Capítulo 4 – O Rapto
O silêncio naquela noite era sagrado. De vez em quando sons de grilos rompiam levemente o silêncio. Assim também acontecia com o vento que balançava as copas das árvores, derrubando folhas secas e ásperas que eram arrastadas e se espalhavam pelo caminho.
Kurama, após alguns minutos de reflexão sobre a descoberta, iniciou, em voz baixa, porém séria a grave:
Natsuki percebeu a desconfiança, mantendo também a voz baixa.
Kurama já esperava alguma coisa a respeito.
Natsuki tolerou aquilo, abaixando a cabeça e processando o que ele havia dito.
Kurama investigou.
Aquilo era verdade, Kurama pensou. Mas as coisas ainda não estavam claras.
Aquilo lhe pareceu um absurdo, mas Natsuki compreendeu.
Kurama não disse nada. Natsuki procedeu, tentando melhorar a situação.
Não havia pensado nisso. Ela continuou.
Kurama permaneceu calado. Não tinha resposta contra isso.
Finalmente ele começou. Talvez fosse verdade...
Natsuki deu um longo suspiro, tomando alguns segundos, refletindo sobre o que iria dizer.
Kurama riu, pensando no fato da faculdade. Natsuki também descontraiu, rindo, sabia que a idéia era estranha, uma youkai fazendo faculdade.
Kurama relembrou algo que ela havia dito.
Não houve tempo. O primeiro aviso, era instintivo. Seus instintos guerreiros, adquiridos durante muitos anos, gritavam a presença de alguém, alguém forte, alguém que estava procurando-os, caçando-os. Quem seria? Não era uma só pessoa.
Olharam ao redor do local, estavam indo naquela direção. Seus olhos se cruzaram, não disseram nada, mas sabiam que algo estava para acontecer.
O movimento já era perceptível, se fosse um ser humano comum não conseguiria distinguir. Era um movimento rápido e silencioso. A energia que vinha deles também os denunciavam. Estavam atrás daquela neblina.
Seus corpos surgiram por de trás daquela cortina branca. O sangue correu mais rápido, a pulsação aumentou. Eram dois demônios, que caminharam diante deles. O primeiro era extremamente alto, tinha um corpo grande e uma enorme corcunda nas costas, com um pêlo marrom cobrindo seu corpo.
O segundo, mais baixo, com um corpo forte, pele esbranquiçada, com uma longa cauda de dragão. Um chifre no centro da testa, e cabelos negros, curtos.
O primeiro, olhou para Natsuki e depois para Kurama, reconhecendo-os. Parecia que Kurama havia lhe chamado a atenção. Ele balançou a cabeça para o lado, fazendo sinal para seu companheiro e perguntando:
Ele parou. Fitou Kurama por alguns segundos, segundos que duravam horas, a ansiedade, a expectativa, embora em sua face Kurama demonstrasse bastante calmo. Não estava tão nervoso, não além do normal. Possuía uma certa segurança, uma confiança em seu poder.
Mas naquele momento, enquanto esperava por qualquer reação daquele demônio, duvidou, hesitou, sentiu uma grande sensação de insegurança, uma sensação de tocaia. Uma voz em sua mente lhe dizia, mexa-se, faça algo! Não era possível. Qualquer movimento poderia ser sua fatalidade.
Finalmente Harim se moveu. Dando mais um passo na direção de Kurama, levantou sua cabeça de forma a alinhar seu pescoço. Abriu sua boca, como se fosse disparar algo grande dela.
Vuush!
Foi rápido. O som acompanhou o movimento, de uma comprida língua roxa que se esticou em linha reta. Essa língua, mais parecia uma cobra, interrompeu seu curso por um micro instante, sua ponta, mais larga que o comprimento e arredondada, passou a circular o corpo de Kurama, enrolando e prendendo seus braços, pernas. Kurama empurrava e puxava os braços, tentando soltar-se, mas a flexibilidade daquela língua evitava que ele se liberta-se. Continuou a forçar seus braços, sentia-os apertando, era doloroso, o suor corria por seu rosto, quando para sua surpresa, àquela ponta de língua colou em seu rosto, cobrindo a parte do nariz e da boca. Seus olhos arregalaram-se, enquanto suas mãos buscavam o rosto. Sentiu-se sufocando, faltando-lhe ar.
Natsuki investiu, mas Takanori se posicionou na frente dela, interrompendo-a. Natsuki esticou o pescoço por cima de Takanori, tentando ver o que estava acontecendo.
Aquela língua encurtou-se, sendo puxada de volta para dentro da boca, Kurama na outra ponta, foi arrastado até ali, até ser engolido de uma vez só. Aquela corcunda nas costas de Harim ganhou volume, o formato era como se algo a tivesse preenchido, um corpo, o corpo de Kurama, encolhido como uma criança no ventre da mãe. O corpo retorceu-se, seu movimento era visível através da pele, mas num instante quietou-se.
Takanori levantou sua calda, revelando uma lâmina brilhante no comprimento. Enquanto que atrás dele Harim sumia na neblina.
Natsuki deu um longo suspiro.
Takanori simplesmente respondeu:
Natsuki se posicionou em defesa. Takanori esticou sua calda, fazendo a lâmina crescer como se fosse um machado, e lançou-a na direção de Natsuki. Ela pulou um centímetro antes de ser atingida. Takanori continuou a atacá-la, lançando a cauda em sua direção, cortando de um lado para o outro, como um zig-zag. Natsuki apenas tinha tempo de pular e desviar-se. Takanori movimentava-se quase tão rápido quanto ela, não lhe dando tempo de atacar.
Natsuki correu pelo tronco de uma grossa árvore, dando um impulso antes de saltar por cima de Takanori. O tronco da árvore se partiu, e não havia a menor falha nas extremidades.
Aquele era o momento de atacar.
Natsuki fez um movimento rápido, Takanori não percebeu. Ela caiu do outro lado, em pé, e a lâmina chegou a um centímetro de seu rosto antes de cair no chão, e encolher-se.
Takanori se espantou, ao ver que sua cauda havia sido cortada. No momento que Natsuki saltou por cima dele, lançou um golpe na direção da base da cauda. Foi rápido demais para Takanori perceber.
Natsuki cruzou os braços, e seu rosto trazia sua expressão irônica típica.
Takanori rangeu os dentes de ódio, mas controlou sua raiva, levando alguns segundos para responder com o mesmo sorriso.
O que ele está tramando, pensou.
Takanori esticou os braços para os lados deixando-os quase na posição horizontal. Da parte interna, abaixo dos cotovelos, cresceram duas lâminas que acompanhavam o comprimento do braço. Seu you-ke ascendeu, percorrendo os braços, tinha uma luminosidade azulada, clara. Esticou o braço para cima, e baixou-o rapidamente, fazendo um corte no ar. A energia acompanhou a direção, Natsuki desviou-se, mas percebeu em seguida que suas costas tinham sido atingidas. Um corte sobre a pele, não era grave, mas atingiu-a facilmente. Ela se assustou.
Takanori lançou o outro braço, Natsuki pulou, escapando por pouco. As árvores a cinco metros dali explodiram em mil pedaços com o golpe, as mais atrás caiam cortadas.
Natsuki colocou a mão por dentro do sobretudo, tirando dele a barra dupla. Segurando suas extremidades, esticou-a horizontalmente.
Natsuki respirou fundo várias vezes. Virou-se e deu alguns passos na mesma direção que seguiu Harim, e foi surpreendida por uma voz:
Natsuki reconheceu a voz. Virou-se e viu Hiei saltar para o chão, caindo em pé. Ele se aproximou de Natsuki.
Natsuki investigou:
Continua...