Cabeça, pescoço, gato destroncado


I

     Invenção do Rozeno, as carreiras não passavam de cinco fios estendidos na extensão da serraria e que já chamavam A Cancha dos Gatos. Consistia em prender no pescoço de cada um dos parelheiros uma coleira de couro e argolinhas de uns quantos tamanhos prateadas. Quando os gatos disparavam, a argola então deslizava no fio de aço estendido, sendo uma idéia bem simples.
     Era carreira adaptada de cavalo e só trazia um problema. Não tinha se achado ainda a melhor forma de diminuir o sofrimento dos gatos. Cinco metros após a linha de chegada, os bichos destroncavam o pescoço. Sem limites, depois que passavam, os gatos chasqueavam bruscamente ao darem com as estacas de ferro bem lá no final.
     Era ali o destronco e era a única judiaria mais forte.


II

     Numa certa noite, o Valvite viu como um dos gatos veio: desconfiado, andando em volta, cheirando o engradado antes.
     O Valvite tremeu de nervoso.
     Era uma caça esperada, um gato que só destreza, uma caça pra paciência e muita atenção. Desconfiado. Era um gato do pêlo preto, que se confundia com o escuro. Que só se deixou se prender traído pelos miúdos, pelas tripas, por um segundo de distração. Foi só o quanto deu. A linha esticou-se, firme, e o caixote baixou de brusco. Ah!, que o gato se debateu já unhando, que embolou-se bicho e isca, que já era um diabo que tava ali.
     O Valvite então, o coração acelerado, veio do escuro e se aproximou da caixa com a lanterna. Mirou na cara do bicho preso e parece que até vibrou.
     E o gato, ao sentir a aproximação e o cheiro do ronda, ao ser focado pela lanterna, ron-nou, mostrou as garras, circulou raspando e tapando com terra seca a sua isca, a traição.
     — Não é que te peguei! Não é que te peguei, que o pariu! — gritava o Valvite, o Valvite já colocando uma pedra por cima do engradado.
     Bom-Bril. Esse era o nome do presidiário na caixa. Era assim que chamavam o gato por causa dessa sua já famosa cor ligada ao pêlo preto. Um pêlo preto-preto, puxando pro azulado.
     E o Bom-Bril, com os olhos azuis no escuro, era mesmo um mau anjo enviado.


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