Em meio à “alegria” que tem marcado a produção musical brasileira dos últimos anos, verificamos alguns grupos populares que optam por outra alternativa de manifestação. O Rappa, Planet Hemp, Racionais Mc’s e Pavilhão 9 são alguns exemplos de bandas que abrem mão daquele estilo faceiro que muito vende, em nome de uma análise acurada da nossa problemática
realidade. Temas como drogas, estigmatização racial, violência e desconsideração dos direitos humanos comparecem em suas letras de maneira incisiva e crítica. Esses grupos adotam a visão das dicotomias do Brasil sob a perspectiva da luta de classes. As mazelas da contraditória realidade brasileira não comparecem como mera fatalidade, antes são concebidas como resultado de uma lógica de exploração perversa, na qual a busca do lucro desmesurado implica na maximização da extração da mais-valia alheia: “seu status depende do fracasso de alguém” - afirmam os Racionais. Obedecendo a esta lógica perversa, exploradores e explorados convivem num conflito subterrâneo que é olvidado por falsos analistas que teimam em desconsiderar problemas objetivos de uma realidade cruel que continua a agravar dificuldades sociais históricas.
Esses problemas são considerados em letras daqueles músicos, os quais estão em busca de uma “fórmula de paz” (Racionais MCs). Oriundos de bairros populares, conhecem de perto nossos problemas; se auto-denominam “testemunhas oculares” e “sobreviventes” que contrariam estatísticas, pois estão próximos dos trinta anos e ainda não foram eliminados pelos continuados atos violentos registrados em nossas periferias - onde a exclusão é a rotina. Em suas análises, não detêm-se tão-somente nos aspectos psicológicos que motivam a violência e a adesão ao narcotráfico. Priorizam sim o aspecto social, que é o mais facilmente racionalizável. Questionam a maneira como pessoas sem perspectiva - neste mar de desemprego que se transformou a sociedade brasileira - engrossam os exércitos da delinqüência. Sabemos que muitos jovens, estimulados pela estetização da violência, são quase que compelidos a participarem de um universo de marginalidade que é vendido como mera aventura prazerosa. Em contato com a dura realidade de exclusão, adentram o mundo do tráfico de drogas na busca da cada vez mais difícil sobrevivência, pois seus pais faz muito não têm como proverem as dispensas de suas casas. Esses jovens o fazem devido a dificuldades concretas e ao estímulo indireto de meios de comunicação, que mais se preocupam em aumento de audiência do que em prestar informações básicas aos cidadãos - o que traz à tona o questionamento sobre critérios de concessão de canais de televisão, denominadas ingenuamente como “prestadoras de serviços”. Para quem?
A elogiadíssima canção “Diário de um detento” nos remete a uma situação concretizada recentemente em uma grande penitenciária de São Paulo. Registra a promiscuidade e a degradante e humilhante condição a qual são condenados os presos do país, sejam eles experientes do ramo ou simples iniciantes. O sistema prisional brasileiro, é bem sabido, está muito longe de pretender recuperar seus reclusos. Caso dramático foi o do famoso Luz vermelha, assassino que passou trinta anos preso e saiu para as ruas sem condições de integração social, sendo morto em poucos meses.
Junto a traficantes e homicidas, qualquer réu primário torna-se especialista da perversão, até porque não lhes é oferecida a oportunidade de aprenderem uma profissão qualquer ou respeitar o ser humano. Pelo contrário, os detentos de nosso país aprendem a multiplicar a raiva por uma sociedade que lhes descarta. Nem por isso os Racionais vêem com resignação estas questões; pelo contrário, assumem a função de alertar pessoas de seu nível sócio-econômico, as quais são seduzidas diuturnamente pela “vida fácil” da marginalidade. Nesse sentido, O Rappa apresenta na canção “Tumulto” o registro da voz de uma criança que empunhando uma arma ameaça acioná-la contra uma pessoa. Fato este que muito tem ocorrido em nosso país, porque muitas “bocas” de drogas são controladas por criaturas armadas que sequer adentraram a adolescência. Com essa “profissão”, sustentam uma casa com vários irmãos, pai e mãe desempregados - todos cúmplices indiretos de uma rotinizada tragédia social que cada vez mais pune os habitantes das favelas, os quais encontram-se economicamente vulneráveis para não aceitarem as propostas dos magnatas do tráfico que, obviamente, não residem nas periferias.
Na medida em que denunciam criticamente a vida marginal de nosso país, calcados em informações objetivas e vivência cotidiana, estas bandas desmitificam análises superficiais, que teimam em apresentar a criminalidade como problema de má-conduta moral. Estas bandas procuram relacionar aquele problema a questões do tipo: indústria cultural massificada, desemprego, falta de perspectivas, acentuada exploração da mão de obra, ausência de oportunidades, discriminação racial e falta de esclarecimento. Penso que esta perspectiva melhor contempla esta problemática, que deve ser uma preocupação de todos, na medida que nos afeta de maneira direta ou enviesada. Desconsiderar tais problemas somente contribui para agravar a situação de desumanidade vivida pela maior parte dos brasileiros.
*Licenciado, Bacharel e Mestre em História. Professor das escolas Justino Camboim.