O
DÉCIMO MÊS
ou
a sublime arte de manter os porcos batizados
Menino, grudava em tua orelha
pra dormir. Pegava tua orelha aconchegado ao peito.
Aconchegado em nossa volta quando nos disseram não. Não, não
batizo, és solteira!
A mulher da pia e lavagem não
tinha direito à pia batismal.
E fomos então aos porcos. Tu,
solteira. Eu, gorduchinho, pagão.
Não batizo!
O que sentistes nunca
contastes, ô, mulher resignada!
Pia, prato, copos, os talheres
devias quebrar. Não me ensinastes como se quebra talher, o
aço, a pedra do coração.
E devias. Copos não me
bastam, copos não me bastam quebrar.
Como preservar tuas coisas se
não quebrar agora a pedra imensa desse coração? Eu,
merecedor de teu afeto, teu filho, pagão.
Já não rezo. Nunca rezei.
Sabes, choro, mas choro como aqueles que trazem os olhos
esgazeados como o santo que mantinhas em tua cabeceira ali.
Os paninhos de tua higiene íntima também à cabeceira. A
primeira dor de dente também ali.
Ave Maria, não! Pai Nosso, não.
Não batizo!
Não batize! Ela dava o seu
corpo mesmo, viu padre! Vendia o seu corpo, colaborava com a
casa, me fez o filho pagão!
Isso é rezar?
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