Amar
JUVANIR BORGES DE SOUZA
Amar é o verbo que, na linguagem humana, sintetiza toda a lei divina.
Amar a Deus, o Criador, sobre todas as coisas e amar ao próximo como a nós mesmos,
eis o ensino de Jesus, colocando o amor como fonte e objetivo da vida.
Toda a criação está impregnada do amor do Criador, embora nem sempre possamos, nós
homens, perceber essa realidade que se espalha por todo o Universo.
Por isso, na Bíblia, uma das fontes da sabedoria antiga, está expresso que "Deus é Amor".
É, pois, o amor o sentimento mais puro que reina por toda parte e que aproxima os seres
de seu Criador.
O amor a Deus, na sua forma verdadeira, dá origem a todas as virtudes do Espírito, ar-mando-
o com as forças da Fé e da Esperança.
O amor ao próximo é a ação da caridade sob múltiplas formas.
Caridade é, pois, o amor em ação.
Por isso o dístico do Espiritismo advertindo que "Fora da caridade não há
salvação" (contrapondo-se ao "Fora da Igreja não há salvação") é uma verdade
límpida, desde que se entenda a salvação como o progresso do ser, a conquista
de novo estágio evolutivo, proporcional ao esforço individual na prática do amor,
e não uma escolha decorrente de uma profissão de fé dentro de uma corrente
religiosa.
A fraternidade é outra forma de expressão do amor ao próximo.
Todos os movimentos altruísticos, na demanda do bem, religiosos ou não,
quando se divorciam da fraternidade, tornam-se inócuos, vazios, inoperantes,
por lhes faltar a base do amor, da compreensão e da humildade.
No nosso Mundo, no Ocidente e no Oriente, os movimentos religiosos,
nascidos de princípios superiores sob a égide do Amor, com o passar do tempo
e o correr dos séculos, fragmentaram-se, enfraqueceram-se e tornaram-se contraditórios
justamente por falhas dos homens, incapazes de porem em prática a
compreensão, a indulgência, o perdão, resumidos na fraternidade, componentes
do amor ao próximo da lei divina.
O resultado foi a divisão, a intolerância, os conflitos e as guerras no seio do
catolicismo, do protestantismo, do islamismo, do hinduísmo, do budismo, além
de conflitos entre eles.
As incompreensões se alongaram até a atualidade, com acusações mutuas
entre grupos e pessoas, levando à divisão.
O perdão, componente da caridade, não seria muito mais lógico entre os
que cultivam uma religião que, por princípio, busca o bem?
São lições que a História coloca ao alcance de todos, a indicar a profunda
contradição entre os elevados princípios do amor ao próximo, da fraternidade
necessária, oriundos da lei divina, e a prática dos homens, imbuídos de orgulho,
de egoísmo, de intolerância e de fanatismo.
São experiências dolorosas que ao Movimento Espírita cumpre anotar, para
não incidir nos mesmos erros históricos.
Não basta ao espírita verdadeiro o conhecimento teórico da Doutrina Consoladora,
com o aprofundamento intelectual em seus princípios.
É necessário o cultivo do essencial, dos sentimentos fraternais nas fileiras
do Movimento, em consonância com a Doutrina, e não das idiossincrasias de
cada um de nós, que carregamos ainda muita pretensão, personalismo e intolerância,
manifestações de orgulho que não percebemos.
Não foi sem razão que o Codificador, com seu bom-senso e visão do futuro,
sintetizou os deveres do espírita sincero na atuação dentro do Movimento no
lema Trabalho, Solidariedade, Tolerância – verdadeira diretriz que, aceita e seguida
por todos, evitaria muitos desvios, implicâncias e intolerâncias nas Casas
e na Imprensa Espíritas.
Todos aspiram a um mundo melhor. A Doutrina Espírita é o grande manancial
em que o adepto sincero encontra a orientação segura para sua vivência.
Resta-lhe oferecer o testemunho individual de que compreendeu as finalidades
da Nova Revelação, aperfeiçoando-se no trabalho que realiza e não oferecendo
a comprovação de que permanece no orgulho e no personalismo incompatíveis
com a renovação íntima.
...
Há pessoas inclinadas ao bem, inclusive nas fileiras do Espiritismo, que
têm dificuldade em praticar a lei de adoração a Deus, justamente porque lhes
falta uma representação exterior do Criador.
Amar a Deus é praticar suas leis eternas, entre as quais as do Amor e da
Justiça sintetizam todas as outras.
Amá-lO é dirigir-Lhe o pensamento agradecido, pleno de sentimento e de
entendimento com as forças de que cada um é capaz, amando o outro, nosso
próximo, e toda a criação, manifestação dEle.
O cultivo sincero desse Amor ao Deus Único prescinde dos sacrifícios e
holocaustos. É a adoração em espírito, dispensando os cultos exteriores.
Esse amor sincero conduz à pratica da fraternidade e da solidariedade aos
nossos semelhantes, de quaisquer condições, raças e etnias, que caracterizará
a religião do futuro, em um mundo regenerado.
Jesus referiu-se, em ocasiões diversas, ao Pai como o Deus único, ratificando
o que a lei antiga prescrevia aos israelitas: "Ouve, Israel: o Senhor Teu
Deus é o único Deus" (Deuteronômio, 6:4).
Para nós, espíritas, não há dúvida sobre a personalidade de Jesus, filho de
Deus como Ele mesmo o declara, e não o próprio Deus, como ensinam as Igrejas
denominadas cristãs.
Essa diferenciação entre o Deus único, universal, Criador de todas as coe-las,
e seu Enviado à Terra, Jesus, o Governador Espiritual deste orbe, é de suma
importância para o cumprimento da lei divina do amor.
É o próprio Mestre que ressalta essa diferenciação, mostrando a necessidade
do amor ao Pai e a caridade, amor em ação para com o próximo como as
condições para alcançar o reino dos céus, ou seja, o progresso, a evolução espiritual.
Amar a Deus é reconhecer a causa da vida, que se manifesta por toda
parte, em todo o Universo.
Esse amor inspira a gratidão, a submissão e o respeito à vontade do Cria-dor,
expressos em suas leis.
A vontade manifesta de amar a Deus inspira o homem a melhorar-se espiritualmente,
procurando progredir moral e intelectualmente.
Na atualidade, a Terceira Revelação veio trazer à Humanidade o conheci-
mento de verdades que facilitam a aproximação do homem com as leis divinas,
recordando os ensinos do Cristo, dando-lhes a interpretação correta, retificando
os desvios ocorridos através dos séculos e revelando novas verdades consentâneas
com os novos tempos e com o progresso realizado.
Com o progresso intelectual, o homem desenvolveu os conhecimentos científicos,
descobrindo leis que regem a matéria, retificando os desvios. Aplicam-no
os novos conhecimentos à tecnologia, multiplicou a produção, facilitou o trabalho
nas suas múltiplas formas e melhorou a saúde das populações. A vida
material tornou-se melhor.
Agora, torna-se preciso estancar mais o egoísmo e o orgulho, pela prática
do amor, proscrevendo-se definitivamente as guerras e os conflitos entre nações
e grupos étnicos, terminando com a miséria física e moral de populações espalhadas
pelo mundo e intensificando-se a educação integral, ao lado da instrução
de todos os níveis, para que a população mundial, em contínuo crescimento,
alcance novo estágio de conhecimentos e de sentimentos.
Esse o grande desafio dos novos tempos de preparo da Humanidade para
um mundo regenerado, que se caracterizará pelo amor e pela justiça, na prática
da fraternidade, da liberdade no seu sentido verdadeiro, e da igualdade de trata-mento
para todos.
Nesse mundo do futuro, que caberá aos próprios homens construir, amar
será a lei para todos. l