O
Holocausto Maior
ROGÉRIO COELHO
“E
Jesus, chamando um menino, o pôs no meio deles.” – (Mateus, 18:2.)
Depois do terrível drama do Gólgota que sucedeu ao julgamento de Jesus,
julgamento
feito por juízes venais e omissos, pressionados pela casta sacerdotal
que
sabia muito bem manipular o poviléu ignaro, levando verdadeiras multidões à
sedição,
João, o Discípulo Amado, trasladou-se juntamente com Maria, a mãe de
Jesus,
para o promontório de Éfeso, onde ganhara uma nesga de terra
cultivável...
Era
um ponto geográfico privilegiado, aconchegante, emoldurado de rara
beleza,
de onde se avistava o mar pigmentado pelas velas coloridas das
embarcações.
Flores
miúdas, miosótis, ciprestes, loendros e tamareiras completavam a
harmonia
daquele sítio aprazível, pacato, hospitaleiro... Até mesmo os pequenos
animais
e os pássaros impregnavam-se do superior magnetismo ambiente,
parecendo
mais vivos e alegres com seus trinados a festejarem a primavera que
espocava
em beleza de variegado matiz.
Naquela
tarde amena, a brisa suave carreava o ar salitrado do mar que se
mesclava
com o perfume das diversas flores, e o poente fazia-se majestoso,
bordando
os outeiros com o ouro luminoso dos raios solares a se derramarem em
cascatas
de luz pelas pradarias sem fim...
Tudo
era paz. O silêncio convidava à reflexão...
Quase
quatro anos depois do cruento episódio do Calvário, João via desfilar
por
sua tela mental o episódio daquela frágil criança que o Mestre aconchegara
em
Seu regaço.
Uma
cariciosa vibração de amor repletou-lhe o coração ao rever as divinas
mãos
acariciando os cabelos desgrenhados daquela criança e parecia ainda ver
aquelas
duas perninhas magras pendendo balouçantes, frouxas e confiantes do
colo
do Mestre.
João
reencontra, agora, aquela mesma criança, com aproximadamente oito
anos
de idade. Adota-a, forjando-lhe o caráter com a têmpera dos alcandorados
ensinos
cristãos, condimentados pela aconchegante ternura e carinho de Maria.
Colocavam-se
na posição de pai e mãe do petiz.
Essa
criança se tornaria um dos maiores e mais abnegados cristãos dos
primeiros
e de todos os tempos: Inácio de Antióquia.
Estoicismo,
coragem, bravura da alma nunca lhe faltaram... Seguiu sem
tergiversar
as trilhas abertas por Paulo, Pedro e João na ampliação das fronteiras
cristãs
no solo sáfaro dos corações.
Impertérrito,
não reagiu à voz de prisão.
E,
num dia ensolarado e quente de agosto, é levado a Roma.
Acompanhemos
a sucessão dos fatos na empolgante narrativa de Divaldo
Franco,
sob a inspiração de Joanna de Ângelis:
“Ao
saltar no porto de Óstia, cercado por legionários, é levado a Roma pela
Via
Ápia, numa madrugada do mês de agosto. Ao chegar ao acume de uma das
colinas
que circundam a cidade, ele começa a sorrir. Aquele homem, a ferros,
alquebrado,
sorria a ponto de comover-se, entre lágrimas e júbilos...
O
legionário dele se acerca, esbordoa-lhe a face, e pergunta, na voracidade
da
cólera:
–
Tu deves estar louco. Por que sorris?
–
Sorrio diante de tanta beleza que os meus olhos descortinam. Sorrio
porque
chego a Roma e vejo uma cidade imponente. Sorrio ao olhar o casario de
mármore,
as estátuas que rutilam ao Sol, as águas prateadas do Tibre que
circundam
como um alaúde as montanhas. Sorrio...
O
soldado não podia compreender, e riposta:
–
Mas tu vais morrer. Ainda esta semana tu irás pelo fosso subterrâneo para
a
arena do circo, onde teu corpo será despedaçado pelas feras da Dalmácia.
Como
podes sorrir, se tu vais morrer?
–
É exatamente por isso que sorrio.
Pela
tela da memória passavam-lhe as cenas da remota Galiléia. A gentil
Galiléia
verde e branca; a suave Galiléia do mar a duzentos metros abaixo do
nível
do Mediterrâneo; a Galiléia das colinas, dos miosótis azuis, das trepadeiras
em
flor e dos roseirais, que se abrem e se despedaçam diante da brisa do mês
de
Nisan.
Ainda
sem compreender o sorriso do prisioneiro naquela hora tão imprópria,
visto
que estava preste a ser devorado pelas feras, o soldado insiste na pergunta:
–
Por que sorris?
Inácio
responde com incontida alegria a invadir-lhe os mais íntimos refolhos
da
alma:
–
Eu sorrio de felicidade porque agora eu posso ter uma dimensão do amor
de
Deus. Porque, se para vós, que sois adúlteros, corrompidos, abutres que voais
sobre
o cadáver das gerações vencidas, se para vós que sois criminosos, Deus
concede
uma cidade tão bela e tão harmônica, que não oferecerá Ele para os
que
Lhe são fiéis? Se a vós vos dá uma cidade opulenta e de prazeres, que nos
não
dará a nós outros, que Lhe temos dado a nossa Vida? Eu sorrio de gáudio,
antecipadamente,
e anelo para que venha o sofrimento já, a fim de que Ele me
leve...
Inácio
foi levado ao subterrâneo, onde encontrou os amigos.
Ali
ele se recordou de Jesus, falou-lhes durante várias horas a respeito das
blandícias
do Reino dos Céus.
Uma
semana após, quando milhares de espectadores lotavam o circo
Máximo
e a arena ovalada se repletava de feras da Núbia, da Dalmácia – que
não
foram alimentadas por uma semana e sobre as quais se atiravam postas de
carne
ensangüentadas, cheias de Vida para lhes espicaçar o paladar –, os
cristãos
foram lançados aos animais, que despedaçaram aqueles corpos frágeis
de
anciãos, homens, mulheres e crianças, também, estóicos, que se não
intimidavam
diante da morte.
Enquanto
Inácio aguardava o momento da patada no tórax que lhe
despedaçasse
ossos e músculos, nenhuma fera arrebentou-lhe o corpo.
Conta
a querida Benfeitora que, naquele momento em que as feras
saciadas
refugavam os cadáveres e ele, na arena ensangüentada, era o único
que
persistia, ajoelhou-se, humilhado, e perguntou:
–
Por quê? Por que fui poupado? Ser poupado é morte em Vida. Por que eu
não
tive a honra de morrer?
Apareceu-lhe
um anjo, um ser espiritual, e, contemplando-o entre lágrimas
de
amor, respondeu-lhe:
–
Inácio, morrer é muito fácil... Perder o corpo numa só arremetida é um
testemunho
pequeno para ti. Tu, que tanto amas Jesus, mereces algo mais
penoso
e magoador: Tu Viverás...
Morrer,
no momento leva-te ao paroxismo da abnegação, mas viver entre
pessoas
que te não compreendam, porfiar quando os outros desconfiarão de ti,
estar
firme no ideal no momento das dificuldades, eis o holocausto maior.
O
Mestre deseja que vivas, para que a Sua mensagem saia da tua boca e
experimentes
o escárnio sem delinqüir, experimentes a perseguição continuada
sem
desanimar. Porque esta é uma morte rápida demais para os que são bons e
fiéis.
Inácio
saiu da arena, e os companheiros supuseram que ele houvera
abjurado.
A calúnia sórdida, a intriga e a maledicência semearam, na comunidade
primitiva,
que ele teve a Vida poupada porque prestara sacrifício aos deuses.
Inácio
nunca se defendeu, porque quem ama Jesus não tem tempo a perder
com
defesas inoportunas. Ele jamais se justificou, porque deveria prestar contas
ao
seu Rei, não aos súditos e escravos, como escravo e súdito era ele. Não
disse
uma
palavra, até que os anos, dobrando-se uns sobre os outros, demonstraram a
grandeza
desse discípulo eleito, que passou a ser o protótipo do cristão
verdadeiro,
o modelo daquele servidor primitivo de Jesus, elevando-se à
categoria
de bem-aventurado por seu testemunho de amor...”
Inácio
de Antióquia é bem aquele discípulo verdadeiro do Cristo que vive a
Caridade
em toda a plenitude tal como a entendia Jesus: *
“Benevolência
para com todos, indulgência para as imperfeições dos outros,
perdão
das ofensas.”
* Kardec, Allan O Livro dos Espíritos, questão 886, 80. ed., Rio de Janeiro: FEB, 1998.