Em Vara de Família é o que se
chama de erro essencial de pessoa. Digamos que a moça havia se apresentado
por vários fins de semana durante o namoro como prendada nas coisas
do lar, ótima cozinheira e tal. No dia-a-dia conjugal, porém,
viu-se o blefe. Era a mãe que organizava tudo. Erro essencial de
pessoa. Não tem problema. Desfaz-se o casamento e pronto. O caso
que vou narrar está acontecendo comigo. Infelizmente não
tem jurisprudência. Erro essencial de bairro.
Que lei protege um cidadão que em 1994
escolheu o paraíso para morar, e nessa fantasia investiu todas suas
economias, um bairro notável pelo seu índice zero de ruído
- e em 2002 é obrigado a conviver com a súbita erupção,
ao lado do seu apartamento, de uma casa de show ao vivo? Parece que é
um drama comum no Rio. Chegou ao Cosme Velho. Em que Vara se bate na porta?
Aos poucos todos os bairros vão ficando iguais e, pior, quase sempre
iguais aos que os outros bairros têm de mais lamentável. Como
se fossem um jovem qualquer, todos com a mesma calça jeans rasgada.
O Catete virou uma ruela decadente do Centro, da mesma maneira que Copacabana
já transbordou sua infelicidade até a Vinícius de
Moraes. Que costureiro cruel, já que a semana é de moda,
padroniza essas mazelas?
As cidades, como os filhos, infelizmente crescem,
fazer o quê? Deviam, no entanto, conservar essa dimensão humana
e ser como os filhos, as pessoas em geral. Todos crescem e ainda assim
se conservam basicamente os mesmos - com exceção, claro,
do Michael Jackson - e são reconhecíveis por um jeitão
de corpo ou uma pinta na bochecha. Os bairros do Rio, infelizmente, perderam
sua identidade e vivem o auge da esquizofrenia - ou quem mora no início
da São Clemente às vezes não tem a impressão
de que acordou na Marquês de Abrantes? Quem foi para Copacabana nos
últimos 60 anos sabia que a vocação do bairro era
o cimento, o grande comércio, a diversão - e hoje reclama
principalmente que esse destino esteja traduzido numa Selva de Pedra em
que o ser humano foi esquecido. De um jeito ou de outro, porém,
você olha nos olhos de Copacabana e ela não te engana. Sempre
foi da pá virada, da muvuca.
O que está acontecendo em torno da estação
do bondinho do Corcovado no Cosme Velho é diferente. De um lado
da praça morava Cecília Meireles. Do outro, Machado de Assis.
No meio do silêncio, os pontos e as vírgulas dos grandes escritores
pulsavam aos trinados dos pássaros - ou como é que vocês
achavam que eles pontuavam seus textos? Hoje, com o barulho do show ao
vivo na estação do bondinho, só é possível
escrever textos como este. Perdoem. Decibéis não são
gramaticais.
Os turistas que se dirigem aos pés do Cristo
são submetidos antes a um diabólico festival de buzinas de
trem, sinetas, alto-falantes berrando partidas - que em todo mundo são
anunciadas em sinais silenciosos - e um show de amplificador e microfone
que não tem absolutamente nada a ver com o espírito da coisa.
O horror no lugar da paz que havia, ainda no ano passado, aos pés
do Redentor. Dentro do espírito predatório de que breve tudo
será a mesma coisa, o bondinho do Cosme Velho, um serviço
da União, bomba sua estupidez como se fosse um inferninho de Copa.
E o que deveria ser uma ante-sala do paraíso, vira uma câmara
de ruídos, esse gás letal com que se mata, em tom de festa,
os últimos sinais de civilidade que ainda pulsam.
O turista paga R$ 15, e tchau, nunca mais. Muvuca
por muvuca, conhece melhores em Munique. Ao morador do Cosme Velho, exposto
o dia inteiro ao massacre sonoro que transborda há dois meses da
estação, só resta por enquanto pagar o pato, pagar
o IPTU e, desesperadamente sozinho, avisar que paga o que mais for preciso
para que não seja a próxima vitima esquizofrênica do
erro essencial de bairro.