Mas,
afinal o que é a lógica?
“Há dias um adolescente perguntou-me, na inocente simplicidade de quem nunca estudou filosofia:
-
Mas,
afinal, o que é a lógica?
Um tanto embaraçada, e sem
querer trair o ânimo de quem pergunta, lá respondi como pude (...):
- Olha!, todos nós pensamos. Mas nem sempre aquilo que pensamos é claro. E, por vezes, embora possamos pensar de uma maneira clara e que todos entendem, aquilo que pensámos pode não ser verdade, ou pode não corresponder a nada que seja real, e ser apenas um produto da nossa imaginação ou do nosso pensamento. Então, podemos fazer uma experiência: tentar, por momentos, interromper esses pensamentos e pormo-nos a pensar acerca da nossa própria maneira de pensar.
E podemos tentar saber em que consiste esse pensar. E se será, ou não, possível encontrarmos algumas regras que nos ajudem a pensar melhor. E ainda se haverá um pensar «perfeito», ou sempre verdadeiro. Ou até se será possível descobrirmos novas coisas, ou outras dimensões da realidade por meio disso a que chamamos pensamento.
Ora a lógica é precisamente a ciência do pensamento, ou,
se quiseres, também podemos considerá-la como uma arte que te permite criar
figuras, histórias e situações, usando para tal a «paleta» das ideias e, como
«pincéis», as palavras ou os símbolos matemáticos, que são uma espécie de
pincéis muito finos que nos permitem desenhar traços mais rigorosos.
Mas, como sabes, tanto nas ciências como em artes, e
também na lógica, para sermos capazes de usar bem o pensamento torna-se necessário
treiná-lo, exercitá-lo num programa de actividades. Primeiro, fazendo
exercícios muito simples e fáceis de realizar. Depois, tentando resolver
exercícios cada vez mais difíceis. E pode até acontecer que sejam tão difíceis
que se transformem numa barreira quase intransponível, a que alguns lógicos
chamaram paradoxos ou aporias.
- E como é que
podem resolver esses problemas?
- Bom. Por
vezes, os problemas não têm solução, ou porque estão mal colocados, ou nem
sequer são problemas, por exemplo, derivam da confusões ou derivam do facto de
não termos compreendido bem o significado de determinadas palavras. Mas outras
vezes são mesmo problemas complexos e muito difíceis de resolver, como acontece
com certas questões científicas da física e da matemática. (...)
- Mas é mesmo
possível aprender-se a pensar?
- Claro que te
poderá parecer absurdo alguém dizer que te vai ensinar a pensar quando tu
próprio, ao colocares estas questões, já estás a fazê-lo naturalmente,
espontaneamente. Logo, não é a esse nível que o problema se coloca. Entendes?
Não é a esse tipo de pensamento que nos referimos quando perguntamos se é
possível ensinar alguém a pensar. Há um pensamento que cresce e se desenvolve
com a criança à medida que ela vai exercitando a sua linguagem e vai aprendendo
novas palavras, ou novos significados para as palavras que já conhecia. (...)
Por isso, os psicólogos também se interessam por essa questão do aprender a
pensar. Piaget foi um deles. Mas interessam-se mais pelo crescimento e pelo
desenvolvimento dessas capacidades lógicas e pelas etapas do desenvolvimento
próprio de cada idade. Pelo contrário, os filósofos que se dedicam à lógica não
olham muito para o passado, ou para a história de uma pessoa, ou de outra – de
como cresceu, como se desenvolveu. Partem do princípio de que há um certo tipo
de pensamento que existe agora, que é um facto, um dado, independentemente de
quem pensou isso, do momento ou das circunstâncias em que isso foi pensado. O
que importa é o pensamento em si, as ideias e as relações entre essas ideias,
que estão contidas nesse pensamento a que eles chamam proposição.”
Isabel Medina SILVA,
«uma “parábola” e/ou sugestão para uma
aula de lógica, em Aprender/ensinar
filosofia, Colóquio na Universidade Católica, Lisboa, Set. de 1992.