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FRAGILIDADE 

Espeto o meu dedo e o vejo tingir-se de vermelho. Uma cor trágica que me lembra a fatalidade da condição humana, a de ser mortal.
Felizmente não é a tinta com que escrevo, tenho outros artifícios que não tinha o mestre do Conde de Monte Cristo.
O líquido pastoso e denso, que ao secar entinta o polegar de forma grudenta, faz-me lembrar do acidente que aconteceu. O primeiro de uma série de acontecimentos inusitados que conto nesta espécie de confissão. Há muito do que falar antes disso, mas creio que não haverá tempo, e Gaunilo é mais capacitado do que eu para escrever qualquer coisa que preceda a este breve relato.
Havíamos conseguir passar pelo Cinturão de Asteróides sem que houvesse problemas, ou quase, um dano na placa de alimentação EN 49 levou-nos , eu e o coronel, a entrarmos em nossos trajes espaciais para substituir a gaveta onde estava a placa. É difícil se acostumar a essas saídas no espaço, com os pés sobre o nada e o medo de nos perder do navio. Estarmos acompanhado de alguém é sempre uma segurança e um conforto, antônimo de uma solidão inigualável do espaço.
Ao longo do casco víamos uma série de microcrateras, ocasionadas por milhões de partículas de poeira de algum planeta que nunca se formou, mas nenhuma havia atravessado a couraça protetora que protegia os órgãos vitais da Visitante, essa nau interplanetária que me levava a um encontro marcado com o meu destino.
Após um rápido exame do casco Ronald começou a soldar um cabo de cobre que não lembro de ter alguma função de importância, meu objetivo prático era supervisioná-lo.
Girou o corpo soltando a solda e reclamando de uma picada. Não chegaram a se passar 3 segundos

 quando vi filetes de sangue dos dois lados de sua coxa direita. Vaporizavam por causa da pressão zero e cristalizam logo a seguir pela baixíssima temperatura do espaço.
Pense como o tempo é elástico, o que aconteceu em questão de segundos visualizo com detalhes e em câmera lenta. Porém, a vítima só percebeu o que estava acontecendo quando de supetão comecei a puxá-lo para dentro .
No sétimo segundo estávamos no compartimento de pressurização. Ele inconsciente pela perda de sangue e eu me perguntando o que fazíamos tão longe de casa sendo tão frágeis .
A resposta é fácil, o homem nunca teve casa, sempre foi nômade, forasteiro de sua própria terra. Nos movemos pelo universo do qual fazemos parte, se fosse diferente seríamos como as árvores.
Como existe sangue congelado de cada um de nós o coronel logo se restabeleceu após a transfusão. Sua perna havia sido perfurado por um microasteróide de 0,8 mm, tão pequeno que não causaria tanto alarde, mas ele estava no vácuo absoluto, onde qualquer pequeno acidente pode ser fatal. Se eu tivesse me demorado o minúsculo furo aumentaria e o que aconteceria a seguir não é meu interesse contar. O espaço que navegávamos naquele momento estava atulhado de poeira estelar, uma partícula por quilometro quadrado a mais de 50 mil quilômetros horários em relação a nós, mesmo assim a chance daquele acidente acontecer era de um em mil.
Casualidade como estas me mantém vivo, mexem comigo, cada segundo futuro é deliciosamente imprevisível.
Talvez por isso, por essa imprevisibilidade que me atenho a escrever estas poucas páginas, não mais que umas cinco, o risco de me expor é grande e não quero me arriscar.

FORMAÇÃO CAÓTICA

Atualizado 23/09/2003

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