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Texto originalmente publicado em

Expressão Universitária – ANO II – Nº 14 Julho/Agosto de 1998. p9

CINEMA


Tempos de viver (Zang Yimou)


Vanderlei Nunes Genro*


Tempos de viver é um filme que trata da dura trajetória de uma família chinesa num momento político de acentuada importância. Abarcando o período que vai da década de 1930 aos anos 70, temos como pano de fundo a implantação do Comunismo na china Quando tal ocorre, uma das tragédias da família na qual centra-se o enredo e adquire certa positividade. A mansão perdida em uma mesa de jogo pelo pai irresponsável fora queimada pelo posterior dono, o qual não quisera contribuir com a Revolução. Nesse momento, o que poderia chamar-se de pano de fundo passa a primeiro plano. O diretor procura mostrar a mudança que o comunismo chinês provocou na vida dos indivíduos, no momento em que as causas coletivas prevaleciam sobre as individuais ou familiares. Todos devem contribuir para atingir um objetivo: uma sociedade mais justa e igualitária, dentro da visão do ideário comunista.

Nesse âmbito em que todos contribuem para um mesmo fim – a menos que queira ser excluído -, os lideres passam a receber uma grande reverência da população. Exemplo máximo que ocorre nesse sentido são as homenagens prestadas a Mão durante a comemoração do casamento da filha muda do casal que havia perdido a mansão. Este casal - que possui como um dos protagonistas a já consagrada Gong Li - muito sofreu Durante esse período. Menos devido a problemas gerados pelo comunismo que por questões particulares. No momento em que a esposa do protagonista estava grávida de seu segundo filho - o qual morreria executando uma fundição de ferro, no grande esforço da China comunista - seu marido perde todos bens numa mesa de jogo. Três gerações são ejetadas para as ruas; a mãe do

jogador; ele e sua mulher; e, por último, sua filha. Seu pai, um ex-jogador inveterado que perderia parte de sua fortuna em mesas de jogo, morre ao entregar sua linda e cobiçada mansão.

Tem inicio as dificuldades matérias da família. O ex-jogador e despojado de seus bens momentos após ter sido abandonado pela sua esposa indignada com a vida que levava seu marido Ele parte, indo parar num campo de batalha onde entreteve soldados Vermelhos com a Trupe, vindo a reconquistar sua mansão de seu atual proprietário.

Retoma à mansão, vindo a conhecer seu filho - cujo nome dado pela mãe é Não- jogue. Junta-se à família, que contribui com a causa comunista distribuindo água para os soldados.

Neste novo cenário, o "clima" é de eminência política: perseguições, trabalhos comunitários, enfim, elementos diretamente vinculados à construção de uma nova sociedade.

Nesta também se registra o maravilhamento de chineses com as conquistas materiais do ocidente – como carros. Esta nova ambição também constatamos na encenação da Trupe, que de temas existenciais passa a tratar de questões sociais: num contexto em que o pensar coletivo suprime os anseios individuais não existe mais espaço para um jogador viciado sem forças de largaro vicio que o arruina.

Nesse filme em que prepondera a perspectiva que o autor possui do comunismo na China, marcado pelo entrecruzamento dos universos coletivo e familiar, temos registrado uma curiosidade para a visão ocidental: constata-se a autonomia feminina, no momento em que a protagonista escolhe por livre iniciativa seu futuro marido.

Vanderlei genro é

Mestre em História, UFRGS.



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