Telhado de Vidro
RICHARD SIMONETTI
João, 8:1-11.
Certa manhã, em Jerusalém, Jesus compareceu ao Templo.
Transmitia suas lições a um grupo expressivo de ouvintes, quando surgiram
alguns escribas e fariseus.
Apresentaram-lhe uma mulher, explicando:
– Mestre, esta mulher foi surpreendida em adultério. Moisés ordenou-nos
na Lei que seja apedrejada. Tu, pois, o que dizes?
Grave acusação, com base em dois dispositivos da Lei Mosaica: Em Levítico
(20:10):
Se um homem cometer adultério com a mulher de seu próximo, ambos, o
adúltero e a adúltera, certamente serão mortos.
Em Deuteronômio (22:22):
Se um homem for achado deitado com uma mulher casada, ambos serão
mortos...
A legislação mosaica era draconiana.
A pena de morte estava presente em muitas sentenças, envolvendo variados
delitos: rebelar-se contra os pais, trabalhar no sábado, exercitar o homossexualismo,
a idolatria, o contato com o Além...
A execução, não raro, envolvia a lapidação.
O condenado postava-se à frente do povo, que passava a atirar-lhe pedras,
até sua morte.
Foi assim que morreu Estevão, o primeiro mártir do Cristianismo.
Povo machista, os rigores da Lei eram sempre para a mulher, em questões
de fidelidade conjugal, tanto que nesta passagem somente ela estava sendo
acusada, embora o flagrante, obviamente, envolvesse seu parceiro.
Havendo suspeita de adultério, por parte do marido, a esposa era submetida
ao ordálio, o juízo de Deus.
Era o seguinte:
Diante de um sacerdote, era obrigada a beber nauseante poção. Se lhe
causasse intenso mal-estar, com incontrolável regurgitação, era proclamada culpada
e condenada ao apedrejamento.
Se resistisse, seria absolvida.
A segunda hipótese dificilmente ocorria.
A poção era forte, e ainda não existia o sonrisal...
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Escribas e fariseus estavam mal-intencionados.
Submetendo a adúltera a Jesus, armavam uma armadilha perfeita, infalível.
Qualquer que fosse sua resposta, estaria comprometido, lembrando o
adágio:
Se ficar o bicho come, se correr o bicho pega.
Se não a condenasse, estaria contestando Moisés. Falta grave. Seria
apontado como traidor.
Se a condenasse, perderia a aura de bondade, o maior obstáculo às maquinações
dos senhores do templo, que intentavam situá-lo como um frio iconoclasta,
destruidor do culto estabelecido.
O Mestre não se abalou.
Sentado à maneira oriental, escrevia na terra, como se meditasse.
Após momentos de eletrizante expectativa, pronunciou seu imorredouro
ensinamento:
– Aquele dentre vós que está sem pecados, atire a primeira pedra.
Fosse outra pessoa e, imediatamente, escribas e fariseus, acompanhados
pelo povo, desandariam a atirar pedras.
Com Jesus era diferente.
Dotado de incontestável autoridade espiritual, tinha pleno domínio da situação.
Pesado silêncio fez-se sentir.
Ante a força moral daquele homem que devassava suas mazelas, ninguém
se sentia autorizado a iniciar a execução.
Pouco a pouco, dispersou-se a multidão, começando pelos mais velhos,
até chegar aos mais moços.
Em breve, Jesus estava sozinho com a adúltera.
Perguntou-lhe então:
– Mulher, onde estão eles? Ninguém te condenou?
– Ninguém, senhor.
– Nem eu tampouco te condeno. Vai e não peques mais.
Detalhe importante, que sempre marca a ação de Jesus:
Condena o pecado, sem discriminar o pecador.
Cumpre a Justiça, sem negligenciar a Misericórdia.
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Nesta passagem vemos uma vez mais a extraordinária lucidez de Jesus,
ágil no raciocínio, a confundir seus opositores.
Foram buscar lã e saíram tosquiados.
E ainda aproveitou o ensejo para um ensinamento basilar:
Ninguém é suficientemente puro para habilitar-se a juiz de impurezas
alheias.
Essa idéia é marcante no ensinamento cristão.
Jesus situa como hipócritas os que não enxergam lascas de madeira em
seus olhos e se preocupam com meros ciscos em olhos alheios.
Observam falhas mínimas no comportamento dos outros.
Não encaram gritantes defeitos em si mesmos.
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Há em relação ao assunto curiosa situação:
Vemos nos outros algo do que somos.
O preconceituoso presume-se discriminado.
O maledicente imagina maldades.
O malicioso fantasia segundas intenções.
Projetamos no comportamento alheio algo de nossas próprias mazelas.
Assim, o mal está em nós mesmos.
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Quem estuda as obras de André Luiz percebe claramente que os Espíritos
orientadores jamais usam adjetivos depreciativos.
Não dizem:
– Fulano é um cafajeste, um vagabundo, um pervertido, um mau caráter,
um criminoso, um monstro...
Vêem o irmão em desvio, o companheiro necessitado de ajuda.
Consideram que todo julgamento é assunto para a Justiça Divina.
Só Deus conhece todos os detalhes.
Mesmo quando lidam com obsessores, tratam de socorrê-los, sem críticas,
situando-os como irmãos em desajuste.
Por isso Chico Xavier, que vive esse ideal evangélico de fraternidade autentica,
não pronuncia comentários desairosos.
Se alguém comete maldades, não diz tratar-se de um homem mau.
É apenas alguém menos bom.
Faz sentido!
Somos todos filhos de Deus.
Fomos criados para o Bem.
O mal em nós é apenas um desvio de rota, um equívoco, uma doença que
deve ser tratada.
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A fórmula para essa visão tem dois componentes básicos:
A intransigência e a indulgência.
Pode parecer tolice.
São atitudes antagônicas.
Mas é simples:
Devemos ser intransigentes conosco.
Vigiar atentamente nossas ações; não perdoar nossos deslizes; criticar
nossas faltas, dispondo-nos ao esforço permanente de renovação.
É o despertar da consciência.
Devemos ser indulgentes com os outros.
Evitar o julgamento, a crítica e as más palavras; respeitar o próximo, suas
opções de vida, sua maneira de ser.
É o despertar do coração.
Quando aplicamos essa orientação, ocorre algo muito interessante:
Quanto mais intransigentes conosco, mais indulgentes somos com o próximo.
Assimilamos um princípio fundamental:
Não podemos atirar pedras em telhados alheios, porquanto o nosso é de
vidro, muito frágil.