Resistência ao escravismo

Prof Alexandre Lobo

Para o dono de escravo do Brasil colonial, o escravo é mais um bem, uma coisa, uma ferramenta do que um ser humano.

Muitos escravos, com o tempo, passaram a acreditar na superioridade de seus senhores ou na escravidão. Houve até mesmo escravos que, quando conseguiam liberdade, juntavam algum dinheiro e compravam escravos.

Houve também muitos escravos que não aceitaram a condição de escravidão. As formas de resistências eram muitas, iam desde uma lentidão no trabalho até a fuga e organização dos fugitivos nos chamados quilombos.

Na casa dos senhores de engenho, muitas mulheres escravizadas colocavam caquinho de vidro na comida dos senhores. Outras, quando grávidas, preferiam abortar do que dar mais um escravo ao senhor. Havia também muito caso de suicídio entre os escravos, pois, um escravo morto era um prejuízo ao senhor. Era freqüente também a sabotagem. Escravos que trabalhavam no processo de fabricação de açúcar, habilidade que requeria conhecimentos específicos como temperatura necessária na caldeira, poderiam deixar perder toda a produção ao usar sumo de limão para evitar a cristalização do açúcar.

Quando fugiam e conseguiam organizarem-se, os escravos formavam aldeias chamadas quilombolas. Um conjunto de quilombola formava um quilombo. Em alguns quilombos conviviam brancos miseráveis (pobres), mestiços, índios e negros sem preconceito racial. Todos trabalhavam nos quilombos e o que era produzido era dividido igualmente, não importando quem trabalhou mais.

Para obter mão de obra e guerreiros, os habitantes dos quilombos organizavam expedições para capturar escravos dos senhores de engenho. A preferência era por mulheres, porque havia grande falta, e crianças porque aprenderia desde cedo a defender os quilombos. Os escravos capturados mantinham-se como escravos dos quilombos até ganharem confiança dos chefes. Alguns quilombos cresceram tanto que chegaram a ter relações comerciais com mercadores e mesmo senhores de engenho.

Palmares é o quilombo mais conhecido nos dias de hoje. Foi, talvez, o maior de todos. Existiu em Alagoas durante um século, até sua destruição, em 1694, pelo bandeirante Domingos Jorge Velho. Palmares cresceu tanto que chegou a ter diversas cidades. Seus principais lideres foram Ganga Zumba, morto envenenado porque queria negociar paz com o governo brasileiro, e Zumbi, que resistiu a várias tentativas de destruição do quilombo. A destruição de Palmares, para os senhores, era necessária porque poderia influenciar os escravos a fugirem ou mesmo porque os quilombolas roubavam escravos causando prejuízos.

O escravismo ganha nova face com a lei de 1850, forjada sob pressão da Inglaterra, que proibia o tráfico de escravos. Já não era mais possível comprar escravos da África, surgindo então o tráfico interno. Donos de escravos empobrecidos do nordeste vendiam seus escravos para as prósperas economias cafeicultoras do sudeste. O escravo tornou-se um bem caro, já não era mais possível usá-lo além dos limites. Antes isolado, sem família e passado, ele era mais facilmente coagido ao trabalho e submisso ao senhor. Depois de l850, era necessário preservá-lo e mesmo permitir que constituísse família. Além disso, o escravo vendido de um senhor para o outro passou a ter um referencial de o que poderia ser um trabalho ou um senhor melhor ou mais justo que outro. Assim, as fugas em massa aumentaram, bem como as exigências dos escravos. O número de negros com família e falando a mesma língua ultrapassava o dos brancos, causando um certo temor nos senhores. A tensão aumentou anunciando a abolição.

Outra forma de resistência foi a permanência de traços culturais africanos. A capoeira, umbanda, alguns pratos, o samba, são exemplos da resistência dos escravos que não aceitaram a dominação dos brancos. A questão da resistência cultural tem a ver com a identidade, pois em um mundo em que o trabalho manual e mesmo o próprio negro eram visto como inferior, manter traços culturais que retomavam o passado africano significa resistir a uma sociedade racista e não aceitar os valores que são impostos como forma de levar o próprio negro a acreditar em sua inferioridade, ou seja, resistir culturalmente era e é uma forma de não aceitar ser inferiorizado.

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