Notas:

Acho que eu não preciso lembrar que alguns destes personagens não são de minha propriedade, pertencem à Nobuhiro Watsuki e blablabla, que esta história é de MINHA autoria, (não ouse copiar sem pedir, e obter autorização) e que não foi publicada num mangá de RK, etc, etc, etc.

Também é bom lembrar que todos os nomes aqui encontram-se na ordem japonesa: primeiro o sobrenome, depois o nome.

Bem, acho que não preciso contar a história de que Kenshin volta para que Hiko o ensine a ougi, a técnica de sucessão, para que ele possa derrotar Shishio, e blablabla... Caso você bole bonitinho porque não sabe o que aconteceu antes... Escreva.

Fanfic por Dona Morte, finalizado em 14 de Dezembro de 2000.

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Um Sucessor Para a Hiten Mitsurugi Ryuu - Capítulo VI

As crianças brincavam de roda e cantavam uma canção que falava de "um grande amor". E a cada nova frase, uma nova lágrima escorria. Talvez o amor não fosse para ela. Para todos os outros, não para ela.

O Sol já havia raiado há horas. O céu, límpido e azul, parecia sorrir para quem o olhasse naquele pequeno vilarejo. Não fazia idéia de onde este vilarejo ficava, pois desde a noite anterior, tudo que Akemi tinha feito era vagar sem rumo. Olhavam para ela com um misto de medo e pena, já que estava completamente encharcada da súbita tempestade da noite anterior, e seu kimono, já por hábito displicente, estava rasgado na barra e no obi. Olhava deprimida para o céu quando enfiou a mão no obi e procurou seu precioso tesouro, uma taça de sakê. Não, a taça de sakê de Hiko. Sua única prova de que tudo que havia passado não era um sonho, de que tudo que havia aprendido ela poderia exercer. Levou a taça aos lábios, num surto levemente nostálgico. "O que vai não volta nunca mais". Ela abaixou os braços, taça na mão, e olhou para o céu novamente. 

- Hiko... - sentiu algo arrebatar a taça de suas mãos - Aaah!

Um garotinho maltrapilho e de roupas encardidos havia pego a taça. "Provavelmente pensou que valia alguma grana!!", Akemi pensou enquanto disparou atrás dele. A perseguição durou uns bons cinco minutos até uma viela deserta, que tinha uma bela carruagem parada na esquina. O moleque se adiantou para a carruagem, e Akemi o seguiu. Parou ao lado da carruagem, pois o garoto parecia ter sumido em meio ao nada. Ouviu um guincho, olhou para cima e viu que o garoto estava sentado em cima de um telhado, e que agora atirava para ela seu precioso objeto. Akemi agarrou a taça, surpresa pelo moleque ter devolvido. Sentiu-se então puxada para dentro da carruagem, a ponto de sua cabeça cair no colo de um homem que estava dentro dela. 

- Nobunaga!!...

Ele tapou sua boca antes que pudesse gritar qualquer coisa. Akemi chutou a porta violentamente para tentar sair, mas ela já estava trancada. Nobunaga já havia imobilizado seu corpo quando disse:

- Olá, Akemi. Tenho que admitir que desta vez você me deu muito trabalho.

Todo o torpor depressivo desapareceu para dar lugar a uma crise relâmpago de pânico: Nobunaga, Nobunaga estava ali, ele havia conseguido, e agora não havia mais como fugir... Ou havia? Não, a carruagem já estava em movimento. Ninguém poderia salvá-la agora.

 

- Bom dia, senhora. Lembra-se de mim?

A idosa dona da estalagem próxima à cidade de Kyoto voltou-se para encarar o rosto sorridente de um jovem que já havia visto antes:

- Olá, rapazinho!

- Olá. Vim cumprir com a minha promessa.

- Sim, eu me lembro. Você me disse que estava a procura de algo, e que quando encontrasse, viria aqui me contar. Mas você disse que talvez demorasse uns dez anos!

O jovem, vestido em trajes azuis, soltou uma risada adorável.

- É, acho que não sou muito bom em prazos! Devo então pedir...

Parou subitamente ao ouvir gritos que pareciam aproximar-se em crescente velocidade. Saiu da estalagem para ver uma carruagem passar, levando a mulher que tanto gritava. Lembranças de um passado recente lhe afloraram à mente, e lhe fizeram repetir um ato que desencadeou inúmeras desgraças: saltou como uma lebre sobre a carruagem, assustando o condutor, e abriu a porta, puxando para fora a moça e rolando com ela no chão.

- Obrigada. Obrigada mesmo. - foi tudo o que a moça lhe disse antes de desaparecer de vista pelas encostas do morro. O homem dentro da carruagem saiu à procura do encalço dela, e o jovem ponderou se deveria interferir ou não. A resposta veio em breve:

- Meu jovem, venha cá! - chamou a idosa senhora.

- Sim? - disse ele entrando na estalagem, e pensando em como a senhora era surda por não ter ouvido os gritos lá fora.

- Pode me fazer um favor? - ela o conduziu até a cozinha - Eu tenho uma encomenda para entregar alguns quilômetros antes daqui, justamente de onde você estava vindo... Mas o garoto que costumava fazer isto por mim adoeceu e eu...

- Não há problema, senhora! Eu entrego a encomenda.

A senhora nitidamente alegrou-se:

- Aaah, muito obrigada! Mas os doces ainda não estão prontos! Pode esperar?

- Doces! Adoro doces! Certamente, eu esperarei.

- Ótimo. Assim, posso preparar alguns para você... Enquanto isso, aceita chá?

O rapaz meneou a cabeça afirmativamente e torceu consigo mesmo que a senhora fosse uma excelente doceira. Há quanto tempo não comia doces! Foram tantas as coisas que torceram sua mente nos últimos meses que esqueceu de algumas coisas que ele sempre havia gostado. Doces, por exemplo. Ele se surpreender ao reparar que não sentia falta de mais nada de sua vida antiga. Somente doces.

 

- A porta! Alguém atenda a porta, por favor!! - Okina berrou de um dos quartos. Kenshin prontamente se ergueu, prestativo como sempre, e se surpreendeu com a "visita": 

- Misao! Você está bem?

- Oi, Himura... - a garota caiu nos braços dele - ... acho que me deram algo para dormir...

- MISAOO!!! - Omasu gritou histericamente e correu para abraçá-la, enquanto toda a Aoiya corria para a porta com a feliz notícia da volta de Misao. 

- Levem-na para o quarto, ela desmaiou!

- Misaaaooo!! Você está bem? Está bem?

- Quem te seqüestrou, fala!!

 

- Está saindo sorrateiramente assim prá esconder as provas do seu crime?

- "Sorrateiramente"? De quem você copiou esta palavra, ahou?

- Não seja ridículo, nem mude de assunto. - Sano ficou ainda mais aborrecido - Desde que chegou aqui, você não fez nada. Chegou à fabulosa conclusão de que o tal Nobunaga não era tira de verdade, o que nós já desconfiávamos. E agora que a garota volta, sai de fininho. Quem me garante que você não seqüestrou ela?

- Olhe só quem é o "ridículo". Não tenho nada contra a menina-doninha, para quê eu iria seqüestrá-la? Dê-me um motivo ou uma prova, Sr. Detetive Profissional, estou esperando.

- Tá, talvez eu não tenha provas! - Saitou exibia um sorriso triunfante parcialmente oculto pela fumaça de seu cigarro - Mas então para quê você veio?

Saitou tirou o cigarro da boca e ficou observando o movimento da rua.

- Porque imaginei que a Aoiya estaria desprotegida.

Sano ficou chocado. (PS: eu não sei como botar de outra maneira "ele caiu no chão de surpresa e milhares de gotinhas apareceram na cabeça dele"... ^_^)

- Por que diabos a Aoiya estaria desprotegida??

- Pense só uma vez, idiota, sei que vai doer mas pode dar certo! Aoshi estava paralisado, e obviamente atordoado com o seqüestro de Misao. O resto da Oniwabanshuu chorava a morte da Okon. Kenshin não quer mais lutar. Kaoru e o moleque não fariam muita coisa, assim como você.

Sano estava realmente furioso agora, e o seguia pela casa:

- E o que fez você acreditar que sua presença aqui faria alguma diferença? Você nem sequer levantou um dedo desde que chegou!!

- Porque Hiko Seijurou estava aqui. E também porque este assunto não é da minha alçada, nem da sua, nem de ninguém aqui. É entre ele e a namoradinha dele.

- Akemi. Por isso ela foi embora, então?

- Não sei se ela é a culpada disso tudo. Mas pode muito bem ser. - Saitou abriu a porta da casa, e encontrou uma carruagem à sua espera - Ah, ótimo, já chegou. Ouça, estou indo. Meus cumprimentos a todos. - entrou na carruagem e abriu um sorriso - Sou um homem casado, não posso me demorar tanto fora de casa...

O condutor chicoteou os cavalos e eles foram embora, deixando para trás um Sano enfurecido e levemente frustrado por não ter enfiado um soco no meio da testa do sujeitinho arrogante.

 

"Misao está de volta, então" pensou Hiko. "Ela veio, Akemi vai". Hiko parecia o único na Aoiya que não se importava muito com o retorno da menina-doninha. Algo muito errado estava acontecendo. E ele precisava descobrir o que era. Junto com o raio de luz que era Akemi, veio uma maré de desgraça. Hiko se levantou, largou o sakê ali mesmo e estava saindo da Aoiya quando ouviu:

- Mestre! - Hiko não se virou, mas parou - Alguma coisa aconteceu ontem à noite, não é mesmo? E onde está Akemi?

Hiko se virou e encontrou o penetrante olhar violeta de Himura Kenshin. Ele também havia notado.

- Acredita mesmo que ela tenha algo a ver com isso?

- Claro, baka deishi. Mas qual é a ligação é o que preciso descobrir. - ponderou alguns instantes e perguntou a Kenshin - Você sabe onde fica o local onde Okon foi morta, e Misao foi seqüestrada?

- Sei. E... Aoshi também foi paralisado lá.

- O que está esperando para me levar até lá, seu idiota?!?

 

- Eu quero ver Aoshi-sama, Jiya... Por favor...

- Misao, você não está bem, nem Aoshi está. Eles te doparam, não é? - Kaoru perguntou.

- É... Não queriam que eu... - Misao bocejou - ... que eu soubesse como se chega à mansão...

- A mansão? O sujeito que matou Okon mora numa mansão? - Okina estava agitado.

- Mora... E todas as casas ao lado... Também são mansões... Longe de Kyoto. O nome dele é... - novo bocejo - ...

- Responde!! - Yahiko pegou Misao pelos ombros e balançou como gelatina - Responde!!

- Nobunaga...

O choque de todos no quarto era profundo, tanto quanto o sono no qual Misao acabava de cair.

 

- Kenshin!! Kenshiiiin!! - Kaoru desceu correndo as escadas e encontrou Kenshin na porta, calçando suas sandálias, enquanto Hiko o esperava, impaciente.

- Que foi, Srta. Kaoru? Alguma coisa com Misao?

- O nome do sujeito que matou Okon é Nobunaga! Nobunaga! - Hiko e Kenshin se entreolharam - Fica numa mansão, cercada por outras mansões também, aparentemente longe de Kyoto... - Kaoru voltou-se para Hiko - Não acha que tem algo a ver com Akemi...

Hiko olhou de maneira fulminante para Kaoru e ela imediatamente se calou. Hiko virou-se, e deixou para trás, a passos largos, Kenshin e Kaoru. 

- Eeei, espere aí! - Kenshin terminou de amarrar apressadamente suas sandálias e não reparou que acabou juntando ambas - Pode ser que algo tenha acontecido com Akemiiiii... - deu dois passos e caiu de cara no chão - Oro....

- Kenshin! Você está bem? - Kaoru o levantou e o ajudou a desatar as sandálias. Uma vez amarradas corretamente, Kenshin se levantou e começou a seguir rapidamente Hiko.

- Kenshin?! - Kaoru olhava para ele, preocupada. Kenshin parou, olhou para trás e disse:

- Não se preocupe, Srta. Kaoru. Eu voltarei logo. - ele lançou-lhe um sorriso, e foi embora. Kaoru só poderia esperar que fosse verdade.

 

- MmmmmMMMmMMMMMM!!!

- Mas será possível que nem amordaçada você cale a boca? Querida, querida, este belo momento finalmente chegou! Um casamento, nosso casamento! Aah, aposto que está dizendo como está emocionada! Veja, eu aluguei esta bela mansão no sopé das mais belas montanhas de Kyoto. Não é lindo? Isolado e reservado, como nossa festa deve ser...

Akemi lançou um olhar esperançoso ao topo da montanha, enquanto Nobunaga tagarelava. No topo da montanha, ela havia encontrado quem pudesse ajudá-la... E amá-la. Mas será que ele voltaria para o grande resgate? Provavelmente, não. Restava a Akemi admirar dúzias de empregados que arrumavam lindamente um enorme jardim.

 

A mente dele estava confusa em um profundo turbilhão de pensamentos. "Ela voltou..!" "Misao, querida!" "Você está bem?" "Responda! Responda!" Um afável sentimento de alegria rodava o corpo inerte de Aoshi. Deveria estar bem, sim, ela deveria. Era uma boa notícia, sim, era. Mas de que adiantava? Preferia que ela o visse morto do que naquele estado. Imóvel, sem reação, largado num futon em um quarto vazio do prédio da Aoiya. Incapaz de fazer qualquer coisinha medíocre que qualquer um poderia fazer. De repente, uma fagulha de esperança: o Okashira sentiu voltar o tato de sua mão direita por alguns instantes. Alívio. Talvez ainda houvesse como... Como se ele ainda pudesse se mover de verdade, pobre sonhador.

Uma onda incontrolável de felicidade subitamente arrepiou o corpo de Shinomori Aoshi. Ele sorriu contente. "Aaaaah, contente com meu próprio fracasso... Contente, contente, contentinho!" Ele começou a rir. "Ainda não chegou a hora... E todos estes sonhos que eu tive... Há tanto sangue em nossas mãos, não é mesmo? Quanta coincidência! Eu posso matar e quero que me matem também. Apesar de tudo que eu sinto e deixei de sentir, eu não preciso da sua comiseração estúpida e irrefutável! Não preciso, hahahahahahaha!!" Ele se ergueu da cama com um salto e deixou os lençóis que o cobriam escorregar pelo seu corpo, deixando-o nu. "Oooooooh, pobrezinho! Sentado aí sozinho, falando com uns caras ricos e desconhecidos, que querem te comprar... Aaah, vai morrer, morrer, morrer, mas tudo bem, eu vou colocar flores em seu túmulo..." Uma gargalhada demoníaca insurgiu da garganta outrora seca do Okashira. "Tem sangue no seu rosto, seu desgraçado impuro, pária nojento sem alma! Amiguinho, dance ao ouvir esta sinfonia demoníaca!!" Mais risos, mas desta vez, ele caiu exausto de volta ao futon, sentindo que recobrava por alguns instantes a sanidade. Uma golfada fervente percorreu seu aparelho digestivo e Aoshi subitamente notou que estava vomitando sangue. "Provavelmente minhas próprias tripas... Que final bonito."

 

Misao estava morrendo de sono mas ainda assim despertou. Ela podia ouvir gargalhadas, que aumentavam e abaixavam, e elas vinham do quarto de Aoshi. Decidiu levantar-se, apesar do custo. Foi até a escada e viu que Okina, Omasu, Kaoru, Sano e de vez em quando Yahiko discutiam alguma coisa que parecia ser de súbita importância. Ficou surpresa por ninguém ter ouvido nada, e só depois reparou que seu quarto era ao lado do quarto do Okashira (por insistência dela própria) e que se alguém tinha de ouvir alguma coisa, era ela. Mas quem estaria rindo?

Misao bateu à porta de Aoshi:

- Aoshi-sama...? Você está bem?

Ouviu apenas o que parecia ser uma resposta abafada e um ruído... nojento.

- Eu... Eu vou abrir!

Misao abriu a porta e Aoshi, subitamente se lembrando que estava completamente nu, puxou um dos lençóis para si, e teve outro acesso de vômito. Ela entrou em estado de choque ao ver o Aoshi mais pálido de toda a sua vida e a poça de sangue à sua frente. "Oh, não... As drogas... estão reagindo!!" Pegou uma pilha de lençóis limpos e berrou a plenos pulmões:

- JIYAAA!!!! 

 

- Estão prontos! Tome, prove um!

O jovem pegou um dos doces e comeu com gosto. Suas preces foram atendidas, e aquela idosa era uma doceira excelente!

- Puxa, estão ótimos! Acho que nunca comi doces tão gostosos... Aliás, temos vários aqui, não é? Para que uma encomenda tão grande? 

- Aaah, é uma festa de casamento, numa daquelas belas mansões distantes e isoladas! - ela fez um embrulho com uma quantidade considerável de doces - Tome. É uma forma de agradecimento por estar levando minhas encomendas e por ter dividido coisas tão importantes de sua vida comigo. Estou feliz que tenha aprendido o que precisava aprender.

Ele curvou-se formalmente:

- Muito obrigado, senhora. É muito gentil. Bem, tenho de ir! Até mais!

- Adeus, meu jovem!

Ele sentou-se ao umbral da porta e começou a calçar suas sandálias. Murmurou para si mesmo:

- Certas lições se aprendem mais rápido que outras... Mas acredite, eu aprendi minhas lições.

Seta Soujirou deu o último nó, ergueu-se e seguiu pelo caminho levemente tortuoso e bifurcado, com caixas repletas de doces nas mãos.