Compre-me
porque eu cortei uma com lata ontem, eu ando ainda com raiva,
pensei de novo em cortar. Compre-me porque dá mais
vontade de fazer coisa, não só eu, umas e outras,
a gente pensa de ruim.
Compre-me porque eu sou menina e sou da mãe que sentiu
um desejo de grávida por mim. Compre-me porque eu tive
umas sapatilhas que ninguém mais usava e que o meu pai
tinha sido morto por fazer mau, macumbas no Rio.
Compre-me porque eu preciso de uns comprimidos e se eu pegar
dos nervos sinto raiva, vou num camburão, ou sei lá.
Compre-me porque eu nunca esqueci que eu era menina, não
era guri. Compre-me porque eu já cansei!
Compre-me porque eu era a Rosa, a Rosa da Dalva, da Dalva não
sei de quê.
Compre-me porque eu faço que durmo, que não conheço,
não passo de curiosidade pra você. Compre-me, toque
em mim, compre-me como se compra um artista, jogador de futebol.
Compre-me de coração, miúdos e tripas, me
leve tudo inteira se dinheiro tiver.
Vamos, compre-me, me dê saúde nova, e eu vou ter
UNIMED se comprada por você.
Compre-me, diga, “tenho filha diferente”; compre
e me exiba como um troféu. Compre-me, não fique
com pena de mim! Compre-me antes do teu derrame. Invente pra
mim Sapatinha, me ensine a brincar.
Compre-me, é uma boa causa, é coisa moderna, sou
canhota, peça publicitária, sou tevê, um
esmalte, faça a papelada de mim.
Compre-me pra se acalmar. Compre-me, deixe o remorso, compre-me,
leve-me, sou às centenas, aos milhares, aos bilhões.
Compre-me. Orgulhe-se, seja um bom maçom. Compre-me e
suborne uma alfândega do Brasil.
Compre-me, eu posso ir pra Suíça, sou baixo preço,
o valor nem sei.
Compre-me porque um gordão do mercado já me comprou!
***
Este conto integra a coletânea Contos Cruéis, a ser lançada
pela Geração Editorial na Bienal do Livro de São Paulo.
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