D.
Carmem estaria hoje de aniversário. Três anos
já sem ela, a lembrança é a da minha
outra mãe por tabela. Dona Zezé, minha mãe
negra de criação, também há anos
morta.
Nasci em churrascaria, e por ali não dava, filho em cozinha,
imaginem! E Oneide e Elsa, colegas então da Carmem, certa
tarde me “roubaram”. Levaram o guri para a casa e
só depois contaram. Estava com D. Zezé, a mãe
delas, e seus 4 netos. Fui ser a criança onde havia o
cachorro Dick. Criei-me ali até os 5 e foi isso: de Zezé recebi
o carinho, os cortes pelas mijadas. Foi ela quem apimentou a
camisa que eu insistia mascar crescido. E era também seu
mascote, ela de véu, um véu muito negro, e os dois
lá na missa.
Nem devia. O vigário me havia negado o batismo, nem importa,
e D. Zezé foi a primeira morta de minha vida. Fui chamado
para um beijo quando se despedia, pois ela morreu em casa.
E então de volta à Carmem. Ainda na pia. Agora
Hotel dos Viero, mais impraticável. E fui mandado para
uma outra José, a avó materna. Costureira, recém
no Bonja, minha avó logo entrou pra Assembléia.
Os cultos à noite, eu na Assembléia não
entrava. Era minha fidelidade à outra, entendem?!
Coincidência, o templo era defronte ao Hotel dos Caminhoneiros.
E eu ficava então ali, aguardando o culto. Era quando
D. Carmem abria a janela. Eu debruçava vendo ela lavar
pratos e colocando os assuntos em dia. Fiz arte, como ia o colégio,
precisava sapatos??
Sempre assim os diálogos. Olho no olho, mas com uma parede
entre os corpos. Pouco nos abraçamos na vida.
E na janela da pia, ela já de reumatismo. Mãos
na quente, água fria, minha mãe já falava
no “encosto”. Sempre bicos e papagaios e problemas
nas juntas.
E andei em Porto, passei Europa, fui bater em Bom Jesus e Caxias.
E D. Carmem sempre com as “costas e os joelhos”.
Decidimos então que operava e foi a tormenta. E, ali,
no Pompéia, a janela por fim se rompera. Eu a chamava
de mãe no momento aflito.
A “mãe” nunca pronunciada. Porque aprendera
o D. Zezé e D. Carmem, respeitosamente.
|