com sua raça cretino!”

Seguiram-se alguns momentos de silêncio no topo da árvore. Já estava me preparando para subir quando ouvi novamente aquela voz suave, desta vez num tom mais respeitoso.

“Nossa, para que isso tudo? Olha, me desculpe se eu te ofendi. Não tive a intenção.”

“Apareça, então!”, gritei mais alto ainda.

“Estou aqui.”, disse a voz bem atrás de mim.

Me virei o mais rápido possível apontando a espada na direção do estranho que me encarava na escuridão. “Que estupidez!”, pensei, “Ele veio por trás de mim sem que eu notasse. Se quisesse já teria me matado.”

“Você ainda quer me matar?”, perguntou o estranho sem nenhum medo na voz.

Eu não sabia o que responder. Olhei para Joh instintivamente e percebi que ele se limitava a admirar aquela cena insólita sem nenhuma intenção de intervir. Quem dera ele voltasse a repetir o velho “Calma aí, Yomi”, isto seria um bom pretexto para abaixar a espada e tentar acabar com aquela situação extremamente constrangedora...pelo menos para mim.

“Yomi, é esse o seu nome, não?”, isso me fez lembrar de olhar para frente.

Que situação! Eu precisava fazer algo, tipo cravar a espada na figura parada à minha frente ou simplesmente deixá-lo ir, mas não sabia o que fazer.

“Do que diabos você tanto ria?” Ridículo, mas foi a única coisa que me ocorreu.

“Dá para abaixar a espada?”

Eu já tinha me esquecido disso também. Guardei a arma, meio sem saber se estava fazendo bem.

“Obrigado...Como estava te dizendo, não pretendia ofendê-lo. Eu não estava rindo de você mas sim desta situação. Pelo que eu pude perceber vocês todos são guerreiros dele e estão tendo um tremendo problema agora. Eu só estou aqui de passagem e achei toda essa comoção muito engraçada. Eu vim do leste porque soube que havia um grande rei nesta terras. Uma ironia eu chegar bem no dia em que ele resolve se aposentar, vocês não acham?”

Que voz macia! Nunca tinha ouvido nenhum youkai falar de modo tão ameno e educado.

“Você veio se recrutar?”, perguntou Joh.

Só mesmo ele para dizer uma besteira dessas.

“De jeito nenhum!”

E Joh continuou o interrogatório ensaiado.

“O que você é e o que está fazendo aqui?” O pobre ainda pensava que era um guarda de fronteira.

“Eu sou um youko e vim aqui só para conhecer o reino, ver como é para o dia em que eu tiver o meu.”

Essa não! Que sujeito pretensioso. Pensei em lhe dar uma resposta grosseira e quando já ia começando a falar uma das torres de iluminação foi acendida bem perto de nós, fazendo com que tudo ficasse claro a nossa volta. Aproveitei para dar uma boa olhada no tal youko já que não tinha a menor idéia que diabo de raça era essa. Levei um susto. Nunca tinha visto nada tão bonito em toda minha vida. Não fazia idéia até a data que um youkai pudesse ser belo. Achava que éramos grotescos por natureza, se bem que uns nem tanto. As fêmeas em geral tinham melhor aparência, mas existiam em menor número. Encontrar um companheiro no Makai era um problema e tanto para os que tivessem um mínimo de bom gosto. Confesso que fiquei um bom tempo abestalhado, olhando para aquela criatura, youko...

“E então, estou perdoado?”, perguntou o youko, aproximando-se de mim de modo a me deixar ainda mais perturbado.

“Er...claro!”, respondi sem graça.

Ele não retrucou, apenas riu meio de lado, provavelmente divertindo-se com o meu embaraço.

“Kurama!”, alguém gritou.

Me virei em direção do youkai que se aproximava apressadíssimo de nós.

“Te procurei feito um louco. Escuta, a barra vai pesar. Acho melhor a gente se mandar rápido.”

“Pode ir que eu te alcanço.”

“Então vê se pelo menos carrega a sua parte.” Disse o recém chegado, jogando uma bolsa no chão. “E não demore...falo sério.”

Então seu nome era Kurama...

“Bom, eu acho que já vou indo então”, disse o youko, pegando a bolsa do chão. “Foi um prazer conversar com vocês!”

Continuei olhando para ele até que sumisse da minha vista.

“Yomi, acorda!” gritou Joh, me sacudindo. “Que cara é essa? Você está legal?”

“Não.” Respondi, voltando para a realidade.
 
 
 


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