Eu
tenho um site na internet que preciso abastecer de textos,
novidades e ilustrações. Eu mesmo arrisco os
desenhos e nunca sei o que vai acontecer. Começo com
rabiscos e só depois enxergo o que fiz. Outro dia, desenhei
um trapézio, um malabarista no alto, e pelos cabelos
do cara só podia ser eu.
Coloquei isto no blog e uma amiga, em visita por lá, deixou
a pergunta: Qual é a visão que se tem do mundo
de cabeça para baixo, assim, da forma que estás
neste trapézio?
Eu não respondi. Pretendia que o texto (cujo título
era “reflexões de um escritor”) bastasse em
si. Ele fala do mar, do vento, de espuma e sangue do nariz. Fala
de uma gata e a máquina de lavar. Eu pensava que isso
era bonito, porque fala ainda “da cor de um eclipse que
até os porcos pararam também pra ver”.
Era poético e achei que não havia o que dizer.
Mas, estava óbvio, a minha amiga provocava.
E eu entendi. Ela tocava no ponto (sem me dizer, a esperta!):
acompanhava ainda o saldo de mortes das ações do
PCC e polícia em São Paulo. Isso nas minhas barbas
e eu falando de gata em máquina de lavar?
Eu sabia disto, mas estava ali expresso o meu enfaro. A posição
do trapezista era já o desenho dizendo o escritor, o artista,
sua posição diante de tão grave crise.
Se o mundo está de “cabeça pra baixo” (o
absurdo daquela foto do Viaduto do Chá, o ponto mais movimentado
de São Paulo, vazio ao meio-dia de uma segunda-feira)
cabia ao escritor recompor e expressar este seu país.
Mas, chega um momento em que a realidade é tão
cruel e decepcionante, que mesmo o escritor, na posição
que esteja, teme encher o saco.
Isto é ruim. Quando o artista, as antenas do seu meio,
cai no enfaro, quando o absurdo se instala e o criador reage
pelo desânimo, por preferir não bater teclas tão óbvias
(ou não acharam nojentas as explicações
do Silvinho aquele de novo no CPI?) é porque ficou sério.
Ainda assim, meu desenho era a manifestação do
criador. Porque ao artista, muito mais que o sociólogo,
cabe a expressão do seu mundo. Que permaneça em
seu trapézio.
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