O último beijo foi bom
e forte, deu muito mais do que tinha a dar. O último
beijo, como uma prece, suplicava o milagre, a cura, o enriquecimento
súbito que a distância traz. O último beijo
queimou, ardeu, antecipou a saudade e foi um beijo pra durar.
Ele dava afago, conselho, uma noite inteirinha pra pensar.
Beijo para durar porque era o último.
Era o último. E um último bem piegas, com lágrimas,
era um beijo de frouxar as pernas, bem coisa de mulher! E por
isso foi doce, beijo de Sul a Norte, de deixar cicatriz o beijão!
E coceira, mal-estar, um calor de se lavar.
E, sendo último, estavam ali, agora, aflitas, agitadas,
as duas em plena compreensão: muitos últimos beijos
haviam deixado para trás. Não beijaram assim e
deviam. Deviam ter-se beijado mais pela última vez. Dentro
de casa, na correria, no que desse, deviam tudo deixar de fazer.
E beijarem-se. Um beijo, um último beijo deviam querer
e ganhar. Uma da outra....
Por isso, este último beijo não as envergonhava.
Agora era um incêndio, um afoguear, uma coisa nunca vista
e nem deixavam aparecer. E estava ali, no ar, um beijar que era último
e primeiro, tudo a ver!
Só descobriam agora. E era tarde. O último beijo
(era só o que faltava) veio lhes aproximar. O último
beijo era a casa que ficava, as coisas que já andavam,
e as duas, mãos, seios aproximados, as duas a se salvar.
No último beijo se desmaia e uma desmaiou. E sem vergonha,
porque o último beijo foi bom, da hora, foi fatal. Ele
botou porta adentro um coração em fogo, coração
precisando de água, beijo último, derradeiro, conclusão,
ponto e fim: fez da mulher, guria. Fez da madura, ingênua,
menina, criança, um beiço só!
O último beijo é pra sentir e esta trocou de ponta.
Porque o último explode, estica, suga e sorve, é beijo
com alta pressão. Um último beijo acaba com tática,
quem já não viu???
E esta atônita, muito pasma, grudadinha um tempão.
No último beijo ela ficou com os braços da filha
em torno. Sentiu o corpo inteiro e suado, chorou na hora e reclamou: “ter
filha pra quê?”
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