Éramos eu, uma mexicana
muito chata, uma alemã, sempre na dela, e dois caras
da Finlândia. A turminha de estrangeiros na Universidade
Toulouse Le Mirrail, em 1987, era pra ser legal, porque era
pequena, mas eu não andava com cabeça pra “integração”.
A minha grana se esvaía e eu previa tempos muito difíceis
logo adiante. Não conseguia me concentrar. Passava a frango
com arroz direto. Era a minha especialidade naquele “estudiozinho” entre
a universidade e a cidade dos aviões.
Os Pirineus nevados ao fundo. Soprava um vento intenso e eu ficava
tentando adivinhar na janela, na Espanha, onde estava o pintor
Salvador Dali. Ele estava bem próximo e no finzinho e
eu só usando direto um casacão que levei do poeta
Luís Coronel.
Ele, outro dia, contou pra os meus amigos da Spaghetti desse
casaco. Confesso, Coronel, foi uma baita melancolia lembrar do
casacão e da volta.
É
, eu também não resisti à França.
Faz tempo, também frente à França caí.
Quero apenas que me respondam agora. Será que eu fiz bem
largar tudo e me dedicar a escrever?
Deixa que eu chuto a resposta, porque não fiz lá.
O chute, talvez da minha vida, eu tenha deixado de dar em Toulouse.
Só agora vejo. Na universidade, quando eu me queixava
dos poucos tickets (quase passava fome!), me convidaram pra jogar.
Sério! Fazer um teste no Toulouse! Sabe como é,
você é brasileiro e, quem sabe, possa ficar com
eles. E arrumei uma chuteira, pasmem, de um amigo português
da faculdade, e não é que no dia amarelei. Achei
que estava fora de forma e ia fazer fiasco, suando a minha vida
levada a peixe e aquele Coq au riz...
Fiquei em casa escrevendo. E dando umas aulinhas de Cinema Novo
por comida até que desisti. Eu tinha de escolher: ou faculdade
ou ir pras uvas. E foi quando eu fui até Monsieur Emorrine, à caixinha
do serviço social e me enfiaram de volta num trem. Avião
em Paris. Foi a minha segunda extradição. Antes,
dois anos antes, eu fora deportado de Lisboa...
Mas, de Toulouse, eu trouxe um livro pronto, que só aqui
intitulei: Glaucha.
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