EXPOC 2006

Ano Internacional dos Desertos e da Desertificação

 

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Meio ambiente: conscientização e ação

Roberto Kusmini

       

A Assembléia Geral das Nações Unidas, a Unesco, na sua 58ª sessão, estabeleceu para 2006 o Ano Internacional dos Desertos e Desertificações. O objetivo é conscientizar e combater o processo de degradação da Terra, que poderá atingir a humanidade de forma drástica nos próximos anos se a postura do homem perante a natureza não mudar. Deve-se compreender o problema e propagar a mensagem dessa grande ameaça, a qual já atinge um bilhão de pessoas em mais de cem países.

O deserto é uma paisagem natural irreversível produzido por fenômenos, a princípio, alheios ao homem, enquanto a desertificação foi conceituada em dois níveis durante a Conferência do Rio (ECO 92): um processo de degradação provocado por variações climáticas (o que não excetua a participação humana) ou como conseqüência direta da ação do homem. O estudo do deserto é a oportunidade para compreender as circunstâncias naturais que constituíram essa paisagem e, especialmente, conhecer a riqueza da cultura humana efetivada junto a esse ambiente hostil. A desertificação, por sua vez, ganha maior interesse para o conhecimento histórico porque conta justamente com a ação humana para sua formação. É indiscutível que o projeto de conscientização promovido pela Unesco concentra-se nesse tema. A mesma Conferência de 1992 definiu os fatores que provocam o processo de desertificação: a) Degradação das populações animais e vegetais (perda da biodiversidade) de vastas áreas do semi-árido devido à caça e extração de madeira; b) Degradação do solo, que pode ocorrer por efeito físico (erosão hídrica ou eólica e compactação causada pelo uso da mecanização pesada) ou por efeito químico (salinização ou sodificação); c) Degradação das condições hidrológicas de superfície devido à perda da cobertura vegetal; d) Degradação das condições geohidrológicas (águas subterrâneas) devido a modificações nas condições de recarga; e) Degradação da infra-estrutura econômica e da qualidade de vida dos assentamentos humanos.

Os projetos de estudo devem expor o problema com vários exemplos e situações ao redor do mundo e, especialmente, do Brasil. Porém, as Ciências Humanas têm a missão fundamental de esclarecer os discentes e convidá-los a repensar não apenas o tema, mas o tipo de sociedade em que vivemos a qual gerou e gera efeitos irreversíveis à natureza, entre eles a desertificação. Expor as conseqüências é uma estratégia importante, porém não suficiente para efetivar a conscientização desejada. O maior problema da desertificação a ser enfrentado tem sua origem na ação do homem, não nas conseqüências. O programa da Unesco objetiva evitar novos processos de desertificação pelo mundo, portanto todo esforço deve-se concentrar para entender o caráter dessa ação humana.

Os projetos de estudo devem ser agressivos no modo de propor e expor essa conscientização, para que não apresente situações estáticas, distantes e impessoais. É preciso transpor o deserto para a cidade. Fazer compreender que os modos de produção, consumo e cultura do homem moderno capitalista guardam uma relação estreita com a natureza, seus recursos e paisagens, formando uma relação sistêmica complexa, coesa e dependente, na qual as partes refletem no todo. Não cabe ter a consciência de um “homem urbano”, distante e segura. Deve-se inverter a lógica e concluir que o problema está diretamente ligado à opção por um modo de vida baseado no consumo ilimitado e na cultura do desperdício, que melhor está exemplificado nas grandes cidades, as quais provocam indiretamente os processos de desertificação.

É ilusão acreditar que com o atual sistema sócio-econômico há espaço para um desenvolvimento proporcional entre os países. O consumo de uma pequena parcela da sociedade é suficiente para o lucro e reprodução do capital, e, por outro lado, supor um consumo igualitário teríamos a falta de recursos naturais para abastecer o sistema produtivo e atender toda população mundial. É fisicamente impossível o planeta oferecer o mesmo padrão de consumo dos europeus ou dos norte-americanos. Nesse sentido, a questão ambiental é antes de tudo uma discussão política e essa perspectiva deve aparecer nas temáticas de trabalho e nos debates com os alunos ao longo do ano. Uma pergunta relevante para não perder o problema de vista é: em que mundo queremos viver no futuro próximo?

Além disso, consome-se a Terra em proveito de uma minoria, portanto um modelo de desenvolvimento excludente e antecipadamente fracassado quando não há possibilidade de efetivar novos consumidores pelo mundo. Há uma pequena parcela da população que mais consome é responsável pela produção de poluição e escassez de recursos naturais, enquanto a maioria amarga e sofre os efeitos colaterais dos impactos ambientais. Os impactos então não são sentidos da mesma forma por todas as classes sociais. Os pobres sofrem com o consumo alheio. A lógica é a mesma entre países desenvolvidos e subdesenvolvidos. Uma observação trágica (ou irônica) disso tudo é saber que a natureza é um “bem comum”, no entanto é apropriada privadamente com intensidade diferente segundo as classes sociais.

Reeducar o olhar para “desnaturalizar” nossa compreensão de sociedade capitalista e pontuar o gasto de recursos naturais que sustentam essa sociedade de consumo irrestrito e descomunal significa oferecer ao aluno o exercício da cidadania, da conscientização, provocar a reflexão, buscar alternativas aos problemas e, ademais, constituir uma nova sociedade, humana, sustentável e ecológica. Estudar a cultura do homem nos desertos não significa uma preparação para o “apocalipse futuro”, mas estudar os diferentes modos de vida sustentáveis que não aqueles estabelecidos pela sociedade padronizada de consumo.

As temáticas do projeto de estudo devem partir de problemáticas em torno do eixo principal envolvendo a relação sociedade-homem-meio ambiente, com o objetivo de informar, alertar, denunciar e colocar o homem moderno diante de si mesmo, provocando-o a repensar e reeducar seus valores e seus projetos de sociedade, como ponto fatídico para iniciar a solução dos problemas ambientais do nosso planeta. Esse caminho teórico-metodológico seria a estratégia cidadã para uma verdadeira conscientização. Concluir que são as ações políticas tomadas no presente que determinam o futuro do planeta e que somos todos co-responsáveis em todas as decisões envolvendo a sociedade de consumo e o meio ambiente. O estudo das desertificações demonstrará que a Terra só é viável mediante alternativas de vida em sociedade e esta com a natureza.

 

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