
Adágio
Claudio Rabello
Talvez ela não entenda
o meu amor,
talvez eu não entenda
o amor dela.
Meu amor é voraz ,não
pode esperar,
não conhece a palavra
adiar,
mais que isso desconhece
o
tempo e seus limites,
me empurra,
me encurrala,
não assiste!
O amor dela é suave
e bonachão,
acha que tem todo o tempo
do mundo
pra fazer o que não
sabe seu coração.
Para o meu os dias passam
numa
sucessão de horas
que se ligam e nada
interrompem e nada adiam.
Meu amor tem fome, tem sede,
tem tragédia e drama!
O amor dela nem tem nome...
Balança na rede da
comédia,
balança na corda da
cama!
E não é por
acaso que sofremos com ambos
e não é por
querer que continuamos.
Algum capricho do destino
bordou nossa sina
e nos deu nós indesatáveis...
Por não querer mais
vê-la e desejar tê-la
não me faz dela diferente
mesmo sendo.
Ou eu não entendo
o amor dela
ou ela não entende
o meu amor
na noite, na manhã,
na tarde
em que depositamos nossos
futuros
como dois desprezíveis
covardes
em baixo da vida, no meio
do caos,
em cima do muro.
E o silêncio que nos
protege nos destrói,
sentimento por sentimento,
mágoa por mágoa
e mesmo vendo este estado
de coisas
e sentindo no corpo e na
alma o
quanto nosso amor dói,
naufragando, desprezamos
a única tábua
que nos poderia tirar essa
capacidade doida
de a cada dia querendo viver
nos suicidar
e em vez de amar pra viver,
morrer pra amar!
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