Capítulo 3 – Uma Caçadora

Hiei se encontrava em posição de defesa, mas Shihoko não manifestava nenhum movimento.

A chuva, agora mais fraca e fina, umedecia os cabelos, pele e roupas de Hiei. Vendo que seu adversário não tomava iniciativa, ele próprio tomou. Num movimento rápido, Hiei investiu contra Shihoko com sua espada. Mas desta vez, Shihoko simplesmente sumiu, deixando Hiei com sua mente confusa. Lançou um rápido olhar no chão abaixo de seus pés, um instante antes de pular para trás diante do ataque de uma espécie de cobra de água que brotou do solo, disposta a abocanhá-lo. Shihoko revelava então o seu poder.

Seguiram-se os ataques, um após um, fazendo com que Hiei só tivesse tempo apenas de saltar para trás ou para frente em defesa, seguindo-o enquanto saltava nos galhos de árvores, ou nos troncos unicamente como um instante para dar um impulso para o próximo pulo. Enfim Hiei pisou o solo, e não pode escapar daquela criatura líquida que entrou em seu corpo pelas costas.

O que aconteceu? Foi o pensamento de Hiei naquele momento, e a resposta não tardou a vir. Sentiu uma forte dor percorrendo seus braços, pernas, pescoço e tronco, como se fosse estourado por dentro.

Finalmente caiu, ajoelhado no chão, com um dos joelhos tocando o chão e o outro erguido, apoiando sua mão no chão para não perder o equilíbrio. Seu rosto estava virado para o chão, no entanto levantou-o, de forma que pudesse olhar para frente. Deu uma risada, curta e baixa, que tolo que aquele Shihoko era, ele pensou. E acendeu o seu ki, percorrendo por todo seu corpo e queimando em chamas, fortemente. O que se pode ouvir foi um grito histérico e agonizante, era de Shihoko, e dava para se perceber uma espécie de vapor saindo do corpo de Hiei.

Shihoko saltou do corpo de Hiei desesperadamente. Seu corpo, agora em forma física, todo queimado, sua pele estava cheia de erupções, marcas escuras em formas diversas onde não havia mais pele, em seus braços, pernas, pés, ventre, pescoço e face, uma visão realmente chocante do estado em que ele se encontrava.

Caído no chão, enfraquecido e respirando com dificuldade, por causa da dor que sentia, Shihoko só teve tempo de olhar para Hiei antes de levar o golpe das chamas negras. Seu corpo voou antes de cair no chão, violentamente, que ganhou uma tonalidade acizentada escura, tornando-se pó, e desaparecendo. Esse efeito era devido a necromancia, pensou Kurama.

Kotori parecia furiosa naquele momento, murmurando para si mesma que nunca deveria ter invocado aquele miserável do Shihoko. Controlou-se logo, estava muito segura, pensando que aquele incidente não era o bastante para interromper seus planos. A chuva já parava naquele momento, e ela se desfez da sombrinha, entregando-a ao garoto. Caminhou em torno daqueles cinco, observando-os, sua expressão de superioridade e calma, e finalmente se pôs diante deles.

Yusuke deu um passo à frente.

Kotori ardeu, dava pra ver em seus olhos.

Queria acabar com eles, mas tinha que sair de lá rápido.

Kimitaro tomou rapidamente a frente de Kotori, atravessando o ar com sua espada, lançando uma espécie de onda que foi na direção de Yusuke. Ele desviou, assim como todos os que estavam naquela direção.

Enquanto Kimitaro deu aquela cobertura, Kotori se aproximou de Kurama, lançando uma bola de energia em seu estômago, fazendo-o recuar. Nesse movimento, ela segurou seu pescoço com uma das mãos, seu rosto bem próximo ao dele, seus olhos bem abertos, enquanto falava só para ele em voz baixa:

Kurama, permaneceu parado, observando a fuga deles. Donna, se aproximou, comentando:

Ele havia depositado no cetro uma semente minúscula, que liberava uma espécie de pólen. Onde esse pólen caísse, nasceriam pequenas flores brancas que marcariam o trajeto para o esconderijo. Aquela na verdade era uma opção bem arriscada, pois era necessário esperar os primeiros raios de sol para que as flores nascessem, o que tomaria tempo. Era preciso arriscar.

Kotori sentada em seu trono, estava silenciosa e pensativa. Aquele rapaz de cabelos compridos era realmente muito bonito. Poderia se tornar o companheiro perfeito para ela. Havia morrido jovem e não havia se casado. Seria conveniente ter alguém para acompanhá-la em seu reinado. Seria conveniente salvá-lo da destruição, pensava.

Kurama levantou-se num solavanco. Foi um pesadelo, estranhamente não conseguia se lembrar do que havia sonhado. O quarto estava escuro, num silêncio absoluto. Deu um longo suspiro. Tinha sido uma boa idéia se abrigarem no Templo de Genkai.

Deitou-se novamente, cobrindo-se, mas sentia-se um pouco agitado. Certamente não conseguiria dormir naquele estado. Levantou-se, com todo cuidado para não fazer muito barulho, vestiu seu jeans, deixando as pontas de sua camiseta branca para fora, em seguida sua grossa jaqueta marrom e calçou suas meias. Caminhou até a porta da frente, sempre nas pontas dos pés, calçou seus sapatos, amarrando cuidadosamente os cadarços. Abriu a porta, e saiu.

Precisava respirar. Estava uma noite bem fria, o céu estava mais limpo, mas havia ainda uma neblina ao fundo, cobrindo o horizonte. O outono estava começando aos poucos.

Desceu os degraus, sentando-se no penúltimo, com os pés no chão. Inclinado para frente com os cotovelos apoiados nas pernas, mãos juntas. Olhou para o relógio, marcava 03:44m. Seus olhos perdidos no nada, sua mente vazia, acalmando-se. A noite era bem tranqüila.

Sentiu uma mão no seu ombro. Foi surpreendido. Era Donna, que sentava-se um degrau acima dele. Olhou para ela, talvez fosse uma boa hora para conversar. Ela iniciou.

Kurama foi pego de surpresa. Como ela havia adivinhado, ou será que ela sabia de alguma coisa? Mas antes dele responder a pergunta, Donna esclareceu.

Kurama congelou. Finalmente sua mente ficou clara, uma lembrança...

Um acontecimento do passado. Youko, ferido e sangrando, sendo estrangulado por uma barra dupla, segurado de costas contra o corpo de uma jovem de cabelos negros bem longos, espetados, que dizia de forma irônica:

Kurama levantou-se num pulo, desvencilhando das mãos de Donna, ou Natsuki.

 

Niguenkai. Um vilarejo simples, onde se ouviam vários gritos. Um demônio cai no chão, morto, com sangue saindo de sua boca. Outros dois se dirigem para o terceiro:

Vários demônios correm em bando, em sua frente está Youko. Percorrem uma estrada, até entrarem em uma floresta.

Alguns que estavam mais atrás, aparentemente mais fracos, são atacados por outro grupo, os caçadores, armados com espadas, facas e diversas armas. Eles saem por de trás das árvores, matam os mais fracos, e acabam lutando contra alguns outros, um pouco mais fortes.

Youko não se preocupa com o que está acontecendo. Só quer fugir o mais rápido possível. Ele percebe algo vindo de cima, e interrompe seu curso, desviando-se para o lado. Cai para o lado, antes que uma garota, Natsuki, caísse acertando-o com os pés.

Natsuki, vestindo um colete trançado preto, mais parecido com um espartilho, sobre uma blusa vinho sem mangas, um cinto grosso, metálico, calças pretas com alguns rasgos nas pernas e botas marrons amarradas nas pernas. Os braços com braceletes do mesmo material das botas, que iam até embaixo do cotovelo. Nas mãos, uma barra dupla longa, vermelha com uma corrente cor de chumbo, e uma coroa de pontas afiadas nas extremidades.

Natsuki, sorrindo como se estivesse rindo por dentro, apenas respondeu:

Youko e Natsuki começam a lutar. Seus movimentos são rápidos, entre chutes, socos, alguns golpes acertam, outros são desviados. Era a força de Youko contra a rapidez e agilidade de Natsuki, embora também estivesse com seu corpo ferido, não hesitava em acertá-lo com sua barra dupla, em seu rosto e costelas, além de fincar, sempre que podia, as pontas afiadas em seu tronco e membros. Embora isso não o debilitasse, era bastante doloroso para ele.

Natsuki finca mais uma vez a ponta de sua barra-dupla pouco abaixo de seu coração, puxando-o para baixo e para o lado, rasgando a pele. Youko, não suportando a dor, colocou a mão sobre o ferimento, lançando um gemido. Afasta sua mão um pouco, virando-a e a vê banhada de sangue.

Nesse meio tempo Natsuki pula por de trás dele, alçando seu pescoço com a barra. Pressiona para trás, estrangulando-o, Youko com suas mãos na corrente tentando afastá-la, sentindo-se sufocar, sua boca aberta buscando desesperada mente por ar.

Natsuki puxa sua cabeça para perto, aproximando-o o suficiente para falar-lhe:

Antes que Natsuki disse-se mais alguma coisa, Youko, reunindo todas as suas forças, afastou a corrente o suficiente para retirar sua cabeça, e, ainda segurando a corrente, rodou Natsuki, lançando-a violentamente contra uma árvore. Natsuki bateu de frente, caindo, aquela pancada havia sido bem forte deixando-a um tanto atordoada, mas ainda mantendo a consciência. Youko ficou parado, vendo ela se endireitar em pé. Ela olhou para ele, estava visivelmente nervosa.

Youko parecia calmo, com uma expressão séria e fria, quando se dirigiu para ela:

E então ele continuou a correr. Estavam no final da floresta. Natsuki, ainda um tanto fraca pela pancada, respirando profundamente várias vezes, o braço direito solto junto ao corpo, apoiando a outra mão, a barra-dupla pendurada nela, nas árvores próximas, caminhou até chegar em uma área aberta, ficou olhando Youko se afastar até perdê-lo de vista, enquanto ria, com seu olhar irônico típico, dizendo:

 

Voltando ao presente, Natsuki, já de pé, desceu os três últimos degraus.

Kurama estava confuso, atordoado. Ela estava realmente bastante mudada, sua imagem, a forma com que tratou seus amigos. Esta mudança seria uma farsa? Se não fosse, o que teria feito ela mudar daquela forma?

Continua...

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