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FORMAÇÃO CAÓTICA

O acontecimento serviu para nos avisar o quanto estávamos estressados, precisávamos parar com tudo para refletir, conversar sobre a missão, pois a muito tempo o objetivo da viagem tinha deixado de ser uma mera substituição de pessoas da estação Primavera e o seu reabastecimento.
Quando havíamos partido da Terra, a 2 anos na nave Visitante, tínhamos como missão substituir alguns cientistas que exploravam o sistema de Júpiter e levar alimento, ar e água para o reabastecimento da estação em órbita deste planeta.
Acredito que parte da missão já estava fadada ao fracasso, pois não há como substituir "cientistas".
Estes seres humanos que vestem esta roupagem de homens de ciência são, na verdade, fazedores de ciência. Mas esta culinária é muito abrangente, veja o caso do Dr. Chamberlein, um dos residentes da estação, ele é doutor em Psicologia Integrada, nenhum de nós poderia substituí-lo.
Ele é uma assumidade em psicoquímica, insuperável em sua área, com um conhecimento muito superior sobre as drogas artificiais ao do doutor Bryan, o nosso clínico geral, e evidentemente ao do meu, afinal, sou contra a intervenção por meio dos psicoquímicos artificiais e de grande parte dos homeopáticos alterado geneticamente.
Nem eu, nem o australiano estaríamos capacitados de continuar os estudos de Chamberlein da variação química e efeitos colaterais da alimentação produzida na estação Primavera. Iniciaríamos algum trabalho que pouco, na realidade nada teria a ver com a psicoquímica, ou se tivesse, seria outro caminho com outro objetivo.
Talvez o professor Peter Kraminsky tivesse interesse em dar continuidade no trabalho de Iliochi Tikhov, mas será que este se interessaria em passar seus estudos para um colega estando tão perto de alguma conclusão interessante?! Acredito que não, mas posso estar errado, cientistas, por vezes , são imprevisíveis.
Conheci Tikhov numa convenção em São Petersburgo, o que me surpreendeu nele não foi sua genialidade, mas como era fanático.
No caso de Ronald seria uma questão meramente militar, tomaria o lugar da Tenente Waleria Krueger, coisa que para a ciência faria pouca diferença...mesmo que o coronel seja meu amigo eu sei que militares são sempre militares, pois foram intensamente treinados para agir como tal.
Atualmente os soldados são uma espécie em extinção, e por isso, como os samurais foram, são agarrados à uma tradição arcaica. As guerras ainda são feitas por homens de negócio, mas quem veste a farda são políticos, engenheiros Não podemos dizer que todas as quatro estações espaciais espalhadas pelo Sistema Solar são auto-suficientes, nenhum sistema é perfeito. O universo é regido pelo caos que só atingirá o equilíbrio no seu fim. Talvez a soma de "todos" os fenômenos resultem numa identidade zero, mas não é o caso de um infinitesimal sistema isolado.
Existem perdas que são difíceis, para não dizer impossíveis, de ser contidas. Quando alguém sai da estação para algum conserto extra-veicular uma réstia de oxigênio ou umidade se volatiza no espaço. A matéria inorgânica, orgânica e até a sanidade aos poucos escorre pelos nossos dedos expandindo pelo cosmo. Durante a nossa viagem recebemos informações de que os "primaveranos" estavam captando transmissões por demais estranhas vindas do centro da Grande Mancha, transmissões que poderiam ter repercussões políticas e sociais na humanidade. E até aquele momento não tínhamos tido tempo para compartilhar nossas dúvidas e opiniões.
Transcrevo a conversa resultante dessas temeridades . - Se a União Oriental tivesse realmente construído uma base além dos Cinturões dos Asteróides por que fariam na surdina?! Isto não é procurar pulga em rabo de rato?
- Concordo com o Dr. Bryan que é besteira pensar em espiões no além, vão espionar e fazer segredo do que Émile??
Como sempre Bryan e Kraminsky tentavam me encurralar: - Algo que tenham descoberto! - respondi.
- Um monólito negro - O coronel riu ao dizer isso e continuou, austero e mantendo o seu papel de dono da verdade: - Qualquer mensagem aleatória vinda de Júpiter não significa que exista vida. Poderia ser algum fenômeno físico, uma máquina criada ao acaso como um micro quasar ou uma estrela de neutrons, já houve casos em que confundimos sinais rítmicos como prova de vida inteligente.
- A humanidade é uma coletânea de máquinas criadas ao acaso coronel Ronald.- repliquei, e em voz baixa completei que não havia medida para os seres vivos.
- Um mero acaso! Se quiser chamar assim... - Oras Bryan, um "mero" por demais maravilhoso para eu discordar do físico Isaac Newton de que não haja uma Ordem Divina como causa de toda esta organização física.
- Oh, oh seu barbudo matreiro, Ordem Divina, organização física, talvez seja burro suficiente para formar uma nova religião com Ordem Divina como tema.
- Ninguém cria uma nova religião Dr., trocam palavras para dizer a mesma coisa.
Os outros dois americanos, Andrews e Jack, não expressavam suas opiniões, conversavam em particular, creio até que suas conversas versavam outros assuntos, lembro-me de ter ficado curioso, e depois vexado.
Ter dois americanos numa nave da Organização Ocidental fugia do acordo da Federação, mais de 80% da tripulação tinha origem anglo-saxônica, pois Ronald era inglês e Bryan australiano. quando a comissão percebeu não havia mais tempo para redefinir a tripulação, Peter Kraminsky era polonês e eu, supostamente francês, mas isto contarei mais adiante, se eu sobreviver. Naquele momento me afundei em outros pensamentos. Quais eram as minhas razões pessoais de empreender uma viagem tão longa?! Já iniciei tantos textos, inacabados como este, de outras viagens, outras histórias. Queimei a todos para não reuní-los numa coletânea sem unidade. Fiz isto também porquê não desejava deixar os rastros de minha existência. Pensei que talvez aquela fosse minha busca definitiva para atingir a totalidade existencial. Triste engano, cada objetivo atingido é seguido de novos horizontes, e a busca só termina quando deixamos de ser, de estar presente no mundo.
Pensava ou deixava correr o pensar, foi quando Andrews pousou suas mãos sobre meu ombro e disse:
- Vida é uma explicação razoável para os sinais de rádios não aleatórios, assim como as alterações de Sheley no centro da grande mancha. Talvez esta seja uma prova máxima de que nós surgimos uma formação caótica com um resultado não linear satisfatório de forma espontânea, e não de longos anos de tentativa e erro obedecendo uma regra determinista da lei do mais apto como estabelece a evolução Darwiniana, pois se realmente existir vida inteligente no centro da Grande Mancha obviamente não surgiu após milhares anos de evolução, afinal uma atmosfera instável como a de Júpiter não daria este tempo todo para a formação de uma entidade intelectual .
O americano achava-me um trapaceiro, estranhei que dissesse em viva voz que concordava comigo, talvez como desculpa ou lembrando meu trabalho sobre a influência das alterações de Sheley na psique humana. Era um trabalho limitado de uma mente restrita de uma época que tinha poucas possibilidades de comprovação além das simulações por computador. Pensava que teria oportunidade de verificar esta influência na Estação Primavera. Ronald não só franziu a testa como pôs a mão nos seu esparsos cabelos brancos resmungando: - Senhor, livrai-me desse fanáticos cientistas de assuntos sem nexo nem finalidade. A pluralidade de vida em nosso mundo possui uma chave unificadora, é uma coisa única no universo, foi descoberto por volta de 1950 a base de todos os espécimes terrestres pelos americanos James Watson e Francis Crick, o DNA, é incrível que a modificação deste código pode definir de todas as espécies conhecidas, podemos definir assim vida como qualquer ser que possua reprodutibilidade com alguma espécie de código genético, assim um robô, por exemplo, não teria vida.
Num passe de mágica uma caneta surge entre os dedos do australiano que responde ao coronel:
- Isto é "forçar a barra cara", computadores foram a princípio programados com códigos binários assim como nós somos com os códigos genéticos, um robô pode muito bem desempenhar a reprodutibilidade ao ser programado para construir outro robô com um programa para a construção de um semelhante e assim por diante. Como disse Lessing, em Nathan der Weise: " So lad ich ueber tausend tausend Jahre Sie wieder hier."
- Mas faria isso de forma linear. Mesmo assim o robô é fruto de nossa própria existência...
Andrews se animava com o rumo da conversa:
- Oras, algo só não é linear quando não conseguimos compreender as fronteiras do determinismo de regras bem definidas, como a biodiversidade da floresta amazônica, nenhum engenheiro florestal conseguiria calcular de forma eficaz o perímetro ocupado, espécie e disposição de cada árvore em 1 km2 porém o crescimento ao acaso faz aquela formação caótica ser organizadamente satisfatório, a auto-organização não é linear, mas seu fim é um conjunto organizado e selecionado para a sobrevivência, caso haja interferência do ser humano isto não significa que determinado ser tenha começado de forma linear e por isso não seja vida, a própria ação humana faz parte do jogo aleatório da evolução.
- E o computador seria uma continuidade aleatória... ah, como diria Bryan, vão catar coquinho! - E o coronel se retirou dizendo que tinha coisas mais importantes para fazer.

RESPONDA PRIMAVERA

Atualizado 23/09/2004

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