A superfície do lago foi afundando, revelando a margem de terra úmida. Logo, uma mão atravessou a água, e em seguida uma cabeça emergia. Os cabelos negros jogados para trás, fios escorrendo na frente do rosto, queixo erguido, olhos arregalados e a boca arfando inspirando o ar com muita força. Em seguida, outra pessoa emergia, carregando um sujeito de baixa estatura num dos ombros. Na mesma seqüência, outros dois surgiram. Uma mulher que apoiava as mãos no barro da margem enquanto erguia seu corpo, rolando para fora do lago. Outro sujeito de cabelos longos, escorridos pela água, também se apoiava com as mãos, e um dos pés escalando a margem.
Saídos da água, os quatro se puseram de pé. Suas roupas encharcadas, cabelos pingando. Seus rostos pálidos e gelados. Um vapor visível saia de suas bocas enquanto respiravam, devido ao frio daquela manhã.
Yusuke, ainda respirando profundamente, murmura para os outros:
- Saímos..., dessa...
Voltando ao templo de Genkai. A lareira estava acesa, crepitava quebrando o silêncio. Casacos pendurados próximo ao fogo gotejavam. Kuwabara, enrolado a um cobertor, tremia feito bambu em frente a lareira. Yusuke, agora com seu cabelo repartido no meio, cochilava também enrolado a um cobertor, sentado e encostado à uma parede.
A porta ao lado se abriu. Kurama entrou no aposento e fechou a porta cuidadosamente, sem fazer barulho.
- Como é que ele está? perguntou Yusuke.
- Hiei está bem. Está apenas desacordado. E..., -Kurama olhou ao redor do aposento. onde está Natsuki, digo, Donna.
- Está lá fora. Já sei sobre o nome dela.
Kurama fez um gesto com o rosto de ter entendido e foi para a porta da frente.
Botan surgiu por de trás de uma porta, assim que Kurama saiu. Fazia expressão de que quem havia ouvido a conversa.
- Hum... Natsuki. Eu já ouvi esse nome antes.
- Isso é verdade Botan? perguntou Kuwabara.
- Sim. Segundo eu ouvi, Natsuki era o nome de uma famosa caçadora de demônios no Makai.
- Caçadora de demônios? Yusuke perguntou.
- Sim. Assim como existem ladrões e criminosos, existem caçadores que capturam estes em troca de uma grande recompensa.
- E o que mais você sabe sobre essa tal de Natsuki?
- Ouvi dizer que ela acabou com muitos demônios numa determinada época. Mas que depois desapareceu misteriosamente. Ninguém nunca mais soube do seu paradeiro.
- Isso quer dizer que ela é..., é também..., uma...? antes de Kuwabara termina-se, Botan respondeu.
- Isso mesmo. Ela é uma youkai.
- Ah! Nessas alturas nada mais me impressiona! Toda mulher que me aparece é o capeta! falou Yusuke com deboche.
PAAAAFF!!!
Botan se irrita acertando o seu remo na cara de Yusuke.
- Aaaai!!! Sua loca! O que ce ta fazendo?
- Yusuke! Você é um grosso!
- Há! Ta se achando a tal, querendo me machucar com essa pancadinha mole de mulher, é?
- UGRRRRRR!!!!
Do lado de fora do templo, Natsuki estava sentada em cima de um pequeno suporte de pedra em forma de uma escultura de dragão, na ponta do corrimão da escada. Um de seus braços estava pendurado, com a mão segurando sua arma. O outro braço estava repousando sobre o colo. Tinha na mão um tubo de um tom vinho envelhecido, com alguns fios dourados pendurados em ambas extremidades, bem decorado.
Natsuki tinha seus olhos nesse tubo de pergaminho, pensativa. Em sua mente formavam-se imagens de algumas lembranças.
Parado em um degrau de uma escada de pedra, de costas para uma bela mansão em estilo medieval japonês, um homem alto de longos cabelos loiros esbranquiçados amarrados, sobrancelhas negras finas, contrastantes e olhos azuis, trajando trajes refinados, dignos de um chefe de uma família rica e respeitável da região. O homem fita com seriedade à pessoa que está a sua frente, uma garotinha de aparentes 10 anos de cabelos negros e olhos do mesmo tom de azul do homem, vestindo um traje ninja azul marinho e preto.
- Faz idéia das conseqüências que irá enfrentar ao fazer essa viagem? interrogou o homem de forma autoritária.
- Sim.
- Você não está preparada ainda. Mesmo tendo aprendido tudo o que eu tinha para lhe ensinar, ainda não está pronta para enfrentar o Makai. Não está pronta pra ser uma guerreira.
- Só saberei se estou pronta se eu for para lá.
- Não haja como uma menina mimada! Sabe melhor do que eu que é a única da minha linhagem capaz desenvolver os poderes a nós concebidos. Embora sua irmã mais velha também tenha esse poder, ela se recusa a treinar, e provavelmente jamais os desenvolverá. Se você morrer, tudo o que lhe ensinei terá morrido também.
- Escute, meu pai. Se eu ficar aqui, vivendo uma vida pacata e tranqüila, aí é que eu jamais poderei desenvolver meus poderes. Essa viagem é mais do que essencial para que eu me desenvolva. E se eu não sobreviver àquele lugar, significa que eu não sou digna de carregar os seus ensinamentos.
- E quanto à sua mãe? Vai deixa-la simplesmente?
- Minha mãe não está sozinha. Ela tem meus quatro amorosos irmãos mais velhos ao seu lado. Além disso, minha cunhada é uma pessoa doce e gentil, e a trata como à uma mãe. Tenho certeza de que ela estará bem.
- Sim, eu sei. Bem, faça o que quiser. Eu não a impedirei. Mas saiba que se partir não permitirei que volte pra esta casa. Se quer correr o risco, o problema é seu. Mas não ouse trazer problemas para a nossa família.
A garota curvou-se e respondeu.
Natsuki levantou o rosto, focalizando o horizonte. A luz amarelada do sol da manhã mesclava com uma neblina branca e fina contornando a paisagem. Seu rosto sério e sereno, ainda com imagens vagando por sua mente.
Makai. Natsuki encara um estranho que lhe oferece um porta-pergaminho.
- O que ele quer agora depois de tantos anos? pergunta Natsuki com desprezo.
- Ele me pediu para que eu entregasse esse documento em suas mãos. Está lacrado com um tipo de poder para que nem eu, nem ninguém pudesse abri-lo, com exceção de você. Não sei do que se trata, mas acho que ele tinha algo realmente importante para lhe mostrar.
Natsuki o olhou com desconfiança, mas estendeu a mão e agarrou o documento.
Natsuki despertou de seu devaneio com esse chamado. Olhou para o lado, vendo que Kurama a chamara.
- O que é isso? ele perguntou, referindo-se ao cilindro que ela tinha em mãos.
Natsuki olhou o documento e respondeu com um sorriso risonho.
A porta da frente se abre. O cilindro é arremessado no centro da sala, interrompendo o bate-boca de Yusuke e Botan.
- Hã? O que é isso? perguntou Yusuke.
- Isso, é o começo de nossos problemas. responde Natsuki.
- O que quer dizer? Kurama perguntou um tanto espantado.
- Vou lhes mostrar.
Natsuki sentou-se no chão, tomou o tubo e abriu uma das pontas, tirando um rolo de papel enrolado, amarrado com uma fita vermelha. Desenrolou-o ali mesmo no chão, diante dos olhos atentos ao que fazia.
Ao desenrolar o pergaminho, que parecia ter séculos embora estivesse incrivelmente conservado, revelou um conjunto variado símbolos. Haviam hieróglifos, algumas escrituras em chinês e outros tipos de escrituras totalmente incompreensíveis.
Kurama pareceu pasmo ao reconhecer entre os grifos símbolos de alguns dialetos provenientes do Makai.
- Nossa! Onde você encontrou isso?
- Isso esteve comigo por muito tempo. Mas a minha irmã Kotori esteve com ele também.
- O QUÊ!!!??? Você é irmã dela??? perguntou Kuwabara espantado.
- Idiota. Você é o único que não sabe disso. soou a voz de Hiei por de trás deles.
- Hiei? Mas você...
- Kurama, não sou tão fraco como pensa. Posso me recuperar rápido, mesmo sem a ajuda das suas plantas.
- Aahhh!!! Por que ninguém conta essas coisas pra mim?
Uma gota pairou na testa de todos.
- Bom, como eu dizia, essa escritura é causa e a solução de nossos problemas. Esse texto foi criado a quase 500 mil anos. Mas seu conteúdo possuiu uma data bem mais antiga do que o próprio texto.
- Ta. Mas o que significa isso? Parece grego! falou Yusuke.
- É um enigma escrito nas línguas mais antigas, cujo o objetivo é revelar uma palavra.
- Uma palavra? Tudo isso só por causa de uma palavra?
- Não é uma simples palavra. Essa palavra é a chave para a dominação dos três reinos.
- Dominação dos três reinos? Mas, isso se refere ao Reikai, Nigenkai e Makai? perguntou Botan.
- Isso mesmo.
- Não entendi. O que essa palavra tem a ver com tudo isso o que está acontecendo?
- Tem a ver com essa anotação em torno do texto. Veja. Natsuki colocou o dedo sobre a borda que contornava a folha. Olhando de perto, podia-se notar que na moldura desenhada haviam letras japonesas que formavam um texto minúsculo.
- Huum. Puxa, é tão pequenininho que eu nem havia reparado!
- Deixe me ver... pediu Genkai. Isto menciona algo sobre o tal cetro e sobre a alma do filho do Sagrado. Este se refere ao filho do Rei Enma, estou certa?
- Sim, está certa.
- Isso também menciona um dia de escuridão e um... escudo das trevas? O que seriam isso? perguntou Botan que também acompanhava as linhas.
- Isso é uma receita de bolo, se pode-se chamar assim. É o ritual que Kotori deseja realizar para tornar-se rainha.
- Por que não explica o que é esse ritual, então? disse Hiei.
- Esse ritual, foi criado, como eu disse, a cerca de mais de 500 mil anos. Foi o resultado da combinação de um calculo matemático preciso com a conjuração de uma maldição. Nem eu sei quem o criou. Sei apenas que previa um acontecimento numa determinada data.
- Qual data? perguntou Yusuke.
- A data de hoje.
- E o que vai acontecer hoje?
- Já chego nessa parte. A palavra à qual me referi, é uma palavra profana que invoca a morte. Eu ouvi dizer que foi criado por um demônio que desejava se vingar de seu rival. Fez com que acreditassem que aquele que desvenda-se o enigma e dissesse a palavra em voz alta, tomaria o lugar de Enma Daiô e reinaria sobre o Céu e a Terra. Mas o enigma era uma armadilha, pois quando alguém invocava a palavra atraía para si a própria morte. Durante os anos em que esse texto esteve perdido na Terra, muitos morreram ingenuamente depois de seus esforços para descobrir o enigma.
Até que em certa ocasião, um demônio, auxiliado por um astrônomo, uniu esse enigma a uma previsão de um acontecimento. Previram uma ocasião em que o céu se cobriria de negro, e que neste momento tanto o Reikai quanto o Makai estariam ligados com o Niguenkai. Em seguida criaram um ritual. Este ritual consiste em invocar a morte, sem ser atingido por ela, mas fazendo com que ela atinja um alvo. Em geral, quando, nesse caso, a morte é invocada, ela não ocorre de uma forma especial, e sim por intermédio de um acidente, tragédia ou catástrofe. Claro que, a gravidade do acidente depende do grau em que a pessoa possa se desvencilhar dele. E o alvo deste ritual é Koenma. Precisaria algo realmente grande para que ele fosse morto por um acidente. Além disso, Kotori o levará para um ponto do planeta que é o único lugar onde a morte não será capaz de atingi-los. Vai ser debaixo do escudo das trevas aqui mencionado.
- Mas o que é essa escuridão de que falam? perguntou Botan aflita.
- Vai ser um eclipse solar, que ocorrerá mais ou menos às 14:00h. Há um ponto que, segundo a previsão, não será jamais atingido pela morte. O escudo das trevas, um ponto que ficará exatamente debaixo da lua durante o eclipse.
Mesmo assim, a morte virá, com toda a sua força, e não vai parar até que Koenma morra. Em resumo, quando Kotori invocar a morte, ela virá de uma forma tão terrível que, provavelmente, arrastará com sigo toda a vida que existe, e não apenas neste mundo, como também nos dois reinos que neste momento estarão extremamente próximos deste. E só vai parar quando Koenma der seu último suspiro. Daí só sobrarão Kotori e seus soldados. E como os únicos seres vivos, serão os reis e juízes dos três reinos.
Todos ficaram em silêncio por alguns segundos, com os olhos arregalados diante do que estava para acontecer.
- Quer dizer então que tudo isso vai pro espaço? Yusuke falou num ar de calma e confiança.
- É o que vai acontecer.
- E você por acaso sabe onde fica esse lugar onde a tal Kotori está indo?
- Sei.
- Então vamos logo! exclamou com entusiasmo - Temos muitas fuças pra acertar hoje!
- Há, há, ha!!! Agora ce falou a minha língua!!! falou Kuwabara recuperando a confiança com o mesmo entusiasmo. Diante também dessa atitude, Hiei também se manifestou.
- Parem de falar seus estúpidos. Não temos tempo e eu ainda tenho contas a resolver.
- De qualquer forma, acho que teremos problemas, mas a única alternativa que resta é enfrenta-los. completou Kurama
- Muito bom. consentiu Natsuki.
- Mas antes... Yusuke deu um grande bocejo Uáááá...! Me deixem dormir um pouco! Eu to acabado!
Uma gota pairou na testa tos presentes.
- Ah, tudo bem! Ainda temos tempo mesmo! Então vamos descansar um pouco pra depois acabarmos com eles! falou Kuwabara.
- Hunf! Só um bando de idiotas como vocês precisam disso! Hiei resmungou, caminhando para a porta da frente.
- Eu concordo com você Yusuke. Mas antes, acho que seria melhor se você nos dissesse primeiro onde fica esse lugar, Natsuki.
Natsuki sorriu.
- Claro! O local não é muito longe. Fica em um antigo templo do lado norte da cidade, em um local desabitado.
- Acho que sei que lugar é esse.
- Então nos encontraremos neste lugar. falou Hiei antes de sumir pela porta.
- Certo! falou Yusuke antes de dar mais um longo bocejo.
Continua...