WICCA HOJE

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Textos

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WICCA: SE TRANSFORMANDO, MAS SEM PERDER A MAGIA 

Fernando Martins 

Tudo se transforma, tudo se adapta, tudo se funde... Na Wicca não é de outra forma. Nos seus 50 anos de existência, ela vem se transformando, adaptada que é às mais diferentes culturas. Falar de Wicca hoje, é lidar com algo complexo. Não pela Wicca em si, cuja natureza prima pela simplicidade mas sim, pela dispersão de conceitos que a envolveu e que a fizeram tomar rumos dos mais variados ao longo destes anos.

A colcha de retalhos costurada por Gardner a partir da bruxaria inglesa associado com os procedimentos formais das Ordens aos quais fazia parte, continua sendo costurada...

O caráter particularizado europeu, se desdobrou com a Wicca sendo levada para os Estados Unidos da América, que hoje, diga-se de passagem, é o país que dita as tendências na Wicca para o resto do mundo.

A época em que a Wicca chegou em terras do Tio Sam foi propicia para a rápida absorção desta nova concepção religiosa. Era a época de vários, dentre eles destacamos os movimentos feministas e gays. Foram estes dois movimentos o que mais se identificaram com a Wicca, embora esta identificação tenha ocorrido por conta de uma visão distorcida da Arte (outro forma de denominar a Wicca). Vejamos como:

As feministas viam na Wicca a religião da Deusa, pelo fato de ter o aspecto feminino maior foco, por se tratar do aspecto ligado a fecundidade, à concepção, à terra que dá frutos para alimentar seus filhos. Uma visão distorcida uma vez que a Wicca olha o divino como um sistema em equilíbrio entre o aspecto feminino e masculino e não priorizando um ao outro. Não evocamos a Deusa ou o Deus e sim, o casal Divino. Ela a Grande Mãe, ele, tanto seu filho quanto seu consorte. Se assim não fosse, teríamos uma religião nos mesmos moldes do cristianismo, apenas trocando o gênero da divindade de masculino (o Deus) para o feminino (a Deusa) e sabemos que não é bem assim. De qualquer forma, este olhar distorcido fez a Wicca ter sucesso junto as feministas norte americanas.

Quanto aos gays, uma outra distorção foi feita. Desta vez, por conta do aspecto de comunhão e equilíbrio entre o feminino e o masculino e principalmente por conta da famosa frase de Doreen Valiente (uma das grandes divulgadoras da Wicca, iniciada pelo seu criador Gardner), que dizia: toda forma de amor para a Deusa é sagrada. Ora, “masculino e feminino”, “comunhão”, “toda forma de amor é sagrada”, enfim, um prato cheio para o mundo gay. Ocorre que os aspectos femininos e masculinos se mantêm em equilíbrio e não, trocando suas identidades. O masculino é o aspecto fecundador assim como o feminino é o aspecto reprodutor e juntos geram os frutos, geram os seres humanos, geram a vida, enfim... São dois pólos distintos que se complementam assim como o yin e yang. Dois pólos que podem sim existir dentro de cada um de nós mas de maneira subjetiva e mesmo assim, na ordem das elaborações arquetípicas como nos diz Jung.

O fato é que graças a estas distorções, a Wicca foi bem recebida naquele país extremamente pragmático e voltado principalmente para tudo que pode fomentar o capitalismo.

Daí a introdução de elementos esotéricos dos mais diversos; o sincretismo de panteões dos mais variados; a utilização de conceitos da psicologia principalmente da psicologia analítica de Jung, sem contar com outros aspectos. Tudo isto ao longo dos anos foi formando esta Wicca que temos hoje, algo bem diferente do sistema mágico criado por Gardner e a orientação religiosa buscada por Doreen Valiente.

A Wicca hoje é um espaço de encontros e desencontros de teóricos, magistas, ativistas ecológicos, feministas, movimentos pró minoria, adolescentes encantados, comerciantes, delirantes, enfim...

A Wicca atualmente transcende suas características mágico-religiosas, tornando-se uma opção de estilo de vida, uma marca de identificação, uma forma de olhar e principalmente, de se colocar no mundo.

Se isto é bom ou mal não cabe aqui julgar mas de certo é algo bem novo e que ainda tem muito a se desdobrar.

A Wicca hoje é um evento, que contextualizando para nossa realidade brasileira, toma ares de uma verdadeira revolução comportamental.

No Brasil, desde a década de 70, inicio dos 80, com a vinda do orientalismo para cá (via EUA para variar), principalmente o budismo e o taoísmo e as vertentes oriundas da Índia, não se vê um movimento espiritual que mobilize tantas pessoas em um impressionante crescente.

Em minha caixa postal virtual, são dezenas de e-mails diários, das mais variadas origens, buscando saber o que é este “algo”. Um “algo” capaz de unir uma geração de wiccans como a minha, que se reconhecia através de códigos e se reunia em locais discretos, sem alarde, principalmente por conta do preconceito que ainda hoje existe, com uma geração de jovens, alegres e sadios e quem sabe talvez cansados, do tolhimento em todos os graus das grandes religiões vigentes e do vazio que toma conta de corações e mentes da grande massa despiritualizada, criando um elo mágico através de uma linguagem em comum.

É a Magia da Wicca esta linguagem comum. A linguagem mágica como diz Paulo Urban. Elaborações do inconsciente coletivo vindo à tona, diria Jung. Por mais que distorçam, que comercializem, que a impregnem de vários conceitos outros, o que mantêm até hoje viva a Wicca é exatamente o se caráter mágico, a Magia que é a base de sua concepção.

Por isto a chamamos também de Arte, oriundo do termo Craft de WitchCraft.

Craft, arte ou ofício, aprender e conhecer sempre e sempre produzir algo de bom para o mundo e as pessoas. Religião para uns, estilo de vida para outros, para os iniciados: Arte e Oficio, mas para todos, encanto e encantar do mundo.

 

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