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Texto originalmente publicado no Jornal | SÉCULO - 21- 25 DE MARÇO DE 1994 p 12
Kafka. o Homem Acorrentado
Alexandre Lobo e Pedro Pereira
Franz Kafka, filho de Hermann e Júlia Kafka, nasceu em Praga, a 03 de julho de 1883. O nome Kafka é de origem tcheca.que significa gralha (pássaro). Um dos autores mais reconhecidos pela literatura internacional, e que entre seus escritos estão: A metamorfose, O Castelo, A Colônia penal, O processo, Carta a Meu Pai, que foram salvos ou do fogo ou da Guestapo na 2º Guerra Mundial.
Kafka não escrevia para vender livros, mas para a necessidade de fazê-los, de expor seu mundo interior, sua obra é reflexo de sua vida, marcada por experiências traumáticas de infância, sua relação com o pai autoritário é o centro de sua temática. O clima é de pesadelo em histórias que se desenvolvem de forma surrealista, onde o personagem principal, completamente impotente para executar a sua vontade, é identificado como autor: K. em O Castelo, José K em O Processo por exemplo. Como ele demonstra em Carta ao Meu Pai, onde esta é dedicada a educação praticada por seus progenitores. Ao pai:“ Ora, no fundo, és uma pessoa bondosa, meiga, (o que se segue não é uma contradição, apenas falo do aspecto que apareceste a criança) mas nem todas as crianças tem a perseverança e coragem de conseguir o tempo necessário para chegara bondade. Só podes tratar uma criança conforme sua natureza, com força, barulho, e cólera, neste caso, isso pareceste ainda mais acertado, pois queria fazer de mim um rapaz forte e valente”. Seu pai, figura autoritária, esmagava sua personalidade, representava o tirano, o deus que se impõem para julgar e punir, que é respeitado por temor e não por amor, contrastava com a mãe, figura doce que vinha sempre salvar o menino Kafka, influenciando sua sensibilidade, mas que também se submetia absurdamente ao mando do tirano. A disputa com o onipotente pai, vai marcar sua vida adulta como a desistência de seus noivados, a desordem da vida afetiva, inserindo um sentimento de derrota e impotência. Ao contrário de Édipo, é o filho que é morto pelo pai, para que não cresça em suas potencialidades e ganhe a adesão completa da mãe. O personagem principal é sempre condenado sem que possa defender-se ou argumentar contra quem o condena. Em outra passagem, Kafka nos demonstra que toda sua energia estava a serviço da literatura pouco poderá fazer para ser mais sociável com qualquer pessoa, inclusive com os entes que mais amava, que era seus familiares, pois ele não tinha tempo para criar ou manter as máscaras como a maioria das pessoas fazem normalmente, para se relacionar de um modo falso, fugindo assim da solidão. Nele, seus momentos de maior solidão são os mais produtivos e onde sente mais acompanhados, pois surgem das profundezas de sua alma, de seus psicologismos, seres deformados que querem sair dentro de si, e só saem dilacerando sua carne ou sua alma, para chegar a sua literatura, sua vida propriamente dita, seu objetivo único de viver e sua queda.
“ sou um sujeito introspectivo, taciturno, insociável, descontente, sem poder designar com isso uma desventura, pois não é senão reflexo do seu objetivo. Do modo como eu vivo em casa poderão tirar-se conclusões. Pois bem, em meio a minha família, entre os melhores e mais carinhosos seres, vivo mais alheio que um estranho, no decorrer destes últimos anos, não troquei mais que vinte palavras por dia com minha mãe não troquei senão cumprimentos com meu pai. Com respeito a minhas irmãs casadas e aos meus cunhados jamais lhes dirijo a palavra, embora não esteja zangado com eles. A razão é simples, nunca lhes tenho nada a dizer. Tudo quanto não seja literatura, enjoa-me, torna-se detestável para mim porque me importuna e entrava mesmo que seja hipoteticamente. ”
Kafka foi um sujeito sempre atormentado, pois sempre desejou participar da comunidade, se sentir aceito pelos seus semelhantes, isto é demonstrado nas suas tentativas de casamentos fracassados, na sua entrada para o movimento anarquista, nas associações judaicas que entrou na fase de estudantes, mas jamais conseguiu se entregar totalmente, pois seu objetivo, que é a literatura
lhe exige solidão que deve ser tão profunda como a de um anacoreta (ermitão), foi nessa linha que Kafka viveu toda a sua vida em busca de síntese de sua autonomia jamais conseguida, Isso leva Kafka a sentir sempre uma fatal derrota e a encarar a vida como que um jogo, onde se está condenado a jogar, mesmo não sabendo como são as regras, o desenrolar de lances mostra como não se pode alterar o rumo, mas não se desiste alimentado por pequenas vitórias que dão impressão de uma vitória final. Triste ilusão, o sujeito, em estado de desespero, está condenado a morrer ou a viver privado de seus desejos, pois o veredito final é um dado “a priori”