JORNAL EXPRESSÂO UNIVERSITÀRIA JANEIRO/FEVEREIRO DE 1998


CINEMA

Terra Estrangeira

Vanderlei Nunes Genro*

Terra Estrangeira é o melhor filme do hoje balizado 'renascimento' do cinema nacional. Contando com a participação de atores renomados - Luís Melo, Fernanda Torres - este trabalho tem como assunto uma aventura em torno do tráfico internacional*

Próximo ao Minhocão, tem início uma trama cujo foco centralízar-se-à no anseio ao conhecimento da Europa. Neste retorno às origens, o país colonizado revela ao outrora dominador o legado de sua in­competência.

Após a morte de sua avó, um jovem aspirante à carreira de ator encontra-se choroso ao balcão de um bar. Conhece um falante sujeito que o presenteia com uma viagem à Europa. O rapaz é enviado à custa de um favor. Carregando um violino, hospeda-se num hotel simples, onde encontra-se com outro produto da colonização portuguesa. Um rapaz de origem angolesa alerta-lhe sobre as trapalhadas dos brasileiros na Europa. Segundo ele, o brasileiro é sinónimo de confusão. O que vem a se verificar com a personagem principal, que perdera o controle sobre o violino que trazia.

Quando procurado, o enviado brasileiro deve prestar contas do instrumento. Não o faz, e junto a dois franceses e ao seu conhecido que lhe custeara sua viagem, em meio ao desespero, recita surrealisticamente o trecho de uma peça teatral. Este trecho fazia parte da seleção que prestara baldadamente, mesmo após muito ter treinado previamente à morte da avó, a qual antes de morrer é informada pela ministra Zélia Cardoso de Mello que sua poupança havia sido confiscada. O sonho de conhecer a Espanha é frustado. A senhora não suportara o choque e falecera em frente da televisão.

Aquele sonho é realizado pelo neto, o violino repleto de pedras preciosas, o rapaz adentra nas consequências do mundo do tráfico. Bem como outros brasileiros que neste universo perderam a vida, o rapaz reage juntamente com a viúva que conhecera - a qual é interpretada por Fernanda Torres. Esta o acompanha até o fim da trama ajudando-o a enganar os traficantes.

Com um final digno dos melhores filmes de aventura, Terra Estrangeira insere-se no âmbito dos grandes filmes mundiais. Atuando em meio a dois géneros difíceis - aventura e trama -escapa da banalízaçâo, um pouco comum a estes géneros. Após atingirem seus perseguidores numa cidade da fronteira lusitana-um deles com um tiro, e o outro com uma garrafada acompanhada de uma garfada no pescoço - o casal rouba o automóvel de seus perseguidores e irrompe a fronteira da tão almejada Espanha. O rapaz emite seus últimos gemidos jumo à companheira, a qual canta Vapor Barato. O idealismo sem fronteira e descompromentido desta canção nos remete a um excelente filme de anos progressos: Terra em Transe. Terra Estrangeira equivale àquela produção, a qual nos anos 60 alçara nossos cinema à categoria dos filmes de qualidade. Explorando em menor escala que Terra em Transe os monólogos das personagens, aborda a nossa eterna questão: o desterro do colonizado de um país subdesenvolvido. Com um pé bem-firmado nas origens nebulosas e pregressas o brasileiro médio imagina-se na iminência de retomar à sua origem. A Europa, nesse caso, exerce sobre nós o fascínio do mundo desenvolvido e do ventre gerador - por mais estranho e contraditório que isso possa ser. O regresso a esta suposta mãe, no entanto, pode ser acompanhado da sensação de deslocamento. Ou de desgraça. No caso do filme, ambas possibilidades se concretizam.


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