Crônicas

 

A sorte e o medo

     A sorte do vivo é o desmaio. A sorte do fogo é a brasa, do cravo é a rosa, da espuma é o sabão.
     A sorte vendida no Shopping é a sorte da banca, sorte em exposição.
     Sorte no canto do ouvido, a sorte num corpo de sogra, a invenção do sutiã.
     A sorte que se diz, a sorte se quer, a sorte, quem faz a sorte é o freguês.
     Pra formiga é o trevo, pra canção é o yes!
     No teatro se diz, Merda!, no gibi era um Gastão, na sorte da Matemática, sobra soma ao subtrai.
     A sorte do balaio é o gato, a sorte da fome é o prato, não a temos, é azar.
     Mas há sorte pra todos os lados. É a sorte na queda dos dados, é sorte nas cartas viradas, é a sorte vendida, dieta, capa da revista Mulher.
     Leiam a sorte!
     Temam a morte!
     A sorte é destino, um baita acaso feliz.
     Ou a sorte do Opala não foi o Chevette existir?

***


     O morto de medo dobra bem as mangas, gosta de água morna, tem caprichos de vidro, busca coragem em CD.
     Tem o medo do Mercado, não sabe do hippie feliz.
     Tomar um guidão, ter um Jeep, se mandar por aí.
     Ao contrário, o borrado anda às voltas, tá no gim, na cachaça, o medo tem sobrenome, é a falta de culhão.
     O medo das lojas. O medo-remorso, o medo do que não fez.
     Que o medroso não faz nada, deita cedo, tapa a cabeça, não dorme de medo também.
     De medo do vento, de um outro casamento, de encarar a vinda de um filho e desafinar na canção.
     Por isso não canta. O medroso é um triste e a sua elegância reside aí: o sentimento do medo é o tremer; o comprimento das pernas a bambar.
     Unhas roídas. O medo é feio, é vício, vírus, o covarde tem essa barra a lhe empatar.
     Eu já vi por causa do medo muito carão no amor.
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