Estação terminal

Joaquim Ferreira dos Santos

(Revista de Domingo, no Jornal do Brasil de 28/07/2002)


Em Vara de Família é o que se chama de erro essencial de pessoa. Digamos que a moça havia se apresentado por vários fins de semana durante o namoro como prendada nas coisas do lar, ótima cozinheira e tal. No dia-a-dia conjugal, porém, viu-se o blefe. Era a mãe que organizava tudo. Erro essencial de pessoa. Não tem problema. Desfaz-se o casamento e pronto. O caso que vou narrar está acontecendo comigo. Infelizmente não tem jurisprudência. Erro essencial de bairro.
Que lei protege um cidadão que em 1994 escolheu o paraíso para morar, e nessa fantasia investiu todas suas economias, um bairro notável pelo seu índice zero de ruído - e em 2002 é obrigado a conviver com a súbita erupção, ao lado do seu apartamento, de uma casa de show ao vivo? Parece que é um drama comum no Rio. Chegou ao Cosme Velho. Em que Vara se bate na porta? Aos poucos todos os bairros vão ficando iguais e, pior, quase sempre iguais aos que os outros bairros têm de mais lamentável. Como se fossem um jovem qualquer, todos com a mesma calça jeans rasgada. O Catete virou uma ruela decadente do Centro, da mesma maneira que Copacabana já transbordou sua infelicidade até a Vinícius de Moraes. Que costureiro cruel, já que a semana é de moda, padroniza essas mazelas?
As cidades, como os filhos, infelizmente crescem, fazer o quê? Deviam, no entanto, conservar essa dimensão humana e ser como os filhos, as pessoas em geral. Todos crescem e ainda assim se conservam basicamente os mesmos - com exceção, claro, do Michael Jackson - e são reconhecíveis por um jeitão de corpo ou uma pinta na bochecha. Os bairros do Rio, infelizmente, perderam sua identidade e vivem o auge da esquizofrenia - ou quem mora no início da São Clemente às vezes não tem a impressão de que acordou na Marquês de Abrantes? Quem foi para Copacabana nos últimos 60 anos sabia que a vocação do bairro era o cimento, o grande comércio, a diversão - e hoje reclama principalmente que esse destino esteja traduzido numa Selva de Pedra em que o ser humano foi esquecido. De um jeito ou de outro, porém, você olha nos olhos de Copacabana e ela não te engana. Sempre foi da pá virada, da muvuca.
O que está acontecendo em torno da estação do bondinho do Corcovado no Cosme Velho é diferente. De um lado da praça morava Cecília Meireles. Do outro, Machado de Assis. No meio do silêncio, os pontos e as vírgulas dos grandes escritores pulsavam aos trinados dos pássaros - ou como é que vocês achavam que eles pontuavam seus textos? Hoje, com o barulho do show ao vivo na estação do bondinho, só é possível escrever textos como este. Perdoem. Decibéis não são gramaticais.
Os turistas que se dirigem aos pés do Cristo são submetidos antes a um diabólico festival de buzinas de trem, sinetas, alto-falantes berrando partidas - que em todo mundo são anunciadas em sinais silenciosos - e um show de amplificador e microfone que não tem absolutamente nada a ver com o espírito da coisa. O horror no lugar da paz que havia, ainda no ano passado, aos pés do Redentor. Dentro do espírito predatório de que breve tudo será a mesma coisa, o bondinho do Cosme Velho, um serviço da União, bomba sua estupidez como se fosse um inferninho de Copa. E o que deveria ser uma ante-sala do paraíso, vira uma câmara de ruídos, esse gás letal com que se mata, em tom de festa, os últimos sinais de civilidade que ainda pulsam.
O turista paga R$ 15, e tchau, nunca mais. Muvuca por muvuca, conhece melhores em Munique. Ao morador do Cosme Velho, exposto o dia inteiro ao massacre sonoro que transborda há dois meses da estação, só resta por enquanto pagar o pato, pagar o IPTU e, desesperadamente sozinho, avisar que paga o que mais for preciso para que não seja a próxima vitima esquizofrênica do erro essencial de bairro.
 
 

Arquivo                         Resposta


Hosted by www.Geocities.ws

1