Crônicas

 

A canção das panelas

     Criança se beijar é que nem uma lágrima. O Pedro Antônio e a Ana Elisa se beijaram a primeira vez atrás do marmeleiro. O Pedro Antônio se lembrava da primeira vez do mar e que no mar tinha o Homem-peixe.
     Crianças também entristecem os doentes. Não é de hoje e nem só em dias tristes. Para as crianças, o doente é alguém que fica gostando mais de Yesterday pra toda a vida. Já notaram como as crianças se sentem mais aliviadas com essa música? E ficam direitinho de lado pra se beijar. E nesse beijinho de lado a lágrima escorre assim: bem aqui, no caroço do rosto, quando se tem caroço de nascença como os peixes.
     E a cozinha só não andava mais triste porque as crianças eram obrigadas a passar ali. E diziam, crianças, pelo amor de Deus, entrem pra baixo da mesa, respeitem a Néia. E que a Néia não ficasse no apuro, pedisse pras crianças também ajudar.
     E era por isso que a Néia deixava se beijar. E a Néia, na hora de dar banho, dava um grande susto no coração do Pedro Antônio.
     Se beijar numa grande dá um grande susto. Mas criança se beijar é que nem uma lágrima.
     O Pedro Antônio se lembrava da língua da morte da mãe e das pernas peludas da Néia também se lembrava. Será que era por causa dos pêlos que tinha nas pernas que a Néia sentia um desprezo com os próprios cabelos?
     Lutava com os cabelos dela. Os cabelos da Néia eram também cabelos de galinha e ela batia nas panelas.

     O Pedro Antônio e a Néia ficaram amigos. O Pedro Antônio que levaram no velório com uma blusinha de marinheiro. E o vestido que mudaram na mãe dele tinha a cor da mariposa. As crianças que acompanhavam, queridas, ficavam sentadas. Tudo tinha o gosto da Néia no caixão da mãe dele. O tom combinando, as flores inocentes de coroa, nada de muito caro pra quem tinha loja.
     Pensando bem, os que trabalham, mas trabalham por anos, entristecem na morte da patroa. E quer jogar que daqui a pouco a Néia chorava?
Como diria a Néia, “praticamente”. E também praticamente parecidas eram ela e a cantora Martinha. A Néia que beijava guri na boca.

 

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