Hidrofuturo
por Wagner Bacciotti Campodonio
Colchões
de mola, carcaças de televisão, sofás, pneus e garrafas plásticas passam
boiando pelo Rio Iguaçu, em frente da Estação de Tratamento de Água Industrial
de Araucária, no Paraná. O rio nasce em Piraquara, nas cabeceiras da Serra do
Mar, e corre para oeste, cruzando todo o sul do estado até desaguar em Foz do
Iguaçu. Ao atravessar Curitiba, o Iguaçu recebe o lixo industrial e o esgoto da
metrópole de 1,5 milhão de habitantes. Trinta quilômetros mais adiante, quando
passa em Araucária, sua cor é cinza-escuro, a água emite cheiro de gás
sulfídrico (similar ao de ovo podre), borras vermelhas se acumulam nas margens
(dejetos de ferro, mercúrio e manganês) e não há sinal de peixes. Em Araucária,
o Rio Iguaçu está morto.
É exatamente nesse ponto que a Companhia de
Saneamento do Paraná (Sanepar) inaugurou, no ano passado, a Estação de
Tratamento de Ama Industrial de Araucária, a primeira do país a fornecer ária
de reúso diretamente gás indústrias. A estação extrai a água do Iguaçu, faz a
purificação e vende toda a sua produção - 300 litros por segundo - para três
clientes: a fábrica de insumos químicos da Fosfértil Ultrafértil, a usina de
aço da CSN-Paraná e a Termelétrica Araucária, controlada por Copel, Petrobras e
El Paso. As vantagens ambientais são evidentes. As financeiras também enquanto
1000 litros de água potável custam 1,50 real para os consumidores residenciais
e 2.60 reais para as empresas, 1 000 litros de água de reuso custam de 0,49 a
0,59 real. A perspectiva de uma economia extraordinária fez com que a Fosfértil
Ultrafértil, a CSN e a Termelétrica Araucária financiassem 76% do investimento
no projeto.
"Com a demanda crescente de água e a
cobrança pelo uso, o custo vai pesar nas empresas", diz José Carlos
Wageck, gerente da fábrica da Fosfértil Ultrafértil, produtora de insumos
químicos. "Diante disso, optamos pela garantia de um fornecimento estável,
bom e barato." Para fabricar toneladas de uréia, amônia e enxofre, a
empresa consome 480 000 litros de água por hora. Mais da metade disso é
extraída da Represa Rio Verde pela Refinaria Presidente Getulio Vargas (Repar),
da Petrobras. O restante provem de água de reuso vendida pela Sanepar e é
utilizado na produção de vapor, no resfriamento das torres e na limpeza das
caldeiras. Investir na reciclagem foi uma decisão estratégica. "No futuro,
a água do Rio Verde deverá ser protegida por leis ambientais, haverá limitações
no abastecimento e taxações mais elevadas", afirma Wageck.
Várias empresas estão investindo em projetos
avançados de reuso da água, como a Volkswagen em Taubaté, no interior de São
Paulo; a Fiat; a fábrica da Souza Cruz em Cachoeirinha, no Rio Grande do Sul; e
a fábrica da Tintas Coral, em Recife. Em São Paulo, algumas estações de
tratamento de esgoto produzem água de reuso utilizada pela prefeitura de São
Caetano do Sul, no ABC, para lavar ruas e irrigar jardins. A Sabesp também
vende o produto para as construtoras OAS, UA Engenharia, Consdon e Marquise
usarem em seus canteiros de obras. Em São Paulo, o projeto mais avançado é o da
Coats Corrente, que utiliza água de reuso na produção de linhas de costura. A
empresa bicou a implantação de 800 metros de tubulação que ligam a Estação de
Tratamento de Esgotos do Ipiranga, na zona sul da cidade, à fábrica.
A partir de setembro, o Projeto de Reuso de
Áma, da Embrapa e da Universidade Federal de Campina Grande, na Paraíba,
fornecerá 40.000 litros de água reciclada por hora para a agricultura.
"Cerca de 80% da água consumida numa cidade vira esgoto", diz a
professora Vera Antunes, coordenadora do projeto. "Vamos recuperar es sa
água e oferecê-la ao produtor rural, gerando renda e qualidade de vida."
Atualmente, a agricultura absorve 7(%) da água consumida no Brasil.
Nenhuma dessas iniciativas, entretanto, se
compara ao empreendimento de Araucária, no Paraná. A Estação de Tratamento de
Água Industrial custou 8,6 milhões de reais à Sanepar. A Termelétrica Araucária
entrou com 4,7 milhões, a CSN-Paraná, com 1,8 milhão, e a Fosfértil Ultrafértil
fechou um contrato de 20 anos pagando a taxa mais alta (0,59 real por 1000
litros fornecidos). Os oito tanques de purificação foram construídos em módulos
que podem ser expandidos até triplicar a produção. Três dutos subterrâneos
transportam a água por 7 quilômetros até os usuários. "Tratamos a ária
quimicamente para atender à necessidade dos clientes e entregamos o produto a
granel, na planta", diz Agenor Zarpelon, coordenador de produção da
Sanepar.
A estação é inteiramente automatizada: em
apenas 30 minutos, 600.000 litros são coagulados, desinfeccionados, decantados
e purificados.
A nova usina de aços revestidos da CSN-Paraná
utilizará 100% de água de reuso em seus processos. "A siderurgia consome
uma enormidade de água para refrigerar fornos que chegam a 2000 graus
centígrados de temperatura", diz Márcio Lins, diretor da empresa. "A
água de reuso permite melhorar a sustentabilidade para nós e para a
humanidade." Lins acredita que a cobrança pelo uso da água, em vigor na
bacia do Rio Paraíba do Sul e no Ceará, a médio prazo será uma realidade em
muitas bacias de rios brasileiros.
No Brasil há, ao mesmo tempo, falta e excesso
de água. Nas áreas carentes, como nas cidades de São Paulo e do Recife, o
potencial do reuso é enorme. Um estudo da Sanepar estima que, apenas na região
metropolitana de Curitiba, dos 7 bilhões de litros de esgoto gerados por mês,
4,8 bilhões possam ser revendidos como água de reuso. O projeto custaria 30
milhões de reais, geraria 11,5 milhões de reais de receita anual e daria
retorno em três anos.
"Onde há deficiência de abastecimento, o reuso de água é uma alternativa óbvia", diz Caio Brandão Pinto, presidente da Sanepar. "Pense numa termelétrica que consuma 150 litros por segundo, 60% dos quais para gerar vapor e acionar uma turbina. Por que essa água precisaria ser potável?" Para Brandão, a disseminação do reuso é uma questão de tempo. Na medida em que a demanda de água aumentar e a cobrança pelo uso se expandir, a alternativa da reciclagem acabará fazendo parte do dia-a-dia das empresas.
Fonte:
Revista Exame - 9 de julho de 2003