Minha
mãe arregaçava as mangas e lavava os pratos
lá do hotel. Muitos anos minha mãe arregaçou
as mangas lá pelos Viero, no Hotel do Arlindo, e além
de passar almoço e janta direto na pia, ela se arregaçava
pra uma outra função.
É que descobriram o seu pão-de-milho. Ah!, depois
disso, nunca mais!!! Era pobre, rico, advogados, o Seu Abdon
e um padre atrás daquela “gororoba” em procissão.
Só podia ser suas mãos.
Até onde eu saiba, pão-de-milho é farinha
de milho e água e só. Um ovo e açúcar
na medida, talvez. Estou errado nisso? Se estou errado é a
prova de que não me interessei. E nunca interessei mesmo
por tal perícia e arrependo agora de não ter roubado
da Carmem o segredo do pão-de-ló.
E era bom pelo jeito mesmo, porque davam tchau ao pão
de padaria e o pão-de-milho com chimia era de segunda
a domingo sem parar.
Eu lembro de gente que se deslocava só por causa desse
pão. E o pão-de-milho tão esperado era assim
remunerado, coisa de Bom Jesus: trocavam por latão de
abacaxi. Ela ganhava um corte de vestido se fosse Natal.
Pelo pão, ela se sentia querida. E ninguém reparava
que o pão-de-milho, muitas vezes, era com farinha emprestada,
o que eu vi ocorrer.
Se alguém lhe prestava favor, ou dinheiro, já retribuía
ela com o justo pão. Era a sua felicidade e maior gosto,
ahã: fazer o pão-de-milho e sair pra levar!
E D. Carmem a cada vez caprichava. Caprichava e numa bacia fazia
uns floreios que resultavam em outra atração: as
roscas. As roscas também de milho eram feitas com a mesma
mão e o tempo no forno, claro, à lenha sem baixar.
Não fiquei com a receita disso. Sei que ela deixou lá no
Bonja esse legado, que anotaram, olharam e aprenderam, e parece
que a Lurdes do Resmo é quem mais o jeito pegou.
Soube pelo Simão da Caixa que é uma delícia
o pão que a Lurdes faz. E agora o pão-de-milho
da Tia Carmem ele busca por lá. Se desloca, entre outras,
pra isso. E o Simão me contou de forma tão simples
que nem notou. A lágrima que eu engoli. A saudade que
eu senti, deixa pra lá...
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