A BIBLIA É UMA IMPORTANTE FONTE DE ESTUDOS ESPIRITAS
Autor: Carlos César Barro

    Por ter sido escrita em épocas remotas da humanidade, onde a condição
intelectual e moral não estavam  ainda desenvolvidas, e também por ter sido
revelada em meio de um único povo, o hebreu, a Bíblia chega até nós com uma
linguagem excessivamente simbólica, e presa aos costumes do povo e dos
períodos em que foi escrita.
    Allan Kardec explica na Revista Espírita, número de outubro de 1866, que
todas as Escrituras encerram  grandes verdades sob o véu da alegoria, e
porque os comentadores se apegaram à letra, confundiram-se quanto ao seu
verdadeiro sentido.  Para evitar este erro num estudo sério da Bíblia, tem-se
que levar em consideração três aspectos de entendimento que ela encerra,
examinando-os  com a chave que a Doutrina Espírita nos dá.
    O primeiro desses aspectos é o histórico, que se encontra presente em
todas as narrativas.  Compõe-se  nos costumes, nas condições sociais,
políticas e econômicas de uma época, que influenciaram,  mais ou menos, as
expressões e as figuras de linguagem usadas, as atitudes e o comportamento
dos personagens Bíblicos. Às vezes, alguns desses costumes nos chocam. Por
isso, temos que levar em consideração  o lado histórico, pois, na maioria das
vezes os missionários e os profetas tinham que adequar seus ensinos e até
seus atos à condição evolutiva de então. Cabe a nós fazermos esta análise e
levarmos isso em consideração.
    O outro item  é o moral, que também aparece em quase todos os trechos
bíblicos. Esta questão é  delicada, porque nas diversas fases em que foram
escritos, a moral humana se encontrava num natural estado transitório. Quanto
mais remoto o ensino, mais limitados os conhecimentos. Mas ainda assim
podemos tirar lições valiosas, pois enquanto a moral humana era relativa,  a
moral divina permanecia como fundo nas revelações, apresentando-se de
diversas formas, aplicada e adaptada à condição de cada época.
    O Evangelho de Jesus Cristo trouxe o desdobramento dos Dez Mandamentos e
uma concepção mais  completa da Moral Divina, que foi estudado por Kardec e
aplicada ao nosso tempo através de O Evangelho Segundo o Espiritismo.
Nota-se, que Kardec estudou as Escrituras quase sempre no aspecto moral e
histórico, que na sua época eram os mais importantes para o desenvolvimento
da Doutrina Espírita.
    O terceiro, e talvez  mais importante para os estudos que nos propomos, é
o aspecto iniciático de quase  todos os ensinamentos contidos na Bíblia. São
aqueles conhecimentos do mundo espiritual e da evolução do mundo, que se
escondem nas alegorias das narrações.
    Dessa forma, podemos achar todas as bases doutrinárias nas Escrituras
Sagradas e, com estudos  metódicos e sérios, podemos compreender mais
profundamente a formação da Terra e dos  povos que a compõem. Nelas, vamos
encontrar todo o nosso processo evolutivo: o primeiro, segundo e começo do
terceiro ciclo.
    Para bem entendermos este lado dos escritos sacros, é imprescindível  o
uso da chave que a Doutrina nos  dá: a análise de tudo, usando  a razão e os
princípios que o Codificador nos legou, sem preconceitos.  E desta forma,
fica patente que realmente a Bíblia é uma obra espírita.
    Usando estes conhecimentos, podemos estudar as partes da Bíblia que não
foram examinadas, tirando   delas  preciosos conhecimentos espirituais.
    Por exemplo, a Gênese  não foi toda  examinada por Kardec. No Êxodo,
podemos estudar as poderosas  faculdades mediúnicas de Moisés. Se
continuarmos, iremos deparar com os Salmos, Provérbios, o Livro de Jó, as
Profecias, os Milagres de Jesus, os Atos dos Apóstolos, as cartas de Paulo e,
por fim, o Apocalipse, todos repletos de informações a serem extraídas com a
poderosa chave do Espiritismo.
    Na sua forma atual, a Bíblia provém de uma tradução chamada de Vulgata
Latina, feita por São  Jerônimo a pedido do Papa Dâmaso, em 382 D.C., para
selecionar as inúmeras traduções que havia na época. Portador de grandes
conhecimentos linguísticos, Jerônimo pesquisou durante anos incontáveis
escritos bíblicos, compilados e traduzidos dos textos antigos.
    Assim, escolheu os livros que compõem atualmente as Escrituras,
considerando apócrifos dezenas de  outros. Seu trabalho sempre foi aceito por
todas as religiões cristãs, e mesmo Allan Kardec utilizou-se dele em seus
estudos.
    Atualmente, existe no movimento espírita uma forte tendência de
afastamento e desconsideração em  relação às Escrituras Sagradas. Isto
acontece devido a preconceitos e idéias preconcebidas, comuns entre nós, sem
qualquer demonstração de lógica filosófica ou científica.
    Diz-se  que a Igreja Católica deturpou profundamente os ensinos Bíblicos,
modificando-os conforme o  seu interesse, isso desde a tradução de Jerônimo.
Fala-se muito, prova-se pouco! Se assim fosse, a Igreja seria a primeira a
modificar as palavras de Jesus sobre a reencarnação de Elias como João
Batista, ou a adulterar a frase de João Evangelista que diz para não crermos
em todos os Espíritos, e sim verificar se eles provêm de Deus. Se formos em
frente, poderemos concluir que há mais argumentos contra a idéia de que a
Bíblia foi aduterada,  do que a favor.
    Quanto à variedade de traduções, que poderia levar a  falsas
interpretações, basta precaver-se  trabalhando com tradutores sérios,
evitando apegar-se à letra que mata, guiando-se pelo Espírito que vivifica.
Vale recordar, que um mesmo princípio aparece em várias partes da Bíblia,
facilitando e precavendo algum eventual erro de tradução.
    Dizem que as Escrituras fomentam o igrejismo dentro dos centros
espíritas. Mas nós, espíritas, temos  todos os instrumentos para evitar isto:
as partes científica e filosófica da Doutrina, quando bem aplicadas, são o
melhor remédio contra o misticismo extremado. Além disso, não podemos
criticar uma obra pelo mal uso que se faz dela.
    Usando da razão, compreende-se que a Bíblia é uma obra histórica, humana
e mediúnica, que foi  trabalhada através dos séculos por inúmeros
missionários, tendo em vista  a orientação moral da humanidade.
    Cabe aos espíritas, como trabalhadores da última hora, a obrigação de
usarem os conhecimentos  codificados por Allan Kardec, no sentido de ajudar a
guiar esta grande massa de Espíritos necessitados da palavra Divina que hoje
habita o planeta.
    Recordemos o Codificador, repetindo Jesus:  Eu não vim destruir a lei ou
os Profetas e sim dar-lhes  cumprimento.

 BANCO DE DADOS
 Jornal "A Voz do Espírito"
 São José do Rio Preto - SP

 Texto produzido em Abril de 1995
 Publicado: A Voz do Espírito, edição 72
 Reprodução autorizada, desde que
 seja citada a fonte.

Hosted by www.Geocities.ws

1