|
REFLETINDO
SOBRE O PERÍODO DE ADAPTAÇÃO
Profa. Ms. Vera
Laura de los Santos Ferreira
Em se tratando
de escolas que mantenham turmas de Educação Infantil, a cada
início de ano letivo, o período de adaptação surge como uma das
preocupações mais imediatas a ser enfrentada.
Assim, quando
pensamos sobre esse período, surgem questões, como: Será que há
necessidade do período de adaptação? Qual a duração adequada
para esse período? É preciso um planejamento? Até que ponto a
observação desse período contribui para a vida escolar da
criança? Essas e outras questões, certamente, povoam o
imaginário dos adultos, quer de professores ou quiçá de muitos
pais.
Nesse
sentido, não podemos nos omitir de refletir coletivamente e
cooperativamente sobre essa questão, pois o modo de administrar
esse período é, principalmente, de responsabilidade do (a)
professor(a) regente em parceria com a equipe diretiva –
diretor(a), vice-diretor(a), coordenador(a) pedagógico(a) e
orientador(a) educacional, evidentemente, sem dispensar a
colaboração familiar, dos demais professores e dos funcionários
da instituição, já que a escola - composta por vários segmentos
que interagem, fazem escolhas e tomam decisões com vistas a
efetivar a proposta pedagógica da instituição - precisa ser
vivenciada como um sistema interconectado em que as partes e o
todo são interdependentes, se comunicam e influenciam a
consecução dos possíveis resultados almejados.
Sob essa
perspectiva, mesmo a criança já tendo freqüentado algum espaço
educativo infantil, cada experienciação precisa ser percebida
como única, pois acarreta conhecer novos colegas ou
professores, novas descobertas, novos sentimentos e/ou a
reelaboração de alguns já existentes. Convém ressaltar, que
mesmo oportunizando atividades já conhecidas das crianças, esse
fato em si, não invalida sua efetivação, desde que o (a)
professor(a) tenha clareza e intencionalidade nas suas escolhas
e ações, sempre respeitando a expressão da espontaneidade
infantil, ciente das urgências pertinentes à faixa etária
atendida e os fins da Educação Infantil.
É preciso
que deixemos de lado a excessiva pressa em mostrar resultados da
prática docente e, principalmente, a preocupação em introduzir
conteúdos preparatórios que tanto agradam uma parcela
significativa de pais e professores, que os julgam decisivos
para o eficaz desempenho do alunado no primeiro ano do ensino
fundamental.
Os
conteúdos educativos, longe de serem objetos abstratos de
conhecimento, desvinculados da realidade, a ser transmitidos
oralmente, precisam ser vistos como uma construção da criança
através de um processo interativo com os outros, em que a
iniciativa, a ação e a reação, a pergunta e a dúvida, a busca de
entendimento tem fundamental importância (Didonet, 2003).
Temos que
ter claro, que a infância, em especial até sete anos
incompletos, é um período mágico da vida humana que só se vive
uma vez. Desse modo, precisamos romper com a escolarização
precoce que teima em perpetuar-se nas classes de Educação
Infantil e apostar numa postura lúdico-educativa respeitando e
valorizando a infância e o direito da criança em vivenciá-la
efetiva e ativamente possibilitando a construção de novos
conhecimentos do mundo físico e social através de experiências
significativas, que aproximem diferentes sujeitos em diferentes
contextos de socialização, envolvendo as mais diversas
instâncias de expressão e cultura, desse modo contribuindo para
o desenvolvimento integral infantil e conseqüentemente para o
sucesso na vida e na escola.
Concordando com Fortuna (2000) e Vidal (2001) convém destacar
que uma prática, ludicamente inspirada, é aquela em que as
características do brincar fluem nas ações – intencionais – do
(a) professor(a) e nas atividades vivenciadas pela criança,
enquanto sujeito ativo em desenvolvimento, construtor e
reconstrutor de seus conhecimentos e experiências, e
principalmente, na interação pautada pela parceria de ambos –
adulto e criança - frente à consecução de um currículo norteado
por uma pedagogia que respeite a infância, enquanto fase marcada
pela descoberta, pela espontaneidade, pela imaginação, pela
criatividade e pela fantasia.
Desse
modo, há que estarmos atentos a esse período, dedicando um
planejamento adequado à realidade vivenciada e as
características infantis da turma sob nossa responsabilidade.
A duração
desse período e a sua organização – como também de todo o ano
letivo -, certamente, irá variar para cada unidade escolar,
respeitando as diferentes realidades e suas disponibilidades
estruturais, temporais, materiais e humanas, às necessidades e
expectativas das crianças e pais e à proposta pedagógica a ser
efetivada. Nesse sentido, abre-se um leque de possibilidades,
desde que se ouse e utilize a criatividade, a imaginação e o
conhecimento legal e educativo-pedagógico pertinentes à questão.
No intuito
de facilitar a integração da criança no ambiente escolar, o
ingresso pode se dar de forma gradativa em relação a sua
permanência. Outra possibilidade válida se refere ao recebimento
diário de pequenos grupos de crianças até integralizar a
totalidade da turma.
Precisamos
estar cientes de que esse período muito especial, em que todos
os envolvidos almejam vivenciá-lo da melhor forma, é um processo
que ocorre, em parte, com imprevisibilidade e de forma
diferenciada de criança para criança e da criança para o
adulto. Diferentes acontecimentos, comentários mínimos,
gestos menores podem influir no percurso de cada criança, de
cada família ou mesmo escolar. Acontecimentos esses, muitas
vezes passados despercebidos devido ao andamento cotidiano.
Entretanto, não há como negar que as pessoas - crianças, pais e
professores - ficam mais sensíveis nesse período que envolve
tanto questionamentos, descobertas mútuas como ajustes
relacionais. Essa sensibilidade que nos deixa mais atentos aos
pequenos fatos ocorridos, pode facilitar ou dificultar os
diálogos como a condução das situações.
Facilita,
a medida em que as relações se tornam mais flexíveis, abertas
para ouvir o que os outros têm a dizer, aumentando a
possibilidade de reflexão sobre os acontecimentos assumindo-se
atitudes pertinentes.
Dificulta,
quando a sensibilidade produz um nível de ansiedade ou
nervosismo exacerbado fazendo com que um pequeno gesto de um,
sem maiores intenções, seja interpretado como ofensivo por
outrem, de forma a instaurar desconforto emocional e interativo.
Esse é um
dos motivos que reforça a importância de contar-se, nesse
período, com o auxílio dos integrantes da equipe diretiva, em
especial, do(a) orientador educacional, como também, de outros
professores disponíveis para ouvir desabafos, conversar,
orientar, dar apoio aos que, porventura, vierem a manifestar
certa necessidade.
Uma forma
inadequada de proceder é manter o espaço infantil ou mesmo a
escola fechada aos pais. Essa prática suscita mal-estar,
conflitos e confrontos desnecessários entre escola e família,
afastando a oportunidade valiosa de estabelecer confiança,
parceria e conhecimento mútuo. Com isso, quem mais sofre é a
criança, além de acarretar possíveis climas desfavoráveis ao
estabelecimento de vínculos afetivos entre as crianças e o (a)
professor(a). Desse modo, convém estabelecer normas de
convivência para esse período com a colaboração dos pais.
Ter um dos
responsáveis junto à criança na escola, nesses primeiros tempos,
possibilita à família melhor conhecimento do(a) professor(a) e
de sua proposta de trabalho, resultando em maior segurança,
aceitação e tranqüilidade para ambas as partes. A presença dos
pais auxilia a criança a sentir-se segura e a enfrentar desafios
relacionados a exploração do novo, bem como de estabelecer
relações com outras crianças e adultos de forma natural.
Durante o
processo adaptativo, as crianças vivenciam momentos de separação
que podem desencadear comportamentos inesperados e/ou
indesejados, principalmente se os pais saírem escondidos da
escola, a fim de que o filho não chore ou o retenha. Nesses
momentos é preferível que a criança veja e saiba que o pai ou a
mãe está saindo, que expresse sua tristeza ou raiva e que seja
consolada, pois com o tempo, ela irá perceber que seus pais
voltam todos os dias para buscá-la. Outra possibilidade consiste
em apostar em acordos entre pais e filhos, evitando chantagens
ou mentiras. Nessas situações convém ao (a) professor(a)
contribuir, através de sua experiência anterior, para um
encaminhamento sereno da adaptação infantil.
Quanto aos
pais com dificuldade de separar-se das crianças, quando estas
não evidenciam necessidade imediata de suas presenças, cabe à
escola encontrar formas sensíveis, esclarecedoras e eficazes de
proporcionar apoio para que eles superem as possíveis causas dos
medos ou inseguranças experienciados.
Finalizando, convém reforçar que a boa relação afetiva entre
crianças e professor(a) deve ser interpretada pela família como
indicativo de acolhimento e de um trabalho qualificado pautado
no cuidar- educar. Para tanto, é necessário que a escola invista
na divulgação e explicitação clara dos fins da Educação
Infantil, da proposta pedagógica e do papel do(a) professor(a)
de Educação Infantil, permitindo com que os pais vivam essa fase
com maior segurança e serenidade contribuindo positivamente com
o processo de adaptação das crianças, pois um período de
adaptação bem conduzido possibilita uma relação produtiva entre
família e escola.
REFERÊNCIAS
BIBLIOGRÁFICAS:
FERREIRA,
Maria Clotilde (org.) et al. Os fazeres na Educação Infantil.
São Paulo: Cortez, 1998.
FORTUNA, Tânia
Ramos. Sala de aula é lugar de brincar? In: XAVIER, Mª. Luiza M.
e DALLA ZEN, Mª. Isabel. (orgs.) Cadernos Educação Básica:
Planejamento em Destaque: análises menos convencionais. Porto
Alegre: Mediação, 2000, n. 5, p. 127 – 142.
VIDAL,
Fernanda Fornari. Uma sala de aula em que se pode brincar. In:
DALLA ZEN, Mª. Isabel. (org.) Cadernos Educação Básica: Projetos
Pedagógicos: cenas de salas de aula. Porto Alegre: Mediação,
2001, n. 7, p. 36 – 61.
REVISTA PÁTIO:
Educação Infantil. Porto Alegre: Artmed, ano I, abril/junho,
2003.
|