Encontro na Galiléia

 

RICHARD SIMONETTI

João, 21:1-14

pós os maravilhosos contatos com Jesus materializado, em Jerusalém, os discípulos

retornaram à Galiléia.

Aguardavam novas instruções sobre o que lhes competia fazer, na disseminação

dos princípios sagrados de que eram portadores.

Já instalados em Cafarnaum, Simão Pedro dispôs-se a sair de barco para pescar.

Seis companheiros, Tomé, Natanael, João, Tiago e dois outros, o acompanharam.

Passaram a noite em infrutíferas tentativas com as redes. Não conseguiram um único

peixe. Ao amanhecer, retornaram. Já perto da praia, notaram um homem que lhes acenava.

Pararam de remar e puderam ouvir sua voz, recomendando-lhes:

– Lançai a rede à direita do barco.

Os pescadores firmaram a vista. Aquele vulto parecia-lhes familiar. Mas, que estranha

recomendação, tão enfática!

Decidiram obedecer. Lançaram a rede como lhes fora recomendado. Momentos

depois, surpresos, verificaram que quase não a podiam puxar, tão grande era o número de

peixes presos em suas malhas.

Então João, comovido, identificou o homem da praia, e disse a Pedro:

– É o Senhor!

O pescador firmou a vista e confirmou: o desconhecido que os orientara era Jesus.

Com a impetuosidade que o caracterizava, cingiu-se com uma túnica e lançou-se nas águas

do Tiberíades. Estavam cerca de duzentos côvados, equivalente a uma quadra, perto

de noventa metros.

Pedro nadava com vigor, aproximando-se rapidamente da praia, seguido pelos

companheiros no barco, que avançava mais lento, em face da rede carregada de peixes.

Minutos depois, a euforia do reencontro.

Viram um peixe, num braseiro. O Mestre preparava uma refeição. Pediu-lhes mais

alguns.

Simão Pedro arrastou para terra a rede. Contou cento e cinqüenta e três peixes

grandes. Constatou, admirado, que, não obstante o peso, a rede não se rompera.

Alguns peixes foram entregues ao Mestre, que terminou de prepará-los. Depois os

convidou a comer.

...

Pela terceira vez, Jesus apresentara-se diante do colégio apostólico. Também o fizera

anteriormente, a Maria, a um grupo de mulheres, a dois simpatizantes no caminho de

Emaús... Segundo a exegese bíblica, houve ao todo onze aparições.

Observe, leitor amigo, que elas trabalham contra a concepção teológica da ressurreição.

Por que haveria Jesus de "aparecer" aos companheiros, se, ressuscitado, permanecia

com eles?

Mais lógico conceber que o Mestre materializava-se, buscando sedimentar nos

companheiros a convicção de que a morte não os separaria.

Ele não se refugiara em regiões siderais, a distância das misérias humanas. Continuaria

com eles, em todas as situações, amparando-os nos mais difíceis testemunhos.

A exaltação da fé, a coragem com que os cristãos enfrentavam as dificuldades e as

perseguições tinham sua origem exatamente nessa certeza.

Por maiores fossem as lutas e as dores, por mais árduos os testemunhos, por maiores

os sofrimentos, valia a pena tudo enfrentar por aquele Mestre generoso, que os amparava

em todos os caminhos, e que lhes acenava com uma eternidade de bênçãos, se

guardassem fidelidade aos seus princípios.

...

Se Jesus atravessava, tranqüilo, as fronteiras que separam o mundo físico do espiritual,

a Terra do Além, se afirmava que tudo o que fazia poderíamos fazer, por que não

haveriam nossos amados que partem, de exercitar essa mesma possibilidade, trazendonos

gloriosa mensagem de imortalidade?

Um dos grandes erros do dogmatismo religioso medieval foi negar essa realidade, e

pior, proibir que algo se tentasse, chegando a ameaçar com a fogueira os que o fizessem,

anulando uma das mais promissoras possibilidades desveladas por Jesus.

A Doutrina Espírita revive o intercâmbio sustentado por Jesus, mostrando que podemos

estabelecer contato. Nossos amados não estão em compartimentos estanques, a

distância das cogitações humanas.

Eles nos vêem, nos acompanham, nos ajudam, torcem por nós, comunicam-se conosco,

principalmente durante as horas de sono, quando transitamos pelo mundo espiritual.

Encontros maravilhosos, que registramos palidamente na forma de sonhos.

O contato com aqueles que partiram é o nosso alento e a nossa disciplina, ajudando-

nos a enfrentar os problemas da vida.

Exemplo típico: velório em família espírita. O ambiente é de serenidade, sem manifestações

de desespero, inconformação ou revolta, mesmo quando se trata da morte em

circunstâncias trágicas.

Não que haja isenção de sofrimento. É sempre dolorosa a separação. Não obstante,

trata-se de uma dor mais suave, amenizada pela submissão ao inexorável, à vontade de

Deus, em face da visão das realidades espirituais que o Espiritismo nos oferece.

A Doutrina Espírita, como diz o ditado, "mata a cobra e mostra o pau".

Mata a cobra – a morte.

Mostra o pau – o intercâmbio com o Além, que comprova a sobrevivência.

...

O encontro de Jesus com os discípulos, às margens do Tiberíades, oferece precioso

simbolismo.

Figuradamente, somos pescadores no mar da vida, a jogar, diariamente, a rede de

nossos interesses e iniciativas, buscando alimento que sacie nossa fome de conforto e

paz.

Geralmente, mal orientados pelo egoísmo, que é o móvel das ações humanas, lançamos

a rede do lado errado, envolvendo ilusões, vícios, ambições...

Talvez colhamos pedras reluzentes de vida mundana, cujo brilho nos atrai em alegre

expectativa.

Há pessoas que vivem relativamente bem, assim.

É uma questão de sensibilidade, de maturidade. Para quem tem estômago de avestruz,

pedra ajuda na digestão.

Mas sempre chega o momento de mudar. O imediatismo, as ambições, os vícios

acabam por cansar. Então, as pedras já não fazem sentido. Difícil digeri-las.

O corpo reclama, ficamos doentes...

O espírito reclama, ficamos intranqüilos...

Cuidados médicos especializados amenizam nossos males, mas fica o vazio, a

sensação de crônica insatisfação.

É preciso, segundo Jesus, jogar a rede do lado certo, do lado dos valores espirituais.

Buscar alimento para o espírito, envolvendo o aprendizado dos valores morais, o esforço

de renovação, o empenho por definir as razões da existência humana, considerando

que não estamos na Terra em jornada de férias. Há finalidades específicas, que nos compete

descobrir.

A Doutrina Espírita vem numa vanguarda de esclarecimento nesse sentido. Ensina

que somos viajores da eternidade em trânsito pela Terra, e que tanto mais felizes seremos

quanto maior o nosso empenho por cumprir as leis divinas, enunciadas no Evangelho.

O Espiritismo é Jesus de volta, na praia de nossos anseios existenciais, sugerindo:

– Jogai a rede do lado certo! Buscai os valores espirituais! l

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