Validade e verdade
O
termo «validade» tem em filosofia e lógica um significado especializado,
diferente do seu significado popular. No dia-a-dia usa-se o termo «validade»
para dizer que algo tem valor, que é interessante, que deve ser tido em
consideração; assim, é comum dizer que uma dada afirmação é válida. Contudo, do
mesmo modo que «massa» em física não quer dizer esparguete e que «altura» em
música não quer dizer volume - porque são termos especializados - , também em
filosofia e lógica «validade» não quer dizer que algo tem valor. A validade é
uma propriedade exclusiva dos argumentos; não se aplica, neste sentido
especializado, a afirmações. Por outro lado, a verdade é uma propriedade
exclusiva das afirmações que compõem os argumentos. Não se pode, pois, dizer
que um argumento é verdadeiro nem que uma afirmação é válida. (...)
Em
primeiro lugar, não basta que um argumento tenha premissas e conclusão
verdadeiras para ser válido. Vejamos o seguinte argumento:
2)
Sócrates era um filósofo.
Logo, Kant era alemão.
É intuitivamente óbvio que este argumento
é inválido, apesar de a premissa e a conclusão serem verdadeiras.
Intuitivamente, compreende-se porquê: porque não há qualquer ligação entre a
premissa e a conclusão; isto é, porque o facto de a premissa ser verdadeira não
tem qualquer relação com o facto da conclusão ser verdadeira. (...) É por isso
que o argumento acima é inválido: porque a premissa não está relacionada com a
conclusão.
Outra propriedade dos argumentos válidos
que gera confusões é a seguinte: Um argumento válido pode ter premissas e
conclusão falsas. Vejamos um exemplo:
3) Sócrates e Aristóteles eram egípcios.
Logo, Sócrates era egípcio.
Tanto a premissa como a conclusão são, de
facto, falsas; mas o argumento é válido. É válido porque apesar de a premissa e
a conclusão serem de facto falsas, é impossível que a premissa seja verdadeira
e a conclusão falsa - e é isso que conta na validade dedutiva. (...)
Em suma: um argumento dedutivo pode ser
válido apesar de ter premissas e conclusão falsas; e pode ser inválido apesar
de ter premissas e conclusão verdadeiras. Isto acontece porque a validade é uma
propriedade da ligação entre as premissas e conclusões, e não uma propriedade
das próprias premissas e conclusões.
MURCHO, D. O Lugar da Lógica na Filosofia, Edições Plátano, Lisboa, 2003, pp.
14-17.
(texto adaptado)