
DEUS ME LIVRE DE SER POETA.
Por Claudio Rabello
Deus me livre de ser poeta
e ficar conversando
com as paredes enquanto faz
tempestades
em copo d'água.
Semeando palavras pra colher
vento por destino,
por sorte, por praga, por
passatempo...
Escravo de um sentir que
não lhe cabe no peito,
escondendo sob a camisa as
marcas
do chicote da vida!
Mantendo preso entre os dentes
a sombra do
prazer que lhe escapou.
Se deixando lamber por chamas
de um inferno
particular na vã ilusão
da promessa
do Paraíso!
Deus me livre de ser poeta
e caminhar por
ruínas com a certeza
de não ser o primeiro
a sentir em rimas o viver
e o morrer
por dentro, e aí se
ocultar em outros,
e se revelar em outros versos
que a
alma tangencia...
Se valer de dogmas e mistérios
pra
confessar o que por natureza
é
inconfessável.
Moer a carne e os ossos até
que dessa estranha
matéria se promova
um ritual sem nexo.
Deus me livre de ser poeta
e documentar uma
dor que nunca passa.
Avalizar a paixão
que numa dessas esquinas
que não dobrou, um
dia, sobre ele caiu
e como um réptil se
enroscou em seu
corpo de um tal jeito que
não se sabe
o que é cabeça,
o que é rabo!
Ser poeira na estante, comida
de traça o
bastante que quase
desapareça
da história.
Deus me livre de ser poeta,
olhar para a folha em
branco e escrever tudo que
pensa!
Da bomba super-atômica
a cura da AIDS e mesmo
assim não explicar
toda feiúra e toda
beleza que existe por se
estar vivo
e conviver com a raça
humana...
Acordar
triste, vazio e só!
Pó que pó se
fará...
Deus me livre de ser poeta
nessa cidade tão linda
e não ter a flor breve
para colher e tentar
eternizar seu breve perfume.
Conviver com os fantasmas
de tantos até
ignorar o juízo!
Comer e beber do ventre e
dançar a prometida
valsa que jamais ouviu.
Dormir em palácios
e acordar nas calçadas
afagado pelo lambe-lambe
dos vira-latas...
Ser mentira sabendo que está
dizendo "verdades"!
Merda!
Deus me livre de não
ser poeta e ficar suando
diante da janela aberta definitivamente
convicto da minha sanidade
e
completamente perdido com
as possibilidades
do amanhã...
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