O que é uma proposição?

 

Uma proposição é algo como isto: «Nenhum objecto pode viajar mais depressa do que a luz.» Promessas, perguntas e exclamações não são proposições: «Prometo dizer toda a verdade», «Quem foi Aristóteles?» e «Fecha a porta!» não são proposições. Uma proposição é o que uma frase declarativa com sentido nos diz. Uma frase como «O João é boa pessoa» diz-nos que o João é boa pessoa. Claro que há frases declarativas que não têm sentido: «As dores de cabeça são muito salgadas» é uma frase declarativa , mas não parece realmente afirmar coisa alguma. Em filosofia, dizemos que uma frase destas não tem sentido ou é absurda – é uma frase que não tem qualquer valor de verdade. Não se trata apenas de nós não sabermos qual é o valor de verdade que ela tem  - não se trata apenas de não sabermos se ela é verdadeira ou falsa. É mais forte do que isso. A frase não tem valor de verdade algum. É muito diferente da frase «Há água em Marte» que é uma frase verdadeira ou falsa, apesar de ninguém saber se é verdadeira ou falsa.

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            Do ponto de vista do uso especializado ou técnico que em filosofia se faz do termo «sentido» ou «absurdo», uma proposição só não tem sentido (isto é, só é absurda) quando não é susceptível de ter valor de verdade. Assim, a proposição expressa pela frase «Marco Aurélio foi um filósofo e não foi um filósofo» não é uma proposição absurda: é uma proposição com sentido. É uma proposição com sentido visto que é falsa – na verdade, é necessariamente falsa. Dado que é falsa tem um valor de verdade, tem sentido. O mesmo acontece com a proposição expressa pela frase «A água do mar é óptima para matar a sede».

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            As frases que nos interessam são as que exprimem proposições, que são susceptíveis de serem verdadeiras ou falsas, ainda que não saibamos se são verdadeiras ou falsas – muitas vezes o objectivo é mesmo descobrir se são verdadeiras ou falsas. Por exemplo, não se sabe se Deus existe ou não – esta é uma questão filosófica tradicional. Mas só faz sentido discutir esta questão se acharmos que a frase «Deus existe» exprime realmente uma proposição; se não exprime uma proposição, nada há para discutir, porque a frase não pode ser verdadeira nem falsa.

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            Mas não será que as frases exprimem muitas outras coisas , além do que exprimem literalmente? Claro que sim. A frase «Deus existe» pose exprimir um anseio ou esperança, ou pelo contrário uma posição irónica pelo mal que grassa no mundo. As frases podem exprimir muitas coisas. [...]

O facto de nós precisarmos de saber o que exprimem literalmente as frases da filosofia obriga-nos a evitar tanto quanto possível as ambiguidades e as vaguezas. Uma frase é ambígua quando exprime literalmente mais de uma proposição. Se eu disser «A filosofai consiste na sua história» posso querer afirmar duas coisas completamente diferentes. Ou que o trabalho filosófico consiste apenas em fazer a história do que se fez; ou que o trabalho filosófico que se faz fica inscrito na história. Para discutirmos ideias – em filosofia, como em tudo o resto – é muito importante a precisão na linguagem: temos de evitar, tanto quanto possível, as ambiguidades.

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Além da ambiguidade, também temos de evitar a vagueza. Uma frase é vaga quando não se sabe que proposição está a exprimir. [...] Se queremos pensar, reflectir e ser críticos, temos de saber sobre o que estamos exactamente a pensar. [...]

Em filosofia há uma exigência de clareza. A ambiguidade e a vagueza são incompatíveis com a clareza. Logo, devemos evitar a ambiguidade e a vagueza. Em filosofia há também uma exigência de honestidade. Mas a ambição e a vagueza não são compatíveis com a honestidade. Se eu nunca me comprometer realmente com qualquer proposição porque o que digo é sempre vago e ambíguo, a minha posição será sempre irrefutável. Mas a honestidade exige que apresentemos as nossas ideias de forma a que as outras pessoas as possam avaliar criticamente. Logo, devemos ser claros.

Já compreendemos melhor o que quer dizer proposição. Uma proposição é o pensamento literalmente expresso por uma frase declarativa que tenha sentido ou valor de verdade (independentemente de nós sabermos se a frase é verdadeira ou falsa).

 

 

Desidério MURCHO, A natureza da filosofia e o seu ensino, Lisboa, Plátano Ed., 2002, 1ª ed., pp. 52 –55.

 

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