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  A MITOLOGIA ARQUETÍPICA DOS DIAS DE HOJE

 Fernando Martins

A mitologia é vista por muitos como algo fantasioso. Não seria sem razão, se nos atermos apenas a opor o logos (logos) ao mitos (mitos) , pois o primeiro é da ordem do raciocínio, do lógico, logo, verdadeiro. O mito no entanto, não seria uma mera oposição, um algo fantasioso, pois, embora este atraia pela sua irracionalidade, não possui nenhum outro fim senão a si próprio, ou seja, sua existência se justifica pelo próprio existir do homem. O mito faz parte do espírito, e não é algo que precisa ser explicado e sim, demonstrado, se expressando através da arte, da literatura e principalmente, através de nosso inconsciente.

A partir de Jung (medico psiquiatra e criador da psicologia analítica, discípulo de Freud que o chamava de príncipe herdeiro), o estudo aprofundado da mitologia através da alegoria, tornou-se matéria de fascínio, não só para pesquisadores e acadêmicos mas também para o publico em geral. E porque isto? Exatamente por o mito atrair todo este lado lúdico, mágico, encantado do espírito humano.

Este será o primeiro de uma série de textos que farão com você uma viagem aos segredos, nuances, interpretações e fascinantes historias dos mitos da antiga Grécia, berço da mais pura beleza mítica.

Mas antes de falarmos sobre os mitos propriamente ditos, iremos buscar compreender neste primeiro momento, o porque da variedade de interpretações que encontramos quando buscamos saber sobre a mitologia grega.

Os mitos em geral, só podem ser pesquisados através dos textos e da arte e com a mitologia grega não é diferente. Perceberemos aí o primeiro motivo para tal dispersão. Sabemos, que para se construir uma narrativa, é necessário que observemos a ação, o tempo e o lugar. Ou seja, temos que localizar a ação em um determinado espaço de tempo e dentro de um contexto geográfico qualquer que seja. Ora, fazer isto com o mito, é tirar-lhe o que lhe é de mais peculiar e fundamental, o deslocar-se livremente pelo tempo e espaço. Tentar organizar, dar uma ordem cronológica aos mitos, é tarefa árdua no entanto necessária para satisfazer nosso entendimento racional. No entanto, esta ação, engessa, prende, formata o mito de forma que o descaracteriza. Temos aí o mito descaracterizado para atender as necessidades estéticas dos poetas.

Um outro motivo que levou a tal dispersão de interpretações dos mitos, foi a ação sofrida pela atitude racionalista dos pré-socráticos que buscaram desmitizar os mitos em nome da razão (logos). Foi a partir daí que o mito começou a se tornar apenas ficção, embora na verdade, a critica dos filósofos da época, não visasse ao pensamento mítico, à sua essência e sim, a forma como eram concebidos os deuses, com todos os sentimentos e atitudes humanas, inclusive, as mais vergonhosas como o adultério, a inveja, as trapaças. Era a mitologia antropomorfista, onde os deuses, nasciam, usavam vestes e agiam como os humanos embora fossem imortais e tivessem poderes sobre o destino dos homens. Estes eram os deuses das narrativas de Homero e Hesíodo, as duas maiores referencias de literatura mítica grega.

Com Demócrito (520-440 a.c.), veio a mais dura crítica racionalista, a de que os deuses e a mitologia nascera da fantasia popular. Seria impossível pela sua teoria atomicista, existir algo imortal.

Temos ainda um outro fator que marcou bem a questão geográfica na mitologia, que foi a politização. Foi por razões políticas, que se utilizou dos mitos para o engrandecimento de Atenas. Incrível como embora com a identificação das cidades de origem em seus nomes, heróis míticos se encontravam sempre em Atenas, como Édipo de Tebas, Orestes de Argos, Pólux de Esparta, etc etc...

Estes são alguns dentre outros motivos que fizeram a mitologia grega chegar até nós de uma forma que dificulta bastante o seu estudo e sua compreensao. Sendo que, se ela chegou até nós, sobrevivendo a tantas críticas e distorções, foi graças a uma visão que se formou a seu respeito e que tomou conta do pensamento grego a partir do século IV.

Estando descartada, a partir de Demócrito, Epicuro e outros, a possibilidade de uma compreensão de forma literal dos mitos, passou-se a se buscar suas significações ocultas, subentendidas.

Os mitos começaram a ser percebidos como significantes dos fenômenos naturais e posteriormente, foram se identificando também com os sentimentos e emoções humanas. Estabelecia-se aí, uma outra forma de se olhar o mito. Este olhar foi denominado, no inicio do século I d.c. , de alegoria.

Alegoria que etimologicamente significa “dizer outra coisa”, ou seja, um algo escondido, velado, subentendido por trás das imagens e narrativas míticas.

E foi graças a este sentido alegórico, que a mitologia foi “salva” de ser soterrada sob as críticas racionalistas dos filósofos gregos.

Devemos observar, que as criticas para com os mitos ocorriam entre a elite pensante, estando a grande massa, ligada a eles por conta de todo um sentido religioso. E foi com este sentido, que a mitologia grega seguiu firme, sendo absorvida pelos romanos, se misturando posteriormente ao gnosticismo e hermetismo, magia e bruxaria.

Embora no império de Teodosio (346-395 d.c.), templos pagãos tenham sido destruídos, o produto religioso desta seqüência sincrética manteve-se vivo, sendo absorvido posteriormente pelo cristianismo e retomado em estudos pelos iluministas durante a idade média.

A partir do século XX, após a revolucionaria concepção do inconsciente por Freud e desdobrado posteriormente, em inconsciente pessoal e coletivo pela teoria de Jung, o estudo dos mitos é retomado com força.

São os mitos hoje estudados por seu caráter arquetípico, algo intrínseco ao homem, residindo nas profundezas do seu inconsciente coletivo. Lá, onde reside toda uma herança psíquica que trazemos ao nascer, juntamente com nossa herança biológica e que vem por vezes a tona, na forma de sonhos e atitudes por vezes incompreensíveis para nós. Qual de nós nunca teve seu momento de rigidez moral tal qual Zeus, ou de beleza e sensualidade assim como Afrodite ou de justiça e equilíbrio como Atena ou mesmo de arroubos incontidos como Ares. São os mitos, são os arquétipos,  verdadeiros espelhos das diversas facetas do espírito humano.

Por isto a Mitologia atrai ao homem moderno, por que embora diante de toda a fantástica obra tecnológica humana, a linguagem mágica, lúdica, mítica de nosso espírito, permanece nos ligando ao passado através de nosso inconsciente coletivo.

Por isto ainda o fascínio pelos antigos e eternos mitos.

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