Crônicas

 

Broca

     O homem, trêmulo de pedra, desossa a laje. É um exercício cirúrgico. O homem, luvas brancas, sacode, treme e se fragiliza num alalaô subterrâneo que a máquina embocada no piso faz. Desparafusa o que é cinza e aço, terra densa e matéria estúpida e o homem sacode.
     Treme a carne este homem que broca e destrói a construção de nossa espécie. Desarma o ferro e o aço. Triste espetáculo! O broca e desbroca da laje. Há duas semanas o homem desconstrói o piso e vive trêmulo porque querem isso tudo no prazo.
     Pra quê?
     E ele desfaz e esbrugulha a mesma pedra lisa e estendida há uns 15 dias. A lisa laje fria que pés gementes decerto a sapatearam. Ele esbrugalha, pisa e carnavaliza ainda a laje velha em sua morte. Esta laje onde pneus tiniram é só agora uma forma de amor deste homem hábil.
     Ama o que faz. Surdos são os seus passos em torno da pedra construída. A pedra que é pedra agora arrependida e o homem a toma, a broca e a maquina. Levado assim no tranco, vai cumprir o prazo e os nossos ouvidos que se danem. Um danar-se igual a esse acontecimento de nossa raça: estúpido é o Homem que faz a pedra e a pedra esbrugalha num círculo sem fim. A pedra ontem construída é pedra arrependida e o homem a toma, a broca e a maquina.
     O homem quer a remissão de um pecado que fez à pedra e tenta voltar à pedra original.
     E a betoneira com que levanta esse urrar insalubre na tarde é cabal prova da inutilidade do que construímos. O progresso (palavra em desuso decerto como a laje!) é o homem flagrado. É só um rugido na estupidez da máquina.
     Este Vrummmmm da máquina nos faz mau ao humor. Este brurrrrrr da máquina nos impacienta e nos adoece. Este vrummmmm e brurrrrrr estragam nossas janelas e portas e entra sábado e domingo esse rugir adentro. A máquina e o homem rugem e a pedra despedra-se.
     O som da pedra que o homem corta é como o som de um aborto.

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